‘Música tem de ser de graça e estar na Internet para quem quiser ouvir’

‘Música tem de ser de graça e estar na Internet para quem quiser ouvir’

Sonia Racy

07 de abril de 2014 | 01h06

Marcelo Jeneci (Foto: Paulo Giandalia/Estadão)

Mesmo com suas músicas embalando trilhas de novelas da Globo, Marcelo Jeneci quer mais: “Que, em algum momento, elas toquem lá em Guaianases, onde nasci e vivi até os 19 anos”.

Hoje ele completa 32 anos. Depois de passar por um tumultuado (como não poderia deixar de ser) retorno de Saturno – em que se separou de Verônica Pessoa, com quem se casou em 2006; descobriu a liberdade de experimentar coisas novas e se jogou um pouco mais na vida; em que enfrentou um momento “de arma na cabeça”, em um mal-entendido, quando estava indo para uma festa, e acabou, por engano, entrando em outra casa –, Marcelo Jeneci diz estar começando a viver plenamente (sem nunca ter feito análise) o que chama de “segunda infância”. Tudo isso aconteceu quando se preparava para fazer seu segundo disco, De Graça – que define como “um pouco mais maduro” do que seu primeiro trabalho, Feito pra Acabar, de 2010. “Tentei juntar todas as experiências que vivi de um disco para o outro. As porradas da vida, os sonhos que a gente vai substituindo e o momento em que a gente aprende a rir da própria desgraça, vivendo com mais graça”.

E todo o processo de produção – desde a hora em que se sentou para compor, no verso de um papel de fotografia, a primeira letra, passando pelos ensaios com a banda e a gravação com a orquestra de Eumir Deodato, no Rio – está filmado. Para ser transformado em documentário, a ser lançado no segundo semestre. Mais precisamente, no dia 21 de setembro, na primavera – quando completa exatamente um ano do dia em que Jeneci saiu do estúdio com o De Graça pronto. Ideia de Izabel Lenza, namorada e parceira em seis músicas no álbum – que ele apresenta pelo projeto Sons da Nova, sexta e sábado, no Tom Jazz.

Também foram registradas imagens do dia em que o músico levou o disco, pela primeira vez, à casa dos pais, em Guaianases, na zona leste da cidade – onde ele nasceu e viveu até os 19 anos. O fato de ter sido criado lá faz diferença em sua música? “Mais do que o lugar onde nasci, faz mais diferença ter nascido na família em que nasci.” Porque, embora seus pais, Gloria e Manoel – que vive de eletrificar sanfonas de acordeonistas famosos, como Dominguinhos, Osvaldinho e Sivuca –, continuem morando no mesmo bairro, hoje ele convive pouco com o que costuma chamar de “primeiro testamento de sua vida”. “Apesar de ter vindo da periferia de São Paulo, de ter estudado em escolas públicas – já nesta péssima fase em que elas estão –, sempre existiu dentro de mim um olhar para o infinito. De sempre querer mais, mais e mais…” Ambição? “Que, em algum momento, minha música toque lá em Guaianases também, que chegue até lá como tantas outras chegam.”

A seguir, os melhores momentos da conversa com o cantor.

O fato de você ter nascido e crescido em Guaianases faz diferença na sua música?

Certeza que sim. E sem nenhuma questão panfletária. Mas, mais do que o lugar onde nasci, faz mais diferença ter nascido na família em que nasci. Tudo é berço. Minha mãe teve o primeiro filho aos 18 e eu nasci quando ela tinha 19. Trabalhou durante os nove meses de gestação, naquelas lojas de roupas do Brás, passou por essas dificuldades que os pais contam para a gente. Fizeram diferença o amor e a maneira como eles me criaram e fez diferença também crescer ouvindo o que chegava até lá. Talvez por isso eu tenha essa ambição de preferir fazer música para muitos, não para poucos. É uma ambição e uma vontade de que, em algum momento, minha música toque lá em Guaianases também, que chegue até lá como tantas outras chegam.

É fazer uma música acessível?

É por aí. O mais importante nessa história toda de “para qual direção vai”, independentemente se é para um determinado nicho ou para um público mais aberto, é a honestidade em dizer o que se tem para dizer. Essa sinceridade em fazer algo que se está vivendo é o que eu mais valorizo. Porque me autoriza na hora de cantar para cinco mil pessoas. Autoriza, alimenta e vicia.

Você se policia para compor músicas que atinjam muita gente?

O mais importante para mim é criar uma obra sem contradição, sem muita interferência. Ser muito honesto. Acho que essa foi a ferramenta mais poderosa que caiu na minha mão na hora de fazer o segundo disco. Para vencer o tal fantasma do segundo álbum, me dei conta de que era só ter a mesma honestidade do primeiro e ver o que dá no final. Não sei se é mais comercial ou menos. Mas sei quais músicas podem chegar longe e quais não podem. Na hora de fechar um repertório, só me contento quando vejo que o disco tem muitas canções que podem ir muito longe. E aí, sim, faz sentido mantê-las todas ali. E acontece naturalmente. Não me policio.

Nesse segundo disco, você quis compor mais?

Quis. Mas, mais do que isso, acho que precisei. Rolou Feito pra Acabar e, depois de dois anos de shows, veio a necessidade de fazer o segundo disco. Confesso que estava assustado com isso. Estava justamente saindo do período do retorno de Saturno, tinha a chegada aos 30 e tal. Com uma vida muito nova: recém-separado, com o mundo todo para viver, com a liberdade para fazer tudo, experimentar coisas novas e se jogar um pouco mais na vida. Estava em um ano de nascimento, de nova era. E isso tudo aconteceu quando eu estava prestes a fazer o De Graça. Acho que, naquele momento, eu precisava encarar um novo desafio, que era o de compor a maioria das letras, sem recorrer tanto aos grandes letristas que são amigos queridos e próximos.

E como foi esse processo?

Em março do ano passado, logo depois do carnaval de Olinda e Recife, passei um período muito intenso de dormir pouco e compor bastante. Não tinha papel e o único que achei aqui em casa foi aquele de fotografia, que tem um lado brilhante e outro fosco. Fui fazendo as músicas ali. A sensação é essa: quando se compõe, é como se estivesse aos poucos revelando uma imagem. Ao mesmo tempo em que há um esforço para adequar a melodia à palavra, vem uma surpresa também na hora da criação.

Você se lembra de sua primeira composição?

Já disse que foi uma e já disse que foi outra. Porque acho que elas nasceram no mesmo período. O Primeiro Fole, com José Miguel Wisnik, e Amado, com Vanessa da Mata, a primeira a ser gravada e a que, até agora, foi a que chegou mais longe.

Como ela mudou sua vida?

Comecei a adorar ver as pessoas cantando e não me sentir parte daquilo. Adorava essa coisa de ‘ser invisível’. Via as pessoas cantando e ficava lá, apenas curtindo. E ela foi um grande incentivo para que eu acreditasse na possibilidade de gravar um disco. Dali em diante, fiz outra com a Zélia (Duncan), que virou a música de trabalho dela; e, depois, uma com o Arnaldo (Antunes), que também virou a música de trabalho dele. Minhas parcerias sempre foram direcionadas para um certo poder de sedução na primeira escuta. Gosto de músicas que, desde o primeiro acorde, mudam o clima de onde ela está tocando. De ver a variação de público – de velhinhos a crianças – nos shows. Dessa porta aberta para a família inteira e em muitas casas.

É possível estar nas trilhas de novelas da Globo e, ao mesmo tempo, disponibilizar as músicas de graça na Internet?

Atualmente, nós, que vivemos da música, ainda estamos amarrados a algumas âncoras que não funcionam mais hoje em dia, que têm de ser deixadas para trás. Nos anos 1980, houve aquele auge de grana no mercado fonográfico; depois voltou a ser como era antes. Não que agora haja uma crise. O diferente foi o que aconteceu ali. E, naturalmente, como a grana saiu do mundo da música, as pessoas que não têm nada a ver com música, e tinham só grana, também saíram. O que limpou um pouco o terreno e possibilitou que músicas pouco mais sofisticadas aparecessem também em grande escala. Até lembrei daquela frase do Gil, na música Rep: “O povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe”.

E a distribuição de graça?

A sociedade adquiriu o direito de consumir música de graça, filme de graça, literatura de graça. Ou seja, ter acesso, sem custo, à cultura. Esse direito foi adquirido e tem de ser preservado. Levanto essa bandeira de uma maneira óbvia. Meu desejo, ao lançar um disco com esse nome, em um ano em que já não é mais nenhuma novidade a não-comercialização da arte – foi novidade em 2007, quando o Radiohead lançou o In Rainbows –, e em que tudo triplicou de preço, em que qualquer pizza em São Paulo custa R$ 70, qualquer apartamento R$ 1 milhão, era que ele também fosse distribuído de graça. Ou seja, vamos manter o direito adquirido pela sociedade e colocar o disco de graça na Internet para quem quiser ouvir. Porque, quando temos o intuito de criar algo, esse impulso é gratuito. E tem graça se ele é distribuído de graça. Não que não tenha quando não é. Mas adoro fazer shows abertos ao público, porque ali vejo uma galera que não consegue nem ir ao circuito Sesc. E que só vai ao circuito do show de graça. Tem de haver opção. Quanto mais alternativa se tem, mais no futuro a gente está. É essa direção que apoio, é nela que gosto de ir.

Nesse contexto, há essa discussão em torno da programação da Virada Cultural, de tirá-la do centro.

Tem de abrir mais, descentralizar. No aniversário de São Paulo, por exemplo, estava aqui em casa vendo a programação de atrações e me dei conta de que, mesmo lançando um disco, não estava nela. E sou dessa cidade! Pensei: “Ah, que se foda. Vou fazer um show”. Anunciei na Internet que ia me apresentar em uma praça pouco ocupada, a Horácio Sabino. Liguei para a banda, para os técnicos, aluguei o som, o gerador e, no dia seguinte, havia 1.200 pessoas lá. Ou seja, rolou. Vou fazer a mesma coisa na Virada Cultural.

Como se posiciona em relação a direitos autorais e Ecad?

O direito autoral da obra intelectual é muito precioso. Tem de ser passado para o autor, para a família. Acho que, aos pouquinhos, a gente avança. As ferramentas estão aí, com muitas manchas que atrapalham o bom funcionamento da máquina. Acredito que chegará o momento em que ficará mais bem fiscalizado, e novas leis vão surgindo para valorizar o autor. Obviamente, o que recebo de direitos autorais faz diferença na minha vida. Não é muito, como era antigamente. Mas faz diferença.

Como está sua relação com a sanfona?

Preciso ter mais respeito por ela. Toco pouco. A sanfona tem uma participação muito importante na vida da minha família. Meu pai vive de eletrificar sanfonas, e o Brasil inteiro fez esse serviço com ele: Dominguinhos, Osvaldinho, Sivuca. E a sanfona é o instrumento que, de fato, eu toco.

De onde veio a primeira?

Foi presente do Dominguinhos, quando eu tinha 18 anos. Como era muito cara, não tinha condições de comprar. Ele me emprestou uma – com ela, fiz uma turnê com o Chico César por Europa, EUA e Canadá durante três meses. Na volta, tentei pagar pela sanfona, mas ele não aceitou.

E como era a sua relação com o Dominguinhos?

Na infância, meu pai me levava quando ia entregar a sanfona na casa dele, na Vila Mariana. Quando comecei a tocar, a gente se encontrava em algumas situações. Ele falava pouco, mas eu notava um carinho, como ele teve por muita gente. Tinha um lance bonito, sabe? E até hoje não sinto que ele morreu. Acho que existem pessoas que são sem fim. A sanfona é pesada e abraça, como o abraço dele – que é um amigo sem fim. /THAIS ARBEX

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