“MINHA HORA DE VOLTAR AO BRASIL VAI CHEGAR”

“MINHA HORA DE VOLTAR AO BRASIL VAI CHEGAR”

Sonia Racy

28 de maio de 2012 | 10h48

Dirigente do PSG, Leonardo fala sobre a vida e o jogo fora das quatro linhas

Há mais de 20 anos vivendo no exterior,Leonardo, campeão do mundo pelo Brasil em 1994, agora quer ser lembrado por suas ações fora de campo. Ex-dirigente do Milan e Inter de Milão, o atual diretor de futebol do Paris Saint-Germain tem uma missão na capital francesa: tornar o time competitivo na Europa.

Por telefone, de Paris, o ex-jogador revelou, entre outras coisas, o desejo de voltar ao Brasil – “mas com um projeto global, senão você acaba remando contra a maré”. O que Leonardo chama de “maré” é a estrutura do futebol brasileiro, muito criticada pelo dirigente: “Nossos clubes ainda são associações esportivas sem fins lucrativos. Com dívidas infinitas e pouco compromisso com esse lado comercial”, explica. Entretanto, mostra-se otimista com o futuro: “O Brasil vive um grande crescimento, e isso vai chegar ao futebol em algum momento”.

Poliglota e “cidadão do mundo”, como ele mesmo define, Leonardo não sente saudade de jogar: “Para mim, foi uma passagem natural. Sinceramente, não sinto nenhuma falta”, diz o ex-jogador, que não bate bola nem nos fins de semana.
A seguir, os melhores momentos da entrevista.

Você é um crítico dos modelos de gestão do futebol brasileiro. Fala-se muito em falta de profissionalismo. Qual sua opinião?

Esta é uma discussão profunda. No Brasil, confunde-se profissionalismo com remuneração de cargos. Não é isso. A estrutura não é profissional. Você pode falar como o maior empreendedor do mundo corporativo, mas, quando leva isso para o mundo do futebol, parece estranho, porque futebol é paixão. Os clubes brasileiros têm de mudar sua estrutura. Podemos pensar em vários modelos: inglês, americano, italiano, espanhol. O Brasil tem de encontrar o melhor para a sua realidade.

Por que nossa estrutura não é profissional?

Os clubes ainda são associações esportivas sem fins lucrativos. Com dívidas infinitas e pouco compromisso com o lado comercial. Não basta ter um “manager” remunerado. O problema é uma estrutura que nasceu há mais de cem anos, com um tipo de realidade. E hoje vivemos a mesma estrutura, mas em um país que é a sexta economia mundial. E o futebol está completamente fora desse circuito. É preciso ter um projeto global. Acho que temos conhecimento de gestão, potencial econômico, visão, qualidade de futebol. Tudo. Mas não conseguimos alavancar um sistema que tenha sustentabilidade.

O que barra esse avanço?

Exatamente essa estrutura. Em que um presidente se elege a cada quatro anos. E, no primeiro dia de mandato, já está pensando na reeleição. Isso cria uma coisa política dentro do clube. Ninguém tem a responsabilidade direta sobre aquilo. Isso é muito antigo e muito amarrado. Mas, hoje, a demanda do mundo corporativo exige rapidez, reação imediata.

Você propõe uma reforma…

Exatamente. Uma reforma na estrutura do futebol. O que vemos são clubes amarrados, engessados, com dificuldades. Existem clubes que até estão empenhados de tudo que é jeito, já outros perpetuam dívidas com o estado, alguns estão falidos. Existe de tudo. Trata-se de um peso do passado que não é fácil sobrepor.

Você já afirmou que “a torcida sempre vai ser dona do clube”. O que quis dizer com isso?

A discussão começou quando se falou de os clubes brasileiros terem um proprietário. Assim como existe nos outros países. Na Inglaterra há um modelo mais ou menos homogêneo, em que o clube tem um dono. No Brasil, imaginar isso quase agride. O Manchester City tem um dono e tem também uma torcida que está pedindo resultados. Nada mudou. Os brasileiros são avessos a clubes com proprietários, mas os clubes ficam na mão de uma estrutura complicada, na qual quem articula melhor acaba sendo ‘proprietário’. É uma estrutura muito mais vulnerável do que se tivesse alguém lá todos os dias. Hoje, um proprietário inglês, se não der resultado esportivo… a torcida faz com que ele venda o clube. Funciona como em qualquer outra empresa. Não estou dizendo que este seja o modelo ideal. No fundo, é tudo questão de decidir fazer. Ter uma política esportiva. No Brasil, o que falta é o controle dessas realidades esportivas. Quem controla os clubes? Teoricamente, o Estado. Mas, como são essas associações, ficam perpetuando insucessos econômicos.

Você já foi vítima da hostilidade da torcida, quando saiu do Milan e foi para a Inter de Milão. Como viveu aquele momento?

Sabia que tinha tomado uma decisão forte. Vivi catorze anos em Milão, então conheço bem a realidade. Sabia da minha decisão e estava preparado. Entendo e respeito. Foi uma demonstração de sentimento. Fiquei muito tempo no Milan, foram treze anos. Fui jogador, dirigente e treinador no mesmo clube. Por isso, tenho um respeito muito grande. Mas acabei me desligando, por vários motivos, e fui chamado pela Inter, que é um dos melhores clubes do mundo, por um presidente com quem eu também criei uma relação muito forte e intensa.

O Milan pertence a Silvio Berlusconi, uma figura no mínimo controversa. Como lidou com esse fato?

Eu briguei com o Berlusconi e saí do Milan. Foi muito simples. A única coisa que não mudou foi meu respeito pelo clube. O Milan, para mim, não é o Silvio Berlusconi. O Milan é o Milan.

Você acredita que o futebol brasileiro está mudando de eixo? Segurando mais seus jogadores?

Hoje dá para fazer uma grande carreira no Brasil. Mas a Europa reúne os melhores talentos do mundo. A qualidade dos campeonatos é alta, a importância e a economia acabam sendo superiores. Por isso, todos eles vêm para cá. O que acontece no Brasil, hoje, é que existe um movimento forte, porque o País enriqueceu, está se organizando.

Vale a pena o jogador prolongar a carreira no Brasil?

A partir do momento em que o País se reforça, consegue segurar mais seus jogadores. Mas a realidade, muitas vezes, é que os clubes não têm como dar estabilidade ao jogador – que acaba indo atrás não “da grande oportunidade”, mas de “qualquer oportunidade”. Acaba indo até para a China – com 18 anos, se puder. Esse tipo de jogador a gente tinha de segurar. Para conseguir ter alguns talentos e melhorar a qualidade dos campeonatos internos. Agora, o grande time europeu que contrata o Neymar, isso é inevitável. Mas, com o movimento de Copa do Mundo no Brasil, com o Santos melhor, você vê, o Neymar está ficando aí…

Você tem planos de voltar algum dia para o Brasil?

Sonho sempre com isso. São vinte anos no exterior. Sinto saudade e vontade de realizar, no Brasil, as coisas que eu fiz aqui. Isso está sempre presente na minha cabeça. Um dia vai chegar minha hora de voltar para o Brasil, com certeza.

Para dirigir algum clube?

Acho que vai acontecer, sim. Se alguém quiser… não sei se vão querer. Mas acho que tem de ser um projeto global. Com uma ideia bastante forte, senão você acaba remando contra a maré.

Você já afirmou que uma experiência marcante na vida do jogador é passar pela seleção.

A seleção brasileira é uma das maiores marcas do futebol mundial. Mesmo com os campeonatos internos ganhando força, a seleção tem algo a mais.

Uma crítica à nossa seleção é que nossos jogadores têm um ego exacerbado. Concorda?

Não acho que tenha problema de ego. É que um jovem brasileiro de 16, 17 anos está praticamente pronto. Muitas vezes, para jogar na Europa, na seleção. Porque ele se acha realmente capaz de fazer. Isso não acontece muito em outros países. Existe uma autoestima alta, porque somos reconhecidos como aqueles que têm o melhor futebol. Então, desde jovem, o jogador quer chegar ao máximo.

O que acha da seleção atual?

Ainda não se formou. Precisa de uma cara, está em construção com o Mano Menezes.

Você é otimista com relação à Copa de 2014?

Como vai ser no Brasil, pode causar um pouco de ânsia de ter uma seleção à altura. Acho que sempre tivemos. Dificilmente isso será diferente em 2014. Qual foi a Copa do Mundo em que o Brasil não entrou como favorito? Pode ter perdido ou ganhado, mas as últimas foram assim. Então, eu não tenho essa “ânsia técnica”, mas entendo. Porque é em casa. Tudo tem de sair perfeito.

E a história de que jogador brasileiro não tem controle emocional quando toma gol?

Não concordo. Acho que o brasileiro é supercompetitivo. Tem um pouquinho de tudo. Domínio do jogo, reação a um momento difícil. Não o vejo aceitando situações, não.

Qual é a visão que chega na França da Copa de 2014?

Chega a dificuldade. Não estou tão por dentro, mas as informações são as mesmas… Obras atrasadas, essas coisas. Polêmica com o secretário geral da Fifa. Mas, sinceramente, não tenho uma opinião, porque não estou vivendo o Mundial tão de perto.

É a favor da venda de bebida alcoólica nos estádios durante a Copa do Mundo?

Esse tipo de interdição resulta da falta de preparo para você ter liberdade. Não é só no Brasil. Na Inglaterra também aconteceu. Agora voltou, e os ingleses podem beber. Na França, não se vende na arquibancada de torcidas organizadas. O ideal é que haja um equilíbrio: que as pessoas respeitem e que você possa dar a liberdade.

Há boatos de que o Paris Saint-Germain pensa em contratar o Kaká. Ao mesmo tempo em que ele é acusado de ter perdido a fome de bola, se burocratizado.

O Kaká, com certeza, é um grande jogador, com enorme potencial. Mas sofreu lesões importantes, que comprometeram muito. E ele está em um time muito competitivo, em que tudo acontece de forma muito acelerada. Mas não perdeu a fome de bola, não.

O PSG vai contratá-lo?

Olha, sou muito ligado ao Kaká desde o início da carreira dele. E, independentemente da nossa relação pessoal, é um jogador que, mesmo que não esteja no seu 100%, é extraordinário. Mas ainda não começamos a contratar.

E o Pato? E o Higuaín?

Hoje, o PSG entrou no grupo dos compradores. Então, para qualquer jogador importante do mercado, somos um potencial comprador. Irão aparecer 50 mil nomes. Nós vamos, sim, fazer investimentos. Mas ainda estamos estudando.

Qual o projeto para o PSG?

O clube está passando por um momento importante. Até o ano passado, não era competitivo no campeonato francês. Nós chegamos, fizemos contratações, estamos reestruturando tudo. E conseguimos classificá-lo para a Liga dos Campeões, que era o objetivo da temporada. A ideia é fazer um time competitivo para o ano que vem. Isso em uma cidade como Paris, que nunca viveu um projeto como esse. É uma reconstrução quase que conceitual.

Foi esse desafio que te levou a deixar a Inter?

Foi. Voltar a ser diretor de futebol, que eu gosto muito, e num time em que joguei. E o projeto, em si, foi muito legal. Os proprietários, do Catar, são pessoas realmente extraordinárias. Jovens, capazes, apaixonadas por futebol. Têm vários projetos ligados a isso, até a Copa de 2022, que eles vão sediar.

O francês não é apaixonado por futebol, é?

O futebol precisa da “loucura positiva” para acontecer. Precisa do fogo, da paixão. Na França, existe uma grande tradição do futebol, basta ver os clubes, os jogadores. Mas precisamos acender “esse fogo”. Isso faz parte do nosso projeto e se faz com talentos, gerenciamento da marca, relação do clube com a cidade, com vitórias. Vamos conseguir.
/MARILIA NEUSTEIN

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