‘Mercado cultural tem de ser visto de modo mais profissional’

‘Mercado cultural tem de ser visto de modo mais profissional’

Sonia Racy

11 de março de 2019 | 00h50

CAROLINA FERRAZ. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Em defesa da Lei Rouanet, Carolina Ferraz
avisa que a classe artística está temerosa,
que sem incentivos é muito difícil
produzir e pede rigor contra os corruptos

Depois da parceria de sucesso com Otávio Martins na peça Que Tal Nós Dois?, dirigida por Isser Korik, Carolina Ferraz repete a cena. Não, não vai voltar com a apresentação que ficou nove meses em cartaz. Mas monta, com os mesmos parceiros, para estrear em junho, no Teatro Folha, o texto americano Há Algo de Estranho. E está em negociações avançadas com um canal de TV aberta para apresentar programa semanal eclético.

“Se fechar, estreio em maio”, torce a talentosa atriz e apresentadora, que não para de se reinventar para além da transformação de seus cabelos – de loiros e longos em negros e curtos. Ela, mãe de Valentina e Izabel, também começa a rodar um longa a partir de julho que se chama A Chance. Novela? “Não estou pensando em fazer nenhuma novela. Mas gostaria de reeditar meu programa de cozinha.” Aqui vão trechos da conversa.

Qual a sua avaliação sobre a Lei Rouanet?
Defendo que o mercado do entretenimento no Brasil devia ser visto de maneira mais profissional. Ele cria muitos empregos e oportunidades, gera dividendos e frutos desse lucro são devolvidos para a sociedade. É um mercado muito importante, deveria ser tão profissional quanto qualquer outro, mas no Brasil a gente ainda pena muito com isso. Sem incentivos é muito difícil produzir arte ou qualquer coisa relacionada à cultura. Eu só consegui produzir meu último espetáculo porque ele tinha duas pessoas, o cenário é uma cama e o diretor entrou com a gente.

A Lei Rouanet está sob ataque. Por que isso?
A classe artística como está temerosa, sendo responsabilizada por questões pelas quais não somos responsáveis. O que a gente precisa é de um País menos corrupto, onde as coisas possam ser melhor fiscalizadas. É isso que tem que acontecer, e não deixar de haver leis de incentivo. Porque sem elas, de fato, a gente não consegue fazer nada.

Atores brasileiros se inibem ao falar em política?
Não, eles falam muito em política, às vezes até demais. A classe artística é muito presente e de modo geral, mais presente na esquerda. Eu não sou de direita nem de esquerda, não gosto de ninguém. Anulo meu voto há 16 anos.

Há 16 anos?
Me sinto muito mal representada. Eu não tenho essa de “puxa, aquele cara é bacana, mas tem caixa 2”. Dane-se. Se descobrirem que ele tem caixa 2, tem que ir preso. O problema da corrupção está diretamente ligado à impunidade. Se a gente não cria uma sociedade capaz de gerar oportunidades melhores, iguais pra todos, a gente não melhora.

Você se preocupa com idade?
Eu fiquei mais traumatizada quando fiz 46, quando deixei de ter 40 e poucos pra ter 40 e muitos, do que agora com 50. Ao contrário, estou mais a fim de levantar essa bandeira. Se você olhar as campanhas publicitárias no mundo, muitas são feitas com mulheres acima de 45, 50 anos. Julianne Moore, Julia Roberts, Jennifer Aniston, até Penélope Cruz. O mercado publicitário investe nesse tipo – uma mulher bonita, bem-sucedida, que pode consumir determinados produtos.

A decisão de ser atriz, como foi que você a tomou?
Hoje as meninas querem crescer e ser blogueiras, influencers. Na minha época, queriam ser atrizes. Vim parar nessa seara por acaso. Fui convidada a apresentar um programa na antiga TV Manchete, um diretor entendeu que eu tinha temperamento para ser atriz e me chamou para novela. Eu disse que não iria, que ator é muito louco. E fui, gostei, ganhei prêmio e tudo.

E como é que é ter temperamento de atriz?
Hoje talvez eu consiga, olhando pra trás, entender o que ele quis dizer. Acho que é quando alguma coisa transparece além da forma.

Tem quem diga que atores precisam ser pessoas com personalidade mais fraca – não é o seu caso – para incorporar os personagens. Como você se anula pra deixar entrar a Beatriz, a Ana, a Maria das quantas?
Primeiro eu acho que o meu universo pessoal é sempre infinitamente maior do que o universo de qualquer personagem. Então não preciso me anular, vou achar um jeito de encaixar aquela personagem dentro do meu universo. Quando fui fazer um travesti no filme A Glória e a Graça, eu percebi que as dificuldades eram muitas. Mas o meu comprometimento era tamanho em não fazer uma coisa estereotipada, que eu concluí: só posso ser autêntica. Tenho de buscar em mim a verdade dessa personagem. Aí você vai ver o filme, não tem nada da Carolina. É só a Glória.

‘NÃO SOU DE ESQUERDA
NEM DE DIREITA. ANULO
MEU VOTO HÁ 16 ANOS’

Pra chegar a isso você conversou com travestis? Foi pra rua?
Fui a campo, cheguei a ir pra noite travestida e a caráter. E pensava: “Ai, meu Deus, e se eu encontrar alguém?” Elas me acalmavam, “Carolina, se você encontrar alguém tudo bem, você está fazendo laboratório. O pior é o outro que você encontrar, tá aqui fazendo o quê?” (risos). Fiz 62 entrevistas, ruminei esse projeto por dez anos. Ninguém queria dar patrocínio, diziam que eu ia destruir a minha carreira se fizesse um personagem desses. Até que finalmente a sociedade mudou diante da questão do gênero.

Você já sofreu abuso sexual, assédio, algo do tipo?
Não, mas conheço casos de amigas próximas que sofreram. Infelizmente acontece mesmo, não é fantasia. E acho que isso tem que ser abordado, tem que acabar. Chega.

Como terminar esse tipo de agressão? Denunciando?
Tem que denunciar para inibir. Tem que educar a população para uma convivência civil onde a gentileza de fato gere gentileza, onde seja normal as pessoas somarem, não subtraírem. Isso faz parte do momento que vivemos no Brasil.

Pessoas públicas, atores e atrizes podem vir à mídia e denunciar. O que você sugere para as pessoas anônimas?
Não é só uma coisa do artista, é uma questão de sociedade. A sociedade brasileira como um todo é muito desinteressada do coletivo, todo mundo é muito individualista. Nos EUA há uma consciência civil gigante. Quando começaram a vir à tona denúncias de assédio no meio artístico, criaram a Fundação Times Up. Juntaram milhões de dólares em seis meses e ela ajuda quem não tem condições de contratar advogado. Aqui falta essa consciência de devolver um pouco.

Tanto a sociedade como também os governos, não é?
Mas a sociedade tem que exigir do governo. Eu não quero nem falar do governo porque estou de saco cheio de política. Somos, infelizmente, coprodutores dessa situação, sabe? São anos e anos de maus gestores, de corrupção e banditismo.

Você morou no Rio?
Morei e me sentia abandonada. Tinha medo. Morava no Leblon, onde o IPTU é caríssimo. Eu acho que deveríamos, nós cidadãos, em tese, nos envolver em política, não nos candidatando, mas em movimentos sociais. Me considero uma pessoa bastante engajada, é que eu não fico falando disso. Muita gente usa isso como maneira de se promover. Eu quero dar a minha contribuição, acho tudo que está acontecendo muito errado, estou interessada é em indivíduos. Precisamos compartilhar esse ambiente que a gente vive. O bem de fato só é bem quando é coletivo.

O que você ensina para as suas filhas nesse sentido?
Acho que elas vão ter uma oportunidade maior porque tenho plena consciência de ser uma pessoa privilegiada. A gente sempre teve acesso à educação. Espero que as minhas filhas façam o melhor pelos filhos delas, e que cada geração contribua de algum modo, pois não imagino que isso vá ser resolvido muito rápido.

Qual sua visão dos movimentos feministas?
Vou lhe dar um exemplo diferente, sobre machismo. Tenho muitas amigas solteiras, bacanas, que começam a namorar e ficam reclamando do namorado, dizendo que ele é um cretino etc. E eu digo: “Mas você está criando seu filho de cinco anos pra ser um machistinha boçal igual a ele. A culpa é sua. Eduque-o pra ser um homem bacana, pra tratar melhor uma mulher, pra conviver melhor com as pessoas. Você é responsável, sabe?”

Como você lida com a fama?
Tento refletir bastante pra não dizer nada absurdo ou que atrapalhe a vida dos outros. A fama é pernóstica, é nociva. Sucesso e prestígio são coisas boas, mas a gente trabalha pra ter prestígio, respeitabilidade, não pra ser famoso. No meu caso, tudo bem, eu administro, mas não acho que ela seja uma coisa bacana. Não foi a fama que me trouxe a sobrevivência e sim meu trabalho que me fez famosa. Em função dele encontrei um meio de sobreviver.

Gostaria de dirigir peças?
Não. Eu não gostaria de dirigir não, eu gosto de ser dirigida. Eu gosto é de produzir. Acho que sou uma boa produtora, boa pra juntar os pauzinhos. Acho mais: só quando você produz é que consegue ter um controle maior sobre sua carreira.

Você convive bem com as redes sociais?
Não quero ficar pra trás, acho que um dos grandes sintomas de você não envelhecer no sentido profissional é acompanhar as transformações. Não adianta mais, hoje em dia, você pensar na sua carreira como jornalista e não ter uma plataforma de streaming, um canal no YouTube, no Facebook. Não há como você não usar o seu Instagram.

Onde é que você encontra sua paz de espírito?
Acho que na fé e na natureza. Eu adoro dar um mergulho, mas sou mais contemplativa, do campo, curto ficar parada, sentido o vento… Sou capaz de ficar ali quieta, isso me acalma muito. E a fé, né, gente, “andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar…” É isso aí.

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