Gal acha que cantar ‘é missão’, faz show e lança disco para público jovem

Gal acha que cantar ‘é missão’, faz show e lança disco para público jovem

Sonia Racy

16 de novembro de 2015 | 00h43

Foto: Divulgação

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Cantora baiana Gal Costa chega a São Paulo com a turnê 
de seu novo disco, Estratosférica, e fala 
da relação entre música e espiritualidade
 e da escolha de viver como uma paulistana
Já dura algum tempo o namoro de Gal Costa com o público jovem. Desde seu penúltimo disco, Recanto, a cantora está de olho no pessoal das novas gerações que busca sua música e sua discografia. E é a esse público que ela dedica seu novo trabalho, Estratosférica, cujos compositores – entre eles Marcelo Camelo e Mallu Magalhães – foram escolhidos pensando justamente no gosto dessa turma. “É um disco feito pra galera jovem, embora, na minha opinião, alguém mais velho também possa gostar”, afirmou a cantora em entrevista à repórter Marilia Neustein. 
Tranquila e realizada, Gal está feliz por apresentar o show desse trabalho na cidade onde escolheu viver: São Paulo. “Me identifico muito com a cidade, porque aqui as coisas acontecem, as pessoas são profissionais.” E acrescenta: “Eu não preciso ficar olhando o mar, já passei a vida olhando o mar”. O que a revela como uma boa paulistana: vai muito a cinema, restaurante e shopping. Estar em São Paulo – onde morou no começo da carreira – bem no momento de lançar esse disco também é, na sua opinião, uma forma de recomeço. “Toda a atmosfera do meu momento musical atual tem uma conexão muito grande com o passado, com os anos 60”, conta.
É em São Paulo, também, que Gal descreve como reveladora a relação com os fãs. “Quando saio nas ruas as pessoas falam comigo como se fossem velhos amigos e eu correspondo. Eu acho que o meu trabalho tem uma relação com a espiritualidade, no sentido de fazer crescer a alma das pessoas, de mexer de alguma maneira”, diz.
A apresentação do show – sábado, no Tom Brasil – promete momentos de emoção que ela antecipa aqui. Será quando pegar o violão e tocar a primeira música que aprendeu de Caetano Veloso. Abaixo, os melhores trechos da entrevista, feita na casa onde atua a sua assessoria.
Você tem falado muito do público jovem nos shows. Como tem sido essa troca e essa renovação para você? 
Acho que mesmo antes do disco Recanto o público jovem já estava ligado no meu trabalho. É maravilhoso saber que, depois de 50 anos de carreira, existe uma galera mais nova conhecendo a minha discografia, a minha história. Esse trabalho, Estratosférica, é feito pra essa galera jovem, embora seja um disco do qual uma pessoa mais velha também poderá. Um fã que acompanha a minha carreira e conhece as minhas transformações vai curtir perfeitamente. E o show é rock puro. Um show dançante.
Você também elegeu jovens compositores, como Marcelo Camelo, Mallu Magalhães, Lirinha…
Essa seleção foi feita pelo Marcos Preto. Ele pediu músicas às pessoas, ouvimos juntos e escolhemos o repertório. Eu escolhi as coisas com mais me identifiquei, uma galera que está há algum tempo na estrada mas eu nunca tinha gravado. E os jovens gostam dessas pessoas. Então acho bacana juntar. Porque também tem Caetano, Tom Zé… E o Tom Zé é jovem, né? No jeito de compor, de fazer o seu trabalho. Acho que a minha geração tem essa aura.
E você toca violão no nesse show? 
Toco. Uma música só. Na verdade, é para mostrar a primeira canção que eu aprendi de Caetano. Conto essa história no show, de quando fui conhecê-lo. Ele foi me ouvir cantar, porque a professora de dança de Dedé – que acabou virando mulher dele – já tinha levado umas meninas para ele ouvir e ele não tinha gostado. Ele estava num aniversário e eu com o violão cantando e ele gostou muito, pegou o violão e me ensinou logo uma música dele.
É a que você toca? 
É, eu já tinha um jeito de cantar bem moderno, por influência de João Gilberto, que eu amava. Então ele me perguntou: “Para você, quem é o maior cantor do Brasil?” Eu falei: “João Gilberto”. Ele comentou: “Eu também acho. Me dê aí o violão, vamos cantar”. E assim começou esse casamento musical. Caetano compõe muito bem pra mim. E é muito difícil compor para uma pessoa. Mas pra Caetano não, ele se referencia na minha história, na minha personalidade, na minha voz, ele fala objetivamente. É muito legal.
Fazer música aproxima muito o artista do público. Como se sente quando as pessoas se referem a você de maneira próxima?
Eu levo muito a sério o meu trabalho. Às vezes, digo coisas que podem parecer banais, mas não são. Em São Paulo, quando saio nas ruas as pessoas falam comigo como se fôssemos velhos amigos e eu correspondo. Acho que o meu trabalho tem uma relação com a espiritualidade, ele mexe de alguma maneira com as pessoas. Eu acho que é uma missão. Eu nasci sabendo que ia ser uma cantora. Uma vez um fã me disse que eu moldei o ser dele. Fico impressionada com essas coisas porque é muito forte. Você mexe com a personalidade, o jeito das pessoas. Acho que a música é a forma de arte que mais penetra na alma. Até na minha, me transforma, sinto assim até hoje, com 50 anos de carreira e 70 de idade.
Você sente essa emoção também quando ouve música?
Nossa, quantas vezes ouço pessoas que me tocam tanto que me deixam mole… A música vai fundo na alma, é uma forma de comunicação incrível. Acho que todo cantor tem um canal de comunicação com algo superior a ele. Um canal espiritual, no sentido filosófico. Porque tudo é energia. Eu acho que nós somos energia.
Escuta música em casa?
Gosto de ouvir música, mas não posso fazer isso no meio de 500 mil pessoas. Prefiro escutar com fone de ouvido, assim me abstraio e fico naquele mundo. Gosto de prestar atenção. Preciso estar só, num lugar quieto. Fico irritada quando tem interferência, quando estou concentrada em algo precioso e alguém me atrapalha. Outro dia, em casa, sozinha, fiquei ouvindo o canal VH, que só passa clipes. Já era tarde, e fiquei vendo vários, alguns bons, outros ruins, mas estava sozinha, sem interferência.
Você decidiu morar em São Paulo há alguns anos. O que a levou a essa decisão? E como vê hoje a situação vivida pela cidade?
Adoro morar aqui. Acho uma cidade maravilhosa, me identifico muito com ela. Porque aqui as coisas acontecem, as pessoas são profissionais. E é uma cidade também na qual você pode estar no meio de todo mundo e, se quiser ficar reclusa, também pode. É uma cidade dura, mas tudo bem. Eu não preciso ficar olhando o mar, já passei a vida olhando o mar… Morei aqui no começo da minha carreira e pelo momento que estou passando, sinto que estar aqui é como se fosse um recomeço.
 
Por que essa percepção? 
Toda a atmosfera do momento musical atual tem uma conexão muito grande com o passado, com os anos 60… Enfim, com a minha história. E acho bom morar aqui porque esta é uma cidade séria. Aqui um show se torna sério. Quando eu morava no Rio, ensaiava lá, viajava pelo Brasil e, quando chegava aqui sentia que o show ganhava uma seriedade que a própria cidade impõe. Isso que é São Paulo. É incrível.
De que modo você curte as qualidades da cidade? Como é sua rotina? 
Vou ao cinema com meu filho, vou também ao shopping, comer fora. Gosto mais de sair de dia do que à noite. Não sou muito notívaga, assim, de badalação, mas de dia eu saio bastante.
Você tem uma forte relação com a religião do candomblé? Como vê as manifestações de intolerância religiosa que ocorreram nos últimos tempos?
Eu acho que o mundo está louco. As pessoas têm que aprender a conviver com as diferenças. Porque, quando elas são para o bem, são formas de linguagem diferentes que se adaptam às pessoas dotadas de inteligência, caráter e energias diferentes, entendeu? O candomblé é uma religião linda e os deuses são uma energia desse elemento terra. E é de uma beleza incrível, as pessoas têm que ver isso. Eu tenho uma mente muito aberta quando se trata de religião. Mesmo quando é alguma coisa com a qual eu não concorde, ou não me identifique, eu respeito.
 
Nesta última semana, muitas feministas se manifestaram reivindicando espaço. Você se considera feminista? Acha que as cantoras têm tido cada vez mais espaço? 
Eu não sou militante feminista. Não vou competir com os homens. Não por uma questão de submissão, mas porque eu vejo que todo mundo é igual. O homem e a mulher são iguais, têm igual capacidade. Agora, claro, vivemos em um mundo machista onde as mulheres ganham menos que os homens. Acho que as mulheres têm que ser corajosas e altivas. Entendo que o mundo caminha para ficar cada vez mais feminista do que machista. Os papéis vão se inverter, ou isso vai se harmonizar. E o ideal é que isso se harmonize. Eu sempre sou a favor da harmonização de tudo.

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