‘MODA NÃO É SÓ ARTE, É BUSINESS’

Sonia Racy

08 de agosto de 2011 | 10h52

Pedro Lourenço pensa “global”. E quer o mundo

Pedro Lourenço não é filho dos estilistas Gloria Coelho e Reinaldo Lourenço. Ele é… Pedro Lourenço, 20 anos, promissor arquiteto da moda. Foi esta a descoberta durante longa conversa com este designer que, na sua estreia internacional, ano passado, conseguiu arrancar elogios de críticos do naipe de temida Suzy Menkes, do The Herald Tribune, e deSarah Mower, hoje da Vogue Europa. Além da aprovação sutil de Anna Wintour (personagem central do filme O Diabo Veste Prada), da Vogue América. E marcando presença lá fora, Pedro saiu definitivamente da sombra dos seus também talentosos pais.

As diferenças de estilo na família são visíveis, mas o que mais salta aos olhos é a complexa visão global do jovem. Do que ele acha da moda. O míni-empresário tem claro que não há produto se não existe função. E que este só sai da prateleira se houver um trabalho pragmático, consistente e de boa comunicação. Sabe também que há uma distância entre ter talento e montar marca de luxo rentável – sem que esta perca a personalidade. Um caminho difícil a trilhar. Em dez anos de trabalho, Alexander McQueen, o célebre inglês morto em 2010 – e homenageado com exposição no Metropolitan Museum of Art este ano –, jamais rendeu um único centavo aos donos de sua marca.
Algum mestre? Pedro pensa, pensa e atira: Azzedine Alaïa.

E aqui vão os principais trechos da conversa:

Se você não tivesse os pais que tem, faria o que faz?
Eles me influenciaram muito. Estava sempre envolvido com o que faziam. Quando estavam desenhando, eu pegava a caneta e desenhava também. Talvez se fossem arquitetos, eu também fosse. Gosto de dar forma às coisas. Trabalho a roupa com arquitetura. Desde pequeno fazia maquetes, algumas tão incríveis que eu nem sei como fazer hoje. Era instintivo.

Acredita que esse tipo de coisa vem do DNA?
Pode ser. Mas, apesar de admirar o trabalho dos dois e de outros estilistas, sempre tive posição sobre tudo que me era proposto. Comecei a criar meu próprio mundo e a não aceitar as ideias e imagens de fora. Acabei descobrindo o DNA da marca Pedro Lourenço quando morei em Paris. Trabalhei muito, li muito, adquiri muitas referências. E desenhei, desenhei, desenhei. Fui descobrindo minha linguagem.

Quando você falou “vou fazer minha primeira coleção”?
A Carla Fincato, que trabalhava no Carlota Joakina, segunda marca da minha mãe, tinha saído da empresa. O cargo estava vago. Eu aproveitei e fui apresentando algumas peças para a minha mãe. De repente, elas se tornaram a coleção… Eu falei que queria fazer o desfile, já tinha pensado em tudo, modelos, música. Estava com 12 anos… Mas só fui me sentir responsável no final de 2009, quando decidi lançar minha marca. Responsabilidade não só criativa, mas administrativa. Cuido do marketing, das vendas, participo do dia a dia das lojas.

Aos 12 anos você tinha noção do que estava acontecendo?
Quando você tem uma ideia clara e um ponto de partida, aquilo funciona. Eu tinha na cabeça que a coleção seria uma fantasia baseada em tênis. A coleção inteira foi trabalhada sobre isso, coisa que ninguém havia feito até então. Catorze dias depois, um estilista muito importante fez, em Nova York, um desfile que também explorava o tênis. As pessoas me respeitaram mais depois daquilo. Além disso, sempre que me aproximava dos especialistas, eles percebiam o quanto eu me dedicava, como havia coerência nos conceitos explorados nas coleções. Fiz desfile com 12 anos, com 13, 14, depois com 15, 16. Aos 17 lancei uma coleção experimental em Paris. E só voltei ao Brasil com 19, já com a minha marca.

Como você estruturou a parte da produção?
Hoje em dia é dividido na fábrica da minha mãe. Um espaço é meu, outro é dela. Mantenho dez funcionários; em época de desfile, vinte. Mais três modelistas e uma equipe de estilo – treinados por mim. Mas estou de mudança para um prédio ao lado. Toda a produção da marca Pedro Lourenço é feita na fábrica. Talvez seja uma das únicas marcas que consegue fazer isso hoje; a produção é pequena.

Em que lugares do mundo você está presente hoje?
Na Barney’s de Nova York, Joseph de Londres, na Browns, em Hong Kong, Xangai e Pequim. Também em Boston, Las Vegas, Berlim (num shopping online), Milão, Estocolmo e Kiev. E já estou em conversa, para o próximo verão, com duas lojas de Paris. É um processo orgânico, para se estabelecer no mercado internacional. As quantidades não são muito grandes, é uma seleção menor, e algumas peças têm edição limitada.

Como você concebe as coleções?
Geralmente, divido o resort e o pré-fall (como são chamadas as coleções que antecedem o verão e o inverno) em 70% para venda garantida (são aquelas peças que têm o meu design, o meu olhar, são complexas e tem uma “sacada”) e 30% para testes. No desfile eu inverto: 70% são testes; 30%, produtos. Se os testes dão certo, uso na coleção seguinte – e transformo também em produto. O termômetro são as vendas nas lojas. Porque naquelas peças há novas técnicas, avanços, que eu vou poder introduzir nas coleções futuras.

Você já começou a ganhar dinheiro com a profissão?
Com o resultado de venda no primeiro semestre previsto para a próxima coleção – e baseado no crescimento progressivo –, eu saio do vermelho. Acho que foi muito rápido, fico até impressionado. Esperava que demorasse mais. Mas claro que trabalhei para que isso acontecesse. A Suzy Menkes escreveu, certa vez, que a era dos estilistas-criadores estava acabando; que os estilistas precisavam ter um olhar para o business. Acho que, se você não tem contato com as lojas, com as necessidades do consumidor, se não traz um pouco desse olhar funcional do que as pessoas estão desejando, sua moda não se torna real, não tem função. Moda não só é arte, moda é business.

O que você acha dos estilistas que vendem suas marcas para conglomerados de moda?
Depende do grupo que está comprando a marca. Acho o trabalho que o François Pinault faz no Grupo Gucci maravilhoso. Ele conhece muito a área em que está atuando. No Brasil, existem muitos grupos, mas a relação entre empresários, estilistas e marcas é muito nova; acontece há 5 ou 6 anos. Além disso, é preciso tempo e investimento em marketing para que uma marca se torne importante, se torne rentável. Mais uma vez vale o exemplo do Pinault. A marca Alexander McQueen fazia parte da Gucci há dez anos e continuava no vermelho. Aqui o pensamento é diferente, nao é a longo prazo. Pensa-se somente em resultado rápido.

Onde vai estabelecer sua base?
No Brasil. Mesmo com todas as questões burocráticas, trabalhistas, todos os custos de importação e exportação. Quero formar profissionais na área de costura e modelagem. Acho isso maravilhoso.

Por que você não produz na China, que é mais barato?
Porque aqui é muito mais viável. No Brasil eu consigo garantir qualidade de produção, porque estou de olho, tenho uma equipe encarregada que tem o meu olhar. E uma estrutura que eu não conseguiria em lugar nenhum.

A sua roupa é considerada cara. É mesmo?
É, por causa da matéria-prima. A maior parte é importada. Eu prezo pela alta qualidade e descobri no Brasil um cliente que consome os meus produtos e que sabe valorizar desde o toque do algodão com a seda até tecidos tecnológicos.

Você faz moda brasileira?
Eu costumo dizer (e sou mal interpretado) que não acredito em moda brasileira. Acredito em moda global. Acredito em uma indústria de moda brasileira capacitada. Há uma diferença imensa entre essas duas coisas. Industrialmente, o Brasil tem potencial, mas… Na Europa, por exemplo, as empresas terceirizadas que prestam serviços às marcas investem muito em maquinário, em novas tecnologias. Aqui são pequenas estruturas. Hussein Chalayan, que comprou a Gibot, produz e entrega. E este é apenas um formato, existem muitos outros. Nada disso existe no Brasil.

Qual a diferença entre estilista e dono de marca?
O dono de marca quer fazer roupa para vender. O criador, não! Ele está surpreendendo, criando uma imagem que as pessoas não viram. E o público está começando a perceber essa diferença.

Mudou alguma coisa no mercado, nos últimos anos, em relação ao Brasil e aos estilistas brasileiros?
A partir da crise de 2008, que derrubou a economia dos países ricos, o mundo passou a olhar os mercados emergentes com mais receptividade. Falo até pelos meus pais. Quando eles estavam batalhando espaço no mercado internacional, algumas multimarcas esnobavam… hoje, comigo, essas empresas são muito simpáticas. Mas claro que há um trabalho de marketing forte, que ajuda nessa recepção.

É caro fazer um desfile?
Não vou te falar, porque é um choque. Só posso dizer que, graças à minha assessoria, a KCD, tenho os melhores preços do mercado em Paris, por exemplo. Eles representam o que há de melhor no mundo – Givenchy, Versace, Marc Jacobs – e estão apostando em mim. Eles investem muito. E é caríssimo!

O que você quer agora?
Agora? Férias! (risos)

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