‘Música erudita na pandemia sim, a gente não pode deixar o barraco cair’, diz criadora do Mozarteum

‘Música erudita na pandemia sim, a gente não pode deixar o barraco cair’, diz criadora do Mozarteum

Direto da Fonte

24 de janeiro de 2022 | 06h00

Há 40 anos comandando o projeto, Sabine Lovatelli conta como é a luta, no dia a dia, para manter uma atividade que une óperas, concertos,bolsas e formação de talentos num projeto educacional

Sabine Lovatelli. Foto: Rubens Chiri / Perspectiva

Sabine Lovatelli. Foto: Rubens Chiri / Perspectiva

Trabalhar com música erudita não é fácil num país como o Brasil. E manter uma empresa, ou vários projetos no longo prazo, em plena pandemia, também é uma dura batalha, como bem sabe qualquer empresário. E são esses mesmos problemas que marcam nos últimos
tempos o dia a dia de Sabine Lovatelli em sua tarefa, desde os anos 80, na condução do Mozarteum. E, em especial, nos últimos dois, para mantê-lo de pé artistica e financeiramente.

Nesta conversa com a coluna, sobre um projeto que está completando 40 anos, Sabine repassa um pouco dessa longa aula de sobrevivência. Na qual pôde contar com a decisiva ajuda de patrocinadores fiéis. Também, de músicos e cantores que se empenham em passar adiante, aos novos alunos, o que aprenderam. De uma programação diversificada que junta memoráveis noitadas de concertos com masterclasses, bolsas, aulas no YouTube, o Canto em Trancoso – que volta este ano –, mais o projeto Mozarteum Escola, que se tornará permanente. E, para manter acesa a chama da plateia, ela montou para 2022 um programa que inclui celebridades como o Gershwin Piano Quartet e artistas do Bolshoi. “Isso tudo, música erudita, aprendizados, é parte da educação, coisa fundamental para o desenvolvimento de um país. Então, a gente não pode deixar o barraco cair, tem de continuar transmitindo isso”, avisa. A seguir, trechos da conversa de Sabine com Gabriel Manzano.

Como o Mozarteum, lidando com música erudita, neste País, neste momento, sobrevive à pandemia?

Acredito que é por causa da nossa história de antes da pandemia. Porque temos credibilidade, fizemos programas contínuos, aumentamos a parte da educação. E sobrevivemos graças à fidelidade dos nossos patrocinadores – pois, afinal, continuamos a ter despesas com escritório, salários, viagens e tudo o mais.

É um desafio a cada dia…

E veja, ninguém reduziu os custos. Por isso a ajuda de patrocínio é essencial, numa hora de retomada. Quando paramos a programação de concertos presenciais, incrementamos a parte educativa, com os filmes de concertos antigos. E começamos uma série de masterclasses dadas por nossos artistas lá de fora, que são bons pedagogos e bons professores.

Trata-se de cursos de música?

Organizamos aulas para leigos, que achei divertidas. Sobre como segurar um instrumento, como respirar, como se postar num palco. E para os músicos já iniciados fizemos masterclasses mais focadas. Tudo isso para manter os jovens ativos – jovens que, em muitos casos, tiveram de trabalhar, ajudar a família. Criamos até uma competição, a Cadenza, espécie de caça-talentos em que os interessados mandam um tape da sua execução e no final podem até ganhar uma bolsa. Nossos parceiros lá fora têm também centros de jovens, que sempre acolheram os alunos que mandamos pra lá com bolsas de estudos.

Foi difícil interromper, em 2020, o projeto de Canto em Trancoso?

Esse é um exemplo concreto. Paramos dois anos atrás. Na época eu falei aos artistas: “Olha, mantemos o contrato mas vamos postergar tudo por um ano”. Aí veio o segundo ano, as coisas não melhoraram e de novo tivemos de adiar. Ora, a gente sabe que isso não dá pra fazer sempre, eles precisam aceitar outros compromissos.

Nesse ano e meio como foi o contato com as casas de musica equivalentes de outros países?

Nós temos esses contatos há 20 anos, e isso continuou. Músicos que a gente conhecia foram muito solidários com nossos jovens. Eles querem passar know-how, aceitaram dar as masterclasses via internet, ajudaram onde podiam.

Do ponto de vista financeiro, como sobreviveram?

Gastamos menos porque não tínhamos os cachês dos músicos pra pagar, nem as viagens.Encurtamos a despesa do dia a dia. No entanto, não sei como vai ser agora, quando tudo recomeçar. O preço das passagens aéreas dobrou, os hotéis também, o seguro dos instrumentos das orquestras… nem fale. A logística ficou toda mais cara.

E o público? Acha que daqui por diante ele vai voltar naturalmente?

Minha expectativa é que volte, que encha os lugares. Não sabemos como será. Mas por trás disso há um plano, um trabalho que vem lá do início, de mostrar como a música importa, ela é parte da educação, da cultura – e isso é fundamental para o desenvolvimento de um país. Então, a gente não pode deixar o barraco cair, tem de continuar transmitindo isso.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.