‘Minha história com o Brasil vem de longe. Até me sinto meio brasileira’

‘Minha história com o Brasil vem de longe. Até me sinto meio brasileira’

Sonia Racy

14 Julho 2014 | 01h10

Shakira (Foto: Vera Donato/Estadão)

No Rio para cantar em sua terceira Copa do Mundo, Shakira fala sobre futebol, seu amor pelo público do País e a bem-sucedida parceria com Carlinhos Brown.

Foi depois da abertura da Copa do Mundo – com apresentação de Claudia Leitte, J. Lo e Pitbull –, considerada “sem graça” por muitos, que a Fifa anunciou a musa dos estádios, Shakira, para encerrar o Mundial.

Não foi à toa. Além de uma “craque dos palcos”, a relação da colombiana com o futebol é de longa data. Ela cantou e encantou nas Copas de 2006 e 2010 e faz questão de frisar que é uma torcedora fervorosa do esporte. Costuma acompanhar os jogos do marido, Gerard Piqué, zagueiro do Barcelona, e, durante o Mundial, participou ativamente, via Twitter, torcendo pela Espanha e pela Colômbia. “Tenho lágrimas nos olhos e muito orgulho no coração, pelo meu país, por seu talento e pela melhor atuação da Colômbia na história do Mundial”, escreveu na rede social, quando seu país foi eliminado pela seleção brasileira nas quartas de final.

Shakira conheceu Piqué em 2010, durante as gravações do clipe de Waka Waka, música oficial da Copa da África do Sul. A cantora rompeu um noivado de onze anos com Antonio de la Rúa, filho do ex-presidente argentino Fernando de la Rúa e assumiu o romance com o catalão, com quem tem um filho Milan, de 1 ano. Ambos são homenageados em uma canção no novo CD da cantora, o décimo de sua carreira.

A colombiana recebeu a coluna, sábado, pouco antes do jogo entre Brasil e Holanda, na sede da Sony no Rio, depois de um ensaio no Maracanã. A postos para uma bateria de entrevistas internacionais e munida de pão de queijo e sucos de frutas, a cantora retocou ela própria sua maquiagem e esbanjou um português fluente. Sobre a Copa, afirmou que James Rodríguez, craque da Colômbia, foi uma grande surpresa e que se “converteu em uma das grandes estrelas do Mundial”.

Não é só com o universo do futebol que ela mantém uma relação forte, mas também com o público brasileiro. Shakira despontou por terras tupiniquins na década de 90 – quando ainda não era uma popstar no showbizz americano –, com a canção Estoy Aquí, sucesso entre adolescentes. Na época, era apenas uma jovem de 19 anos, cabelos negros e bem pouco produzida.

O cenário hoje é diferente. Aos 37 aos, a artista já vendeu, só no Brasil, mais de 1,7 milhão de CDs e 270 mil DVDs. Acumula 17 certificados da indústria, divididos em quatro discos ouros, cinco platinas, quatro platinas duplo, dois platinas triplo e dois diamantes. O álbum mais recente, Shakira, lançado em março, já vendeu mais de 30 mil cópias no País e ela ainda ostenta Grammys e um programa de televisão no currículo.

No rol das estrelas internacionais, a colombiana já gravou bem-sucedidas parcerias com Beyoncé, Rihanna, Alejandro Sanz e, agora, Carlinhos Brown, com quem fez La La La, especialmente para a Copa do Mundo no Brasil. Para a cantora, que se derreteu em superlativos sobre o músico baiano, trabalhar com ele foi “uma das melhores experiências” de sua vida. “Ele é uma autoridade em ritmos. Um profundo conhecedor de música.”

Para o presidente da Sony no Brasil, Alexandre Schiavo, Shakira é uma das artistas “mais completas” da atualidade. “Tanto na arte de cantar, compor, produzir e entreter, assim como na condução de sua carreira e suas ações sociais”, afirma, fazendo referência à Fundação Pies Descalzos, que a cantora mantém na Colômbia, promovendo educação para crianças carentes no país.

Abaixo, os melhores trechos da entrevista.

Você, que é uma torcedora apaixonada por futebol, como avalia a campanha da Colômbia na Copa do Mundo que terminou ontem?

Foi a melhor atuação do meu país na história das Copas do Mundo. Sinto um grande orgulho pelo time colombiano, especialmente pelo talento de seus jogadores.

Em especial o meia James Rodríguez?

É, ele se converteu em uma das estrelas deste Mundial. Foi, de fato, uma grande surpresa para todos e representa, definitivamente, uma imagem de orgulho para todos os colombianos.

Os jogadores da Colômbia ficaram conhecidos também pela dancinha “armeration”, inventada por Pablo Armero. O que achou disso?

Faço outro tipo de dança (risos), mas, sim, achei muito legal e causou muita repercussão internacional.

Como você vê o movimento de globalização da “cúmbia”, ritmo que tem raízes na Colômbia?

Eu tentei fazer isso, um pouco dessa difusão, através de canções como Hips Don’t Lie. Essa música tem um pouco de cúmbia e tentei introduzir esse ritmo na rádio americana. O bom é que teve muito sucesso. Chegou ao número 1 de várias rádios por muitas e muitas semanas. Na verdade, nunca pensei que uma canção que tivesse um pouquinho de cúmbia colombiana pudesse chegar a esse patamar na rádio americana, que é normalmente muito fechada.

A que atribui esse sucesso?

Acho que é porque a cúmbia tem elementos que são universais e acabam tocando o inconsciente coletivo. Porque se deriva da música africana, acaba tendo esse aspecto de universalidade.

Você já mostrou que tem familiaridade com a dança do ventre, flamenco, cúmbia. Pensa em fazer algo com samba?

Tentei fazer isso agora com La La La. Por isso, procurei trabalhar com um dos melhores produtores do Brasil, que é o Carlinhos Brown. Ele é uma autoridade em ritmos. É, de fato, uma autoridade musical. E foi uma das melhores experiências da minha vida musical trabalhar com ele. Não só porque é uma alegria em pessoa, mas porque é um profundo conhecedor de música.

E o que você acha da Ivete Sangalo e da Claudia Leitte?

Conheço ambas. Sou amiga da Ivete, que é um sol. Ela é tão amável e tão querida para mim como é para os brasileiros. Claudia também é uma pessoa maravilhosa. Apesar de conhecê-la há pouco tempo. Elas são exemplos de talento e comprometimento para qualquer artista.

Você já se encontrou com a presidente Dilma. Acredita que a Colômbia possa ter uma presidente mulher, como o Brasil e a Argentina?

Tudo é possível. Espero que sim, talvez seja uma solução. Existem muitas mulheres comprometidas na Colômbia. Mulheres que se dedicam a melhorar as condições de vida dos outros. Mas, além da questão de gênero, acho que compromisso social é a coisa mais importante para um líder político.

O que mudou em sua vida depois de se tornar mãe?

Os sonhos (sorrindo). Agora tenho novos sonhos. Quero ver meu filho crescer e se tornar uma pessoa boa para a sociedade. Hoje, esse é um dos maiores desejos que moram no meu coração.

Em sua última turnê pelo Brasil, em 2011, o público pediu seus primeiros sucessos, como Estoy Aquí e Pies Descalzos. Voltará a cantá-los em palcos brasileiros?

Claro que sim. Minha história com o Brasil já é de alguns anos. Eu gosto da reação do público brasileiro – que dá tanto valor a essas músicas. Elas foram o meu cartão de apresentação aqui neste País. Foram as portas que se abriram para mim. Isso é uma das coisas que me fazem amar tanto o Brasil. Até me sinto um pouco brasileira (risos).

E como foi consolar o marido, Gerard Piqué, depois da eliminação da Espanha?

Foi uma lástima para todos, especialmente para Gerard. Mas eu tenho minha maneira de consolá-lo (risos)./MARÍLIA NEUSTEIN