‘Mexe-se no efeito sem entender a causa’, diz criador do RenovaBR sobre política

Sonia Racy

14 de março de 2021 | 00h40

EDUARDO MUFAREJ. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

EDUARDO MUFAREJ. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Ao criar o RenovaBR, Eduardo Mufarej não imaginava que o movimento tomaria uma proporção tão grande. Com objetivo ousado – o nome sinaliza a meta – a escola é destinada a quem deseja entrar na política partidária. Nos últimos anos, conseguiu emplacar alunos que se tornaram deputados e vereadores de todos  os estados do Brasil, listados em partidos diversos escolhidos pelos próprios estudantes. “Lembro que o Renova é apartidário”, reforça o ex-empresário. A função principal do movimento tem sido procurar viabilizar o acesso do cidadão comum à política.

Mufarej tampouco imaginou que sua vivência iria se tornar a base de um livro, batizado de Jornada Improvável, a ser lançado dia 7 de abril, pelo selo História Real da Intrínseca, com direitos autorais revertidos para o RenovaBR. “Para mim, o mais importante é que o Renova tenha um futuro incrível”. Sua história se confunde no final – levando em conta os últimos quatro anos – com a do movimento. “Uma pessoa que tenha espírito público, vontade de servir e intenção de contribuir com a sociedade, não vai encontrar nas estruturas políticas tradicionais um terreno fértil para que possa de fato pleitear um caminho e, eventualmente, lançar uma candidatura”, explicou ele ao programa Show Business, que vai ao ar hoje à noite na TV Bandeirantes. Aqui vão trechos da conversa:

Como você teve a ideia de fundar o Renova, em 2017? “Entrei nessa porque alguém tinha que fazer e quando a gente fala que alguém tem que fazer, é muito fácil a gente jogar o ‘alguém’ na responsabilidade do outro”.

A partir disso, o então empresário  começou a observar à sua volta e conheceu um grupo grande de gente bem preparada, com consistência, exibindo jornadas de vida incríveis. “Conheci o Felipe Rigoni, Tábata Amaral, Daniel José, Vinícius Poit, todos com vontade de participar do processo político sem saber como”, lembra Mufarej. “O que resolvi fazer naquele momento foi simplesmente apoiar essas pessoas para que elas não desistissem, porque muito da minha reflexão era: se essas pessoas ocuparem os espaços de poder no Brasil, vamos estabelecer melhores exemplos”.

O fundador do Renova é um exemplo em si. Filho de uma professora estadual, militante do PT, ele desenvolveu sua vida profissional com a mesma determinação que ele coloca hoje no Renova BR. “Em lugar da gente esperar que alguém vá lá e faça, vi uma oportunidade e eu mesmo fiz”. Mufarej lembra quando era criança, notou que sua mãe externava forte visão de justiça social, batendo sempre na tecla da redução de desigualdades. “Isso me ajudou a compreender, na idade adulta, um pouco da forma pela qual eu poderia deixar uma contribuição e ter um papel”. Reconhece, entretanto, que conseguiu fazer isto porque teve uma jornada de vida que lhe permitiu chegar num determinado momento e agir. “Se eu deixar de trabalhar, de ter um rendimento mensal, a minha vida não vai mudar radicalmente e portanto posso deixar uma contribuição mais efetiva pro Brasil”.

Na vida profissional, decolou no mercado financeiro para depois, na condição de acionista, tomar as rédeas do grupo Somos Educação. “Larguei tudo para tocar o Renova. Fiz isso com muito medo, com muito receio do risco, com receio de fracassar. Ao mesmo tempo, senti muita paz e certeza deque isso era a coisa certa a ser feita naquele momento.”

A decisão foi tomada quando o então empresário completou 40 anos de idade. Hoje, Mufarej olha para trás, acompanha de perto o movimento, e tem um “puta orgulho”. O que o impulsionou nesse caminho? A desigualdade social? “Gosto sempre de pensar em movimentos em que a gente pode apoiar a construção, mexer no estrutural e não no conjuntural”. No Brasil, segundo ele, mexe-se no efeito mas poucos procuram entender a causa. “O problema dessa descrença total com a política é essencialmente porque muita gente boa se afastou. Tem sim gente boa hoje na política, mas são uma minoria”.

Por  sua condição financeira, Mufarej poderia estar fazendo qualquer coisa na vida, inclusive… nada. Entretanto, chegou a uma conclusão quando criou o Renova. “Não tem chance de a gente esperar um País diferente se a gente se acomodar. O primeiro passo que nós precisamos dar é de mobilizar, estimular o cidadão comum, a pessoa que quer contribuir com a sociedade, ajudar no caminho de uma participação cívica, de impacto e de transformação.”

E quais são os desafios encontrados por quem entra no Renova? O desafio do postulante começa com o próprio processo decisório. “A sociedade, em grande parte, olha pra política com grandes restrições. A gente olha e fala, bom, o caminho político perdeu a nobreza, perdeu o sentido”, levanta, lembrando que o candidato ao curso tem que deixar sua carreira para se dedicar a um projeto político cujos caminhos que podem se abrir são absolutamente incertos. “Isso afasta muita gente.”

Financiamento? “Recebemos doações de pessoas físicas que estejam engajadas na transformação. Acabou a fase em que a sociedade foi omissa em relação à política. A nossa falta de participação levou o Brasil ao estado que estamos vivendo”, pontua.

Para o ano de 2022, o Renova abre agora o processo seletivo da jornada Renova. Inscrições no site www.renovabr.org. “Quem cursa vive também um processo de autoconhecimento, de definição de propósito. As pessoas precisam entender se essa é uma opção para percorrer sua caminhada de vida.”

No atual quadro confuso do Judiciário, toparia montar um Renova STF? “Quando a gente fala da questão do Supremo, precisamos pensar talvez em um modelo um pouco mais transparente e robusto para as indicações. A forma como os membros são indicados acaba resultando, em grande parte, em opções excessivamente políticas”.

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