‘Minha transformação se deu através da aproximação’

‘Minha transformação se deu através da aproximação’

Sonia Racy

19 de fevereiro de 2018 | 00h39


LÁZARO RAMOS. FOTO RAYSA COE
 

Lázaro Ramos conta como a experiência de viver com pouca água
mudou seus hábitos e diz que aproximar-se
dos outros ‘é a grande arma’ para aparar diferenças
políticas ou questões raciais

Em raro dia de folga, Lázaro Ramos falou com a coluna enquanto fazia compras no supermercado – “coisa que não fazia há séculos”, comentou sobre sua atribulada rotina de trabalho. A recente experiência de passar três dias com apenas 70 litros de água, devidamente transmitida em suas redes sociais, foi um dos assuntos da conversa com a repórter Sofia Patsch. “Mudei meus hábitos depois disso”, revelou. “Não temos noção de quanto gastamos de água por dia”, acrescentou o ator, que é embaixador do projeto AMA, da Ambev, desenvolvido para enfrentar a falta de água potável no Brasil.

“O projeto tem 100% do lucro investido em ações para reverter o problema, que atinge mais de 35 milhões de pessoas em todo o País”, prosseguiu. “Quis apoiar a causa porque acho que quando o empresariado se interessa por uma ação mais efetiva, tão direta e clara, temos que incentivar também.” Ele tinha acabado de voltar da comunidade de Sitio Volta, em Jaguaruana, no Ceará. “Lá entendi a questão do consumo em funcionamento. Me entristeci quando vi o rio absolutamente seco, mas ao mesmo tempo fiquei feliz de ver como as pessoas de lá entendem a importância da água.”

Ser um ator engajado é só mais uma das facetas de Lázaro. “Eu me interesso por todos os assuntos, e quanto mais o tempo passa, mais me interesso por me aproximar – mais até do que falar sobre os assuntos. Minha transformação se deu através da aproximação.”

Autor do livro Na Minha Pele, que aborda as questões raciais no Brasil, Lázaro diz que a melhor forma de discutir assunto “tão complexo” é com longas conversas. “Não vamos dar conta dele falando apenas de comparações, frases feitas ou dados estatísticos. Essa discussão é tão importante que não pode ficar rasa.” Confira a seguir a entrevista, na qual ele pediu para não se falar de política.

Como se envolveu com o projeto AMA?
Entraram em contato comigo há mais ou menos cinco meses para me apresentar o AMA, que tem 100% do lucro revertido em ações que ajudam a sanar problemas de falta de água potável no Brasil, que é uma grande questão. Me mandaram uma pesquisa enorme, o que foi superlegal, porque pude me informar melhor sobre o assunto. Quis apoiar a causa, porque acho que quando o empresariado se interessa em ter uma ação mais efetiva, assim, tão direta e tão clara, temos que incentivar também.

Um de seus desafios foi passar três dias com 70 litros de água. Como foi a experiência?
Primeiro achei que ia mandar bem, mas depois do primeiro dia percebi que gastamos muito mais água que isso no dia a dia. Sempre ouvi falar sobre preservação da água, a dificuldade de água potável, mas estava mais na cabeça que no sentimento. Tanto que, depois desses três dias, meus hábitos mudaram.

Em qual parte do dia você sentiu mais dificuldade por usar menos água do que o habitual?
A verdade é que eu não tinha noção de quanta água eu gastava. No primeiro dia fui calculando a água que eu gastava bebendo, tomando banho e escovando dentes. Depois fui me tocando que usamos água pra lavar roupa, fazer comida… Quando fui ver, não tinha sobrado quase nada ao chegar de noite em casa. A partir do segundo dia fui controlando mais, minha percepção do consumo de água era mais real. Usamos água para praticamente tudo.

Você transmitiu sua experiência pelas redes socais, né?
Transmiti e as pessoas comentaram, começaram uma discussão de alto nível, o que me deixou bem satisfeito. Mas o mais rico de tudo foi ter ido até o Ceará conhecer o projeto in loco. Lá vi a questão do consumo em funcionamento. Me entristeci quando vi o rio absolutamente seco, mas ao mesmo tempo fiquei feliz de ver como as pessoas entendem a importância da água e como administram essa água que agora elas têm em casa.
Como um ator superengajado, acha que atores e atrizes, em geral, têm o dever de se envolver em causas sociais?
Olha, não dá pra dizer isso não, cada um tem a liberdade de escolher aquilo que faz. Eu, particularmente, me interesso por todos os assuntos, e quanto mais o tempo passa mais me interesso em me aproximar – mais até do que falar – sobre os assuntos. Creio que tem uma transformação que pode vir no sentido de estimular a sociedade a boas práticas – mas tem uma transformação que é nossa também. E aí, me parece que é preciso também tirar os atores desse lugar, aquela pessoa que se engaja só para mostrar uma situação, sem retorno das demais. Tenho muito retorno a cada encontro, em cada lugar por onde passo e aprendo.
Em entrevista, você declarou que o lado bom das redes sociais é aproximar-nos de assuntos que, sem elas, não existiriam.
Pois é, meu programa novo da Globo é muito fruto disso, de uma aproximação das pessoas, seja via internet ou nas visitas que fiz rodando o País. Hoje em dia, a gente está tão afastado, né? Que bacana a gente poder se aproximar um pouco.
Seu lado ativista chega a atrapalhar, de alguma forma, os seus personagens? 
Não! Graças a Deus, não. Fico até bem surpreso – para o bem – com isso, porque, ao mesmo tempo em que consigo fazer um personagem de humor na televisão, como foi o caso do Foguinho, de Cobras e Lagartos, e agora de Mister Brau, faço um filme mais engajado como Tudo que Aprendemos Juntos, que é sobre a questão de Heliópolis. Acredito que as pessoas me percebem mais como um cara que gosta de falar de vários assuntos e estar em várias situações do que como um ator engajado. Ator engajado é também uma das minhas faces, mas, imagina, tenho livro infantil, Mister Brau, é tudo parte do desejo de me aproximar das pessoas e das situações.
Além do livro infantil, também escreveu Na Minha Pele, que aborda a questão racial. Qual é o peso de ser um ator negro bem-sucedido no Brasil? 
Não tem peso não, tem a satisfação de poder ser escutado, ser respeitado, poder conversar com as pessoas sobre esses assuntos de maneira afetuosa. É o contrário – e acho que foi isso que eu sempre quis na minha vida, poder ter atenção pra falar de assuntos que me tocam o coração. Seja levando um sorriso a uma pessoa num espetáculo de teatro, seja falando de um assunto mais contundente e conseguindo ser ouvido por mais pessoas do que aquelas que transitam no meu entorno. Acho que é isso que o Na Minha Pele trouxe. Esse livro possibilitou levar o assunto pra outras rodas de conversa, de uma maneira acolhedora. Então não tem peso não, tem é alegria.
O que achou de Oprah Winfrey ter sido a grande homenageada do último Globo de Ouro, prêmio tradicionalmente voltado para homenagear atores homens e brancos?
É superimportante. A Oprah é merecedora, e acho que talvez tenha vindo até tarde, né, porque ela é uma mulher muito relevante já há tantos anos…
Acha que faltam exemplos de ‘Oprahs’ na sociedade brasileira?
A comparação é muito difícil. Sempre busco como uma referência a inspiração do que aconteceu ou acontece em outros países, mas sabendo também quais são as nossas características. Se me perguntarem onde estão as mulheres negras milionárias no Brasil, vou dizer: tem poucas mesmo. Mas se perguntarem onde estão as mulheres negras com histórico relevante, com grande capacidade profissional, grandes comunicadoras, posso citar várias. Nem sempre são vistas, e claro que precisamos de mais e mais. Quando começamos a falar da questão racial, às vezes a gente reduz o assunto a frases muito definidas, o que considero um prejuízo para o debate. É uma discussão tão complexa que não vamos dar conta dela falando apenas de comparações, frases feitas ou dados estatísticos. A estatística já não dá mais conta disso, qualquer frase vira poeira e motivo somente para discussão rasa. Essa troca de ideias é tão importante que não pode ficar rasa.
E como você, Lázaro Ramos, vê a melhor forma de discutir a questão racial na sociedade?
Com conversas longas. Demorei dez anos para escrever o Na Minha Pele, porque não sabia que tom usar no livro. A questão racial é um processo que está tão em movimento que a cada ano que eu reescrevia o livro ele tinha um tom diferente. Em uma das versões, escrevi totalmente baseado em estatísticas, teve uma outra versão que é vômito, muita raiva, já outra que é quase Poliana.
Como chegou ao jeito que atualmente julga ser o melhor para abordar o assunto?
O jeito que encontrei foi tentar, primeiro, usar artifícios de comunicação pra aproximar outras pessoas do assunto, tanto mostrando exemplos, como, às vezes, usando humor, falando dos meus sentimentos, que muitas vezes são imprecisos – mas sempre convocando pra conversa, que é do tamanho da complexidade que tem. O Na Minha Pele é uma tentativa disso, é fazer um livro para esse momento, onde a gente se mostra em várias rodas de conversa, virtuais ou físicas, e mostra uma incapacidade de se comunicar. Fiz um livro pra criar pontes. Como é que a gente cria pontes? Se abrindo um pouco e se aproximando. Quando mencionei que mudei alguns dos meus hábitos porque fiquei três dias usando 70 litros de água por dia, é porque me aproximei de uma realidade que não era a minha. A minha transformação veio através da aproximação. E é isso, acho que a aproximação é a grande arma pra tudo que a gente vive hoje, seja para as brigas políticas, seja sobre questões raciais.

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