‘Minha missão é dar poder às mulheres’

‘Minha missão é dar poder às mulheres’

Redação

08 Fevereiro 2010 | 08h42

ÀS vesperas de abrir sua primeira loja no Brasil, a ex-princesa Diane von Furstenberg, dona de grife que vende no mundo todo, define o mundo da moda: “Ninguém vive mais sozinho”.

Diane von Furstenberg abre, em abril, sua primeira loja no Brasil, acompanhada de um retrospectiva do seu trabalho. Mais precisamente, no Shopping Iguatemi. Com lojas espalhadas pelo mundo inteiro, a ex-princesa (foi casada com o príncipe alemão Egon von Fürstenberg, com quem teve dois filhos) e designer belga namorou muito o País durante anos.

Um dos seus melhores amigos foi Hugo Jereissati, caçula do clã Jereissati. “Ele sempre me incentivou a abrir loja no Brasil. E isso vai acontecer, por ironia do destino, justamente quando ele não está mais entre nós”, lamentou Diane à coluna, em conversa telefônica, de Nova York.

Hugo, que “morava” no circuito Bali-Paris-NY, morreu no ano passado, logo depois de a designer assinar contrato com seu irmão Carlos. “Éramos amigos há 30 anos. Ele era amigo das minhas crianças, da minha mãe, de todas as gerações. Ele e minha mãe estavam caminhando juntos, quando teve o primeiro ataque do coração. Sou bem próxima da família Jereissati, é como se fosse a minha família”, conta.

Sua parceria com o Brasil, no entanto, começou com a H. Stern. ” Ela vai muito bem.” Mas seu primeiro sucesso aconteceu em 1972, com a criação do “wrap-dress” (vestido envelope), ícone hoje pendurado em sala do Smithsonian Institute. Na época, vendeu nada menos que 5 milhões de peças, o que lhe valeu capa no New York Times Magazine. Dedicada, também, a inúmeras causas beneficentes, Diane é ainda presidente do Council of Fashion Design for the Americas. Casada? Sim, com o magnata Barry Diller, responsável pela organização da Fox e hoje ligado à internet. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Levou tempo para você decidir vir para cá. Quando a família Jereissati quis montar a loja comigo, pensei muito. E agora, que seu Pais mudou, decidi. Tenho muitos clientes no Brasil. Tantas mulheres brasileiras comprando meus vestidos em Paris, Nova York – e eu também vendia um pouco em diferentes lojas no Brasil, na Daslu. E mesmo com a loja nova, vou continuar vendendo nas pequenas butiques com que trabalho. O que vamos ter é a primeira loja completa com acessórios.

Quando você aterrissa por aqui? Em abril, quando levo também uma retrospectiva do meu trabalho – a Jornada de Um Vestido, a mesma que fiz em Moscou em dezembro. É a história do vestido e da moda. Ao longo da vida muitos artistas me pintaram, vai ter muita arte, quadros de Andy Warhol e Francesco Clemente.

Como foi que a moda entrou em sua vida? Por puro acidente. Não era bem uma vocação. Quando jovem, eu sonhava ser uma mulher independente, que ganha sua própria vida. Era estagiária em uma indústria de moda italiana. E um dia meu namorado voltou da América – a gente ia se casar – e descobri que estava grávida. Entrei em pânico. Queria tanto ser independente e lá estava eu, grávida, me casando e mudando para a América! Contei tudo ao industrial e lhe pedi para fazer algumas amostras para tentar vender nos EUA. À noite, quando todos iam embora, eu ficava com o estilista – era em Florença – fazendo vestido com qualquer tecido que encontrava no chão.

Imaginando uma linha do tempo, quais os momentos importantes da moda? A grande mudança foi nos anos 20, quando desistiram dos espartilhos e apareceram Chanel e outros. De repente, o corpo estava livre, foi uma revolução na moda feminina. Nos anos 40 veio a guerra e havia poucas fábricas disponíveis. Os anos 70, quando me envolvi com o assunto, foram um momento de libertação. Havia as pílulas, as drogas, era uma ótima época para ser jovem e a moda refletia isso.

Você acha que o mundo está precisando de uma nova virada, como a dos anos 70? Você vai para todos os lugares e vê as mesmas lojas classe A, como a sua. Seja na China, Istambul, Paris ou São Paulo: Prada, Louis Vuitton, Hermes… Tudo fica grande, mas nesse mundo grande há rachaduras. E nas rachaduras, novas pessoas começando. É uma época em que não é tão bom ser grande. Eu não sou grande nem pretendo ser. Faço um coisa exclusiva, para pessoas exclusivas.

Alguma vez recebeu oferta para ir para um grande conglomerado? Uma vez vendi minha companhia de fragrâncias para uma rede inglesa de farmácias, achando que iam resolver tudo. Eles arruinaram tudo. Então, comecei de novo. Tive duas carreiras, uma iniciada ainda jovem, e com sucesso tão rápido que não pude acompanhar – e aí vendi. Há 11anos comecei a segunda. De certa forma é mais divertido, porque tenho mais experiência.

O que a levou a começar de novo? Me dei conta de que muitas jovens hippies estavam comprando meus vestidos antigos, os wrap dresses em lojas vintage e as pessoas diziam: “Você devia fazer de novo…” Aí eu fiz. Agora é um negócio familiar, meu e das minhas crianças.

Nunca ficou tentada a vender novamente? Nunca. Uma das minhas netas está tomando conta do negócio. O nome dela é Talita.

O que acha importante quando entra em um novo projeto? Que faça sentido, que eu acredite e que com ele possa criar uma coisa única.

Quanto você vende anualmente? É uma empresa privada, não é de capital aberto. Vendemos cerca de US$ 200 milhões, em 57 países. Temos 35 lojas próprias. O que é realmente fantástico é que tenho a melhor demografia de clientes. São diversas gerações, uma coisa inteiramente global, tenho muito orgulho disso.

Ser von Furstenberg, nome que você herdou do primeiro marido, ajudou? Sim. Mas tive que batalhar por todo o restante. É como fazer um bolo de chocolate. Ter sido princesa foi um ingrediente. Mas se você esquece os outros ingredientes, não fica com o mesmo sabor.

Quando se separou do príncipe você retirou o título de princesa. Eu nunca o usei. Só em restaurantes e hotéis.

Mas mantém o Furstenberg. Sim. Ele quis assim.

A crise atual vai afetar o mercado de luxo? Eu acho que tudo que acontece afeta tudo. Ninguém vive mais sozinho.

Se não fosse estilista o que você seria? Estou feliz com a moda. Graças a ela me tornei a pessoa que queria ser. Olho pra trás e vejo que a missão da minha vida é dar poder às mulheres por meio da moda, da filantropia e sendo a mentora. S. R.