Mônica Martelli defende ajuda à cultura e critica quem acha arte ‘uma coisa menor’

Mônica Martelli defende ajuda à cultura e critica quem acha arte ‘uma coisa menor’

Sonia Racy

06 de maio de 2019 | 00h41

MÔNICA MARTELLI. FOTO: GABRIELA BILÓ/ESTADÃO

Atriz reestreia em SP o sucesso
‘Minha Vida em Marte’
e avisa: sem apoio
à cultura ‘não sei o que será de nós’

Desde 2005, quando estreou seu espetáculo Os Homens são de Marte… É pra Lá que eu Vou, a atriz Mônica Martelli percebeu que seu grande projeto havia dado certo. Entretanto, nem sempre foi assim. Em entrevista à repórter Marília Neustein, em sua casa em SP, a atriz revelou que, durante muitos anos, sentiu-se deslocada na profissão. Foi graças à sua mãe, “uma grande feminista”, que a incentivou, que a peça saiu do papel. “Percebi”, diz ela, “que estava esperando as pessoas comprarem os meus projetos, terem olhos pra mim. E de repente quem tem que ir para a rua mostrar isso sou eu, entendeu?”

Depois de 13 anos de plateias lotadas, um filme que foi sucesso de bilheteria e uma série no GNT, a também produtora hoje se considera privilegiada, mas ressalta: “É muito trabalho”. A atriz retorna ao Teatro Procópio Ferreira com a peça Minha Vida em Marte – que já acumula 150 mil espectadores desde sua estreia em maio de 2017, no Rio. Todo o sucesso ocorreu em um período no qual se discutem as leis de incentivo e o acesso à cultura no País. Indagada sobre o assunto, Mônica é categórica: “Me parece que o governo acha que (a cultura) é algo menor, então eu não sei o que será de nós”. Abaixo, os principais trechos da conversa.

A peça volta para São Paulo. São quantos anos em cartaz com seus espetáculos?
Estreei Os Homens São de Marte em 2005. Fiquei 13 anos em cartaz, estreei Minha Vida em Marte em 2017, no Rio, lá fiquei 9 meses. E depois fiz em algumas cidades, vim pra São Paulo, fiquei 4 meses com casa lotada, e isso vivendo esse momento complicado, com teatros vazios.

Nesse meio tempo também teve o filme, certo?
Sim, que foi muito mais do que a gente esperava, foi uma loucura. E a série acabou de estrear no GNT a terceira temporada.

Como é ser uma atriz que tem seu próprio produto de sucesso?
Tenho a parceira de vida, que é a Suzana Garcia, minha irmã, diretora da série, da peça e do filme. E a gente trabalha muito. Se alguém pensa ‘ah, deu sorte’, sempre digo que é você que fabrica a sua sorte. Falo ‘amor, eu não tava na praia e falei, gente, vou ali rapidinho fazer um sucesso e já volto. Não amor, é trabalho’.

É mais ou menos a mensagem que deu a Lady Gaga ao ganhar o Oscar.
Muita persistência, muito trabalho. E sabe o que aconteceu? Eu inventei uma carreira pra mim. Comecei no Chico Total, só que eu era meio deslocada, sem saber onde me encaixar.

Por quê?
Porque quando eu comecei o humor era muito estereotipado. Nos programas tipo Chico Total, Zorra Total, você era a mulher bonita ou a mulher feia. E geralmente é piada em cima de mulher gostosa, de gay. Era uma outra época. Eu ficava meio perdida, não sabia onde me encaixar. Ao mesmo tempo não tenho perfil de mocinha, porque sou grandona. Sabe uma atriz difícil de encaixar? Até você entender isso são anos de sofrimento, de ralação. Fiz de tudo. Fiz galinha no teatro, tartaruga na televisão. Eu estava muito infeliz na carreira. E foi aí que minha mãe me provocou: “Até quando você vai ficar esperando que as pessoas tenham olhos pra você? Pega um caixote, vai pra praça, sobe em cima e fala teu texto pro mundo”. Ali caiu uma ficha importante pra mim.

Qual?
Percebi que estava esperando as pessoas comprarem os meus projetos, terem olhos pra mim. E de repente quem tem que ir pra rua mostrar isso sou eu, entendeu? Aí resolvi escrever a peça, ensaiei na sala da casa da minha mãe, estreei num teatro pequenininho. E eu lembro que aí entrei no teatro, tinha 70 lugares, e de pessoas voltarem para uma segunda sessão. Ali vi que meu projeto tinha dado certo. Foi a maior lição da minha vida: ser dona dos meus projetos.

E esta peça é uma continuação desse projeto?
Sim, escrevi depois que me separei e o espetáculo trata de uma mulher casada há 8 anos, já em crise na relação e querendo salvar o casamento. Obviamente, quando casa a gente quer que dê certo, tenta de tudo pra dar certo. Só que a Fernanda rompe isso, acaba se separando – o que eu acho um ato corajoso, que impulsiona algumas mulheres. É muito difícil, dentro desta sociedade machista, optar por se separar com quase 50 anos. A peça conta a história dessa mulher.

Nesses anos todos, você está tratando de um tema tão universal de uma maneira humorada. As pessoas dão feedback?
Muito. Recebo todo tipo de mensagens – por exemplo casais dizendo que resolveram “não se perder” depois da peça.

Você fala bastante da importância do trabalho na sua vida.
Li um texto do Domenico de Masi que dizia que maioria da população divide trabalho e vida. Pensando nisso, vejo como sou privilegiada. Não escolhi ser atriz pra ser rica. Escolhi ir ao encontro de uma realização profissional. Isso é privilégio de uma minoria que pode persistir no seu sonho. A maioria não pode, né, tem que trabalhar só pra pagar conta.

Acha que o feminismo está estendendo um tapete importante para as mulheres passarem?
Muito importante. Desde 2013, quando todo o povo foi pra rua, teve uma manifestação importantíssima das mulheres, ali começou a surgir um novo feminismo que as redes sociais hoje ajudam a propagar isso muito mais. Eu sou filha de uma feminista. A minha mãe foi vereadora com 38 anos de idade, numa cidade onde não tinha mulher na política. Fui criada por ela o tempo todo citando Simone de Beauvoir a dizer que a única possibilidade de uma mulher ser livre é ter independência financeira, não depender de ninguém. É o primeiro caminho pra fazer as suas escolhas. O que é libertador, hoje, nessa tomada de consciência do feminismo? É a gente saber que a gente pode fazer escolhas, ir ao encontro dos nossos desejos.

‘MACHISMO É RUIM
PARA TODOS, INCLUSIVE
PARA OS HOMENS’

E o que acha mais importante desse movimento?
As pessoas verem que o machismo é péssimo pra todos, o machismo mata os homens também. Porque os ensina a não demonstrar nenhuma emoção, fragilidade. O machismo mata todo mundo.

Ao longo desses anos de Saia Justa, o convívio com essas outras mulheres também a fez refletir sobre seu próprio feminismo?
Sim, muito. Eu ali sentada no Saia (Justa), eu tô há 7 anos, vi nitidamente a transformação de todos os assuntos, até de termos que a gente usava e não usa mais. Mesmo nós, que somos filhas de feministas, trazemos heranças desse patriarcado, desse machismo estrutural em que a gente foi criada… Nós fomos criadas acreditando que éramos inimigas uma da outra, que competíamos. Eu já praticava essa sororidade por si só, mas hoje em dia ela é consciente, faço questão de praticar.

A cultura passa por um momento de cortes no País. Como avalia isso e a ideia que se espalhou pelas redes sociais contra as leis de incentivo à cultura?
Por que esse conceito de que cultura é ruim está pegando na população? Por ignorância. Nós somos ignorantes em várias coisas também, ignorância não é burrice, é falta de conhecimento. O que acontece é o seguinte: as pessoas não estão abertas para escutar, querem ouvir só o que já sabem.

O algoritmo do Facebook aplicado à vida não digital?
Sim. Então tudo que está acontecendo em relação à cultura, a Lei Rouanet, a Ancine, é uma ignorância, é falta de conhecimento do que isso proporciona. A Lei Rouanet não é mamata. Mamata é filho de militar receber pensão sem trabalhar. Lei Rouanet é transformada em trabalho. A falta de conhecimento está fazendo com que as pessoas não queiram se aprofundar e esse é um governo que não propõe esse aprofundamento em nada. Acabou de diminuir 30% do orçamento de universidades importantes.

O que acha disso?
Isso é uma política de extermínio da educação, do conhecimento. E sempre cai em cima de quem? Do menos privilegiado, do que tem menos acesso.

Sente o reflexo disso no seu trabalho?
Posso falar aqui de carteirinha de qualquer assunto, de Lei Rouanet, qualquer coisa, porque tenho uma situação muito à parte. Eu sou triplamente privilegiada. Tenho uma peça que nunca teve patrocínio. Eu banquei, é um sucesso de bilheteria, sou a autora, a produtora e a única atriz em cena. Então, vivo uma coisa muito à parte.

Isso é muito raro.
Muito, porque qualquer peça que tenha mais de 2 atores não se paga. E uma peça de teatro produz muitos empregos. Mas muitos.

Com esses anos de teatro lotado, diria que a ideia de que as pessoas não se interessam por teatro é uma falácia?
Eu fiz peça de todos os formatos. O teatro é elitizado, o preço do ingresso é elitizado. Mas já fiz a minha peça a R$ 1,99, projeto na Prefeitura no Rio a R$ 1,00. Três horas da tarde tinha gente na fila sentada em cadeirinha de praia. Ou seja, o povo quer a cultura sim, porque a cultura é transformadora. Só que a cultura não chega a eles porque eles não têm acesso, a cultura é cara. E agora me parece que o governo acha que (a cultura) é algo menor. Então não sei o que será de nós, o que será dessas pessoas. Porque você vai nas comunidades e vê: o que salva é a arte.

 

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