‘Minha obsessão são os afetos’

‘Minha obsessão são os afetos’

Redação

30 de novembro de 2008 | 06h38

Foto: Paulo Giandalia/AE


Disciplinada, mas aberta ao que é novo, Maria Adelaide Amaral quer agora sentir o gosto do cinema

A primeira impressão que se tem da dramaturga Maria Adelaide Amaral é de uma personalidade dura. Mas ao longo da conversa, em seu apartamento em Higienópolis, lotado de porta-retratos, percebe-se que não é bem assim. Entre um afago e outro em sua gata angorá, ela mostra, por palavras e gestos, que são poucos os seus preconceitos ou julgamentos. Profunda conhecedora as emoções humanas, apaixonada pelo que faz, pelos amigos e pela vida, a virginiana tem os pés na terra.

Não é por acaso que a portuguêsa de nascença tem sua imaginação colada a fatos reais. Autora de minisséries como JK, As Setes Mulheres e de peças como a Mademoiselle Chanel – todas baseadas em fatos reais, Maria Adelaide tem a precisão como lema. E agora parte para um novo desafio: fazer cinema. Aqui vão trechos da entrevista:

Você vai fazer cinema pela primeira vez. Como foi isso? Eu sempre relutei em fazer cinema pois essa é uma arte do diretor e não do escritor. Além disto, o roteirista de cinema é obrigado a dar vários tratamentos ao texto, coisa para a qual não tenho paciência. Mas, desta vez, aceitei.

Por quê? O tema me interessou muito. O ponto de partida é a formação da Orquestra dos Meninos de Heliópolis, um trabalho extraordinário. O filme ainda não tem nome, mas o diretor será o Sérgio Machado, que também vai colaborar no roteiro.

Você é contratada da Globo. Onde vai achar tempo? Eu só poderia escrever essa história com um grande braço direito, que tivesse competência para escrever nessa linguagem. É a Marta Nelling. Ela será de grande ajuda, até porque eu tenho que me preparar para eventualidades – como a Globo me chamar. Este ano, tive alguns momentos sabáticos que, de sabáticos, não tiveram nada. Do final da minissérie até agora escrevi três peças. Uma sobre a Dercy Gonçalves, pedida por ela mesma.

Quando estréia? Em março do ano que vem, com direção da Marilia Pêra. Além dessa, fiz a adaptação de As Meninas, de Lygia Fagundes Telles. O que foi uma grande felicidade para mim. E também retrabalhei um texto meu, inédito, dos anos 80, sobre uma datilografa. O Marcos Paulo me ligou e pediu o texto.

Como você se organiza para fazer tudo? Sou muito disciplinada. Quem trabalhou na imprensa e tem prazo se habitua a se organizar.

Você tem algum hábito na hora de escrever? Raramente escrevo de manhã, hora em que me dedico à minha saúde: caminho, faço Pilates, vejo as minhas coisas. Aí, me sento para trabalhar 10, 10 e meia, e vou embora. Detesto quando me convidam para almoçar, porque tenho que quebrar meu dia. Adoro tomar um copo de vinho, por exemplo, mas não bebo durante o dia. Prefiro à noite. Geralmente janto fora.

Como você coleta material para os personagens? Qual é o seu processo de criação? Depende. Na literatura e no teatro falo sobre mim e sobre pessoas que conheci. É um eterno retorno. A maior parte dos criadores faz isso. Fellini e Bergman falam sempre dos mesmos temas também – os temas que se tornam obsessão para cada um.

E qual é a sua obsessão? No teatro e na literatura, minha obsessão são os afetos. Faço essa distinção porque minha trajetória ali é muito diferente da que tive na televisão, onde lidei com a realidade dos outros. Comecei como colaboradora de escritores, depois trabalhei com obras baseada em livros e com biografias. Por mais que eu criasse, a biografia limita um pouco, não me permite enlouquecer.

E foi interessante? Muito. Toda vez que eu interferi, foi para dar mais emoção à vida dessas pessoas. Porque são pessoas da realidade. Já no teatro e na literatura, como disse, são os afetos – o amor, a paixão, os desencontros, desentendimento, as relações mãe e filho, extraconjugais. Paixões no sentido amplo da palavra.

E pelo que você é apaixonada? Eu tenho uma natureza apaixonada. Eu me apaixono por projetos, pessoas, períodos históricos, escritores. Sou uma apaixonada pelo Proust, por exemplo. Mas minha paixão não se limita a ler, eu tive de ir lá para conhecer a casa dele e seus ambientes. Preciso disso. Me apaixono por amigos – eles são uma fonte de nutrição plena e perene para mim. É preciso ser muito mau caráter para eu eliminar uma pessoa da minha vida.

Nesse filme, você de novo vai lidar com a realidade. Ela é o ponto de partida e o de chegada.
Você planeja a sua vida?
Não. Tenho projetos, mas a vida é maior que eles. Só me dei bem com esses desvios da vida. Tive uma novela em 2002 que foi cancelada e por isso pude escrever Tarsila.

Você é do tipo “Maktub”? Um pouco, mas eu não fico na cama esperando as coisas acontecerem. A minha vida profissional e pessoal é cercada de magia. Essa coisa de virar autora de minissérie foi algo fortuito. Quando o Jaime Monjardim veio me procurar e eu propus que fizéssemos A Casa das Sete Mulheres, eu ainda não tinha lido o livro. Procurei na orelha algo que pudéssemos usar, a minha vida é assim.

Darwin ou Deus? Ambos. É sempre assim, estar aberta. E sobretudo, ser humilde.

Você é adepta da internet e de novas tecnologias? Uso muito pouco. Pesquisas na internet, por exemplo, duvido. Pertenço à geração de Guttenberg, do livro impresso. Não exploro essas possibilidade porque fico muito intimidada. São grandes inovações, mas que envelhecem rapidamente. Eu tenho um aparelho de som de 96 que me satisfaz perfeitamente.

E o que pensa sobre mulheres transgressoras? Não é fortuito que eu tenha escrito uma peça sobre Chiquinha Gonzaga, outra sobre Chanel e agora sobre Dercy. Eu me identifico muito com elas, acho que também sou transgressora. Elas são fruto do próprio esforço. Guerreiras.

Como é a sua história? É uma história de transgressão. Desde pequena, eu falava coisas absurdas, palavrões. Sempre muito inquieta. Com 14 anos eu dizia que era a favor do amor livre.

O que você acha que transgrediu? Eu fazia coisas antes dos anos 60 que só foram aceitas depois. No fim eu acabei casando na igreja, com uma vida dentro dos padrões. Mas a minha cabeça é diferente. Nunca tive preconceitos e nada me choca.

Nada mesmo? Bem, a educação no Brasil me choca, por exemplo. Outro dia vi na TV uma menina da sétima série dando uma entrevista. O português dela era medonho, de uma indigência escandalosa. Em postos de saúde, as pessoas são muito maltratadas. Há muito pouco respeito pelo cidadão. Outra coisa que me escandaliza são pessoas que têm nível para consumir cultura e optam por não fazer isso.

E sobre política? Não me considero a pessoa mais qualificada para falar disso. Mas eu e tantas outras pessoas esperávamos muito mais deste período democrático.
Estamos fechando esse ciclo com a crise? Sim, uma boa parte das pessoas enlouqueceu com esse consumo maluco.

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