‘Mesmo longe, não consigo falar dane-se o Brasil’, diz Cláudia Abreu

‘Mesmo longe, não consigo falar dane-se o Brasil’, diz Cláudia Abreu

Sonia Racy

04 de outubro de 2021 | 00h50

Cláudia Abreu. Foto: Mariana Vianna

Morando com a família em Portugal há mais de um ano, Claudia Abreu não consegue se desligar do Brasil. “Estamos todos juntos nessa loucura. Por mais que fisicamente eu esteja fora, a aflição está dentro, junto”, disse à repórter Sofia Patsch, em conversa por Zoom. “Tudo que esse governo provoca, a negação, o embate, está adoecendo a sociedade”, desabafou. “Não dá para defender mais as armas do que vacinas, não existe isso”.

Se ela pretende voltar a morar aqui? “Com certeza, amo o Rio de Janeiro, por mais que sei que morar na cidade é estar em estado de alerta o tempo inteiro”. A atriz passou quase seis meses gravando a segunda temporada da série Desalma, da Globoplay, no Brasil. “Por isso agora, vamos estender nossa estadia em Portugal até janeiro”, conta.

De Portugal, Cláudia está fazendo pós-graduação online em Artes Cênicas, pela PUC-Rio. “É terça e quinta à noite, com o fuso vai até 2 da manhã”. Ela conta que depois que se formou em Filosofia, em 2009, pegou gosto pela escrita.

Sumida das novelas, a atriz pode ser vista nas telonas, no longa O Silêncio da Chuva, adaptação para o cinema do suspense policial de Garcia-Roza, dirigido por Daniel Filho – a atriz também colaborou com o roteiro.

Para o ano que vem, ela está escrevendo uma peça sobre a vida e obra de Virgínia Wolff. “A Virgínia é uma autora que admiro muito, não consigo explicar porque exatamente, mas ela realmente me toca”. Confira os melhores momentos da entrevista a seguir.

Como está sendo viver em Portugal?

Desse um ano, passei seis meses no Brasil filmando a segunda temporada de Desalma, série da Globo Play. Portugal tem uma grande vantagem, é um país calmo. É um lugar que ainda tem paz, ou pelo menos uma ilusão de paz, você fica menos em estado de alerta. Eu que moro no Rio, sou apaixonada pelo Rio e não deixo ninguém falar mal do Rio de Janeiro, fico com raiva que falem mal do Rio, sei que morar no Rio é estar em estado de alerta o tempo inteiro, é parar no sinal e ficar com o radar ligado. Então realmente aqui tem uma tranquilidade que é prazerosa. Agora, curiosamente, mesmo estando aqui, não consegui sair do Brasil.

Explique melhor, por favor.

Ouço todos os podcasts de política, fico contando a hora que o fuso vai atualizar para poder ver o jornal. É uma angústia tão grande que a gente está sentindo com o Brasil, que não tem como desligar. Pelo menos eu não tenho esse distanciamento e esse dane-se o Brasil. Não dá. Estamos todos juntos nessa loucura. Por mais que fisicamente esteja fora, a aflição está dentro, junto. Acho que isso tudo que tá acontecendo com nosso País, essa divisão, tudo isso que esse governo provoca, a negação, o embate, está adoecendo todo mundo como sociedade mesmo.

A sociedade brasileira está polarizada.

Não é que as pessoas estão só brigando, mas alguma coisa se transformou nas relações. Você já não pode mais olhar a pessoa que defende o Bolsonaro da mesma maneira, por mais que ela tenha direito democraticamente de pensar diferente de você, mas entram os valores dela. É uma questão moral, muito mais profunda. Democracia é respeitar quem pensa diferente, até aí tudo bem. A questão é que tem limite, chega uma hora que não é simplesmente pensar diferente, entram outras coisas em jogo, caráter, sentido de coletividade, de respeito ao outro. Não dá para defender mais as armas do que vacinas, não existe isso.

Você estreou na TV em 1986. E entre as novela, séries, o teatro e cinema sempre tira um período sabático. Como funciona a dinâmica da sua carreira?
Desde que entrei na televisão, tive a preocupação de ser uma atriz que não ficasse restrita à TV, que fizesse de tudo, que fosse mais completa. Tive muita patrulha dos meus amigos do teatro, que já fazia antes da TV, para que eu não fosse para o lado mais fácil. Então isso ficou muito forte dentro de mim, arraigado mesmo, de que eu tinha que me desafiar constantemente, para me sentir renovada como atriz, me sentir instigada, para que pudesse ter um frescor que interessasse ao público. Então desde cedo, me cobrava para não me acomodar. No início da minha carreira fiz várias novelas seguidas, mas logo depois de Anos Rebeldes, que foi uma série de sucesso e me trouxe muita visibilidade, eu saí por livre e espontânea vontade. Voltei para meu grupo de teatro, na Bia Lessa.

Então os sabáticos não têm só a ver com o fato de ter quatro filhos, cada um de uma idade (a atriz é mãe de Maria, de 20 anos, Felipa, de 14, José Joaquim, de 11 e Pedro Henrique, de 9)?
Não julgo nenhuma mãe, acho que cada uma cria do jeito que quiser e é a profissional que quiser, mas quando tive a Maria pensei comigo: “Tenho uma profissão, não posso abandonar essa profissão, porque isso vai custar caro lá na frente, quando eles forem para a vida deles. Mas de que maneira posso ser a melhor mãe possível? Como é que eu posso somar essas duas coisas sem culpa?”. Não queria que eles crescessem e falassem minha mãe é uma atriz conhecida, ‘trá-lá-lá’, mas eu ficava muito sozinho, ficava longe, chorando em casa. Não queria isso.

E como fez para equilibrar os pratinhos?
Comecei a trabalhar de uma maneira mais espaçada, não fazia mais teatro junto com televisão. Quando gravei O Caminho das Nuvens, que era em uma locação remota, peguei minha primogênita, que tinha um ano e meio na época e levei comigo. Comprei um fogareiro elétrico, botei no quarto, fazia a sopinha dela lá e assim foi indo.

Se dedicou a peças infantis por um tempo, isso tem a ver com a maternidade?
Foi a maneira que achei de conciliar a vida de mãe com a vida profissional. Quando fiz as peças Pluft, O Fantasminha e Valentins ia para o teatro, mas levava meus filhos comigo. Isso foi muito bacana e muito divertido para eles também entenderem a nossa profissão. Eu e meu marido (Zé Henrique Fonseca) temos uma produtora, a Zola. Então produzir conteúdo infantil foi uma forma de aproximá-los ao nosso universo. Fizemos esses projetos para a infância dos nossos filhos, mas fiquei muito atenta para não me anular, tem que continuar a ter a sua individualidade. E entendi que quando mais tenho minha individualidade é quando estou trabalhando.

E quais são os planos para o teatro adulto?
Comecei a escrever uma peça sobre a vida e obra de Virgínia Woolf, que devo fazer ano que vem. A Virgínia é uma autora que admiro muito, não consigo explicar porque exatamente, mas ela realmente me toca. Acho que a sensibilidade que ela tem, a percepção da vida com uma poesia, e também essa sacação do fluxo de consciência, de trocar o narrador sem avisar, é uma literatura bem construída. Além de tudo, quando pesquisei sobre a vida dela, achei ainda mais interessante. Não pelo fato de ela ter se matado, mas por tudo que passou.

Começou a trabalhar aos 16 anos como atriz e decidiu se formar em Filosofia depois que teve sua primeira filha. Sentia falta de uma formação acadêmica?
Não para botar na parede, nem para não ir para a prisão comum (risos). Por mais que você seja autodidata, leia, estude, acho que em algum momento a gente sente falta. Principalmente nós, atores, que somos nosso próprio instrumento de trabalho. É importante se renovar, se atualizar, ampliar seu olhar, seu conhecimento, para continuar, de alguma maneira, interessante. E aí fui fazer essa faculdade de Filosofia, aonde se escreve muito. Basicamente é leitura e escrita, leitura e escrita. E isso me deu gosto, tem me aberto uma janela de novas possibilidades profissionais, que tenho gostado muito. Também dei ideias para o roteiro de O Silêncio da Chuva, que o Daniel (Filho) acabou usando.

Por falar nisso, nesta adaptação do livro O Silêncio da Chuva, de Garcia-Roza, para o cinema, o diretor Daniel Filho fez mudanças para deixar o romance policial mais atual. Uma delas foi a parceira do delegado Espinosa (interpretado por Lázaro Ramos) ser uma policial mulher (interpretada por Thalita Carauta). O que achou?
O fato da parceira do Espinosa ser uma mulher forte – que flerta, seduz, sem nenhuma culpa sobre sua vida sexual e amorosa – foi um grande ganho. Não precisa se masculinizar para ser uma policial investigadora. Então tem um ganho duplo aí, o fato de ela ser uma mulher que gosta de flertar, de sexo, de sedução, mas é firme e uma boa profissional da polícia. Acho que isso foi uma sacada do Daniel Filho.

Não só as policiais, mas as mulheres em geral, são estereotipadas na dramaturgia, principalmente como histéricas. Como avalia?
Não sei histérica, mas existe esse olhar sim, não só na dramaturgia, olhem a CPI da Covid. Então, se a mulher está incisiva, se está nervosa, ah, então você está descontrolada, histérica. Existe uma forma de minimizar a força da mulher ou mesmo de desprezar qualquer tipo de empenho, de embate, diminuindo, dizendo que ela é uma maluca, que está de TPM.

Um número maior de diretoras mulheres ajuda a combater essa caricatura?
Nos ajuda a ter um olhar feminino sobre as histórias, para que tenha sempre um ponto de vista da mulher. Espero que as personagens femininas sejam mais valorizadas e menos colocadas no lugar do romântico ou do sexual. Aí fica sempre essa dualidade, esse lugar da mulher do amor romântico ou o amor sexual e pronto. Então acho que é bom dar o espaço para que a mulher possa ser milhares de outras coisas, além de ser objeto do desejo do homem. E até os diretores homens já estão observando, desenvolvendo essas ideias, mudando essa representação, esse lugar já está sendo mais conquistado pelas mulheres e isso é um ganho importantíssimo.

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