Mel Lisboa: ‘Envelhecer tem muitos tabus. Temos que entender esse processo’

Mel Lisboa: ‘Envelhecer tem muitos tabus. Temos que entender esse processo’

Marcela Paes

27 de junho de 2022 | 01h00

 

Mel Lisboa. Foto: Fabio Audi

Desde a estreia na televisão em 2001 com Presença de Anita, Mel Lisboa vê a carreira – e muitas outras situações da vida – como processos de aprendizado. Temas como o envolvimento com causas feministas até seu próprio envelhecimento são, para ela, oportunidades de reflexão. “Sou uma mulher criada por uma mãe solo, com outra irmã, criada num ambiente feminino. Sou uma feminista em construção, o que significa que aprendo diariamente’, escreve a atriz à repórter Marcela Paes.

No ar com a novela Cara e Coragem (Globo) e com dois filmes previstos para estrear neste ano, Mel também está na audiossérie Paciente 63, que acaba de levar o prêmio de melhor podcast do ano, pela APCA. Leia abaixo a entrevista com a atriz.

Você completou 40 anos, uma idade que carrega um tabu para mulheres. Como está vivendo o período?

Acho que essa questão dos 40 anos é um marco simbólico na sociedade. É cultural, é como se ele representasse uma maturidade, o que para algumas pessoas pode ser preocupante, mas eu valorizo muito essa maturidade. Valorizo a experiência, a sabedoria, a aquisição de conhecimento, de recursos técnicos da minha carreira, de ter mais calma e mais conhecimento de mundo. Realmente me sinto muito bem com 40 anos, é uma fase boa. Claro que envelhecer tem muitos tabus. Até os outros têm dificuldade de aceitar o meu envelhecimento. Temos que ir trabalhando e entendendo esses processos.

Acha que existe muito etarismo no meio artístico?

Acho que sim, acho que existe bastante etarismo no meio artístico. No entanto, não é apenas no nosso meio, acho que o etarismo está presente na sociedade como um todo. Agora, é evidente que o trabalho dos atores está atrelado intimamente à nossa imagem, então acaba que a questão do etarismo fica, muitas vezes, mais evidente nesse meio.

Em ‘Atena’, filme em que você atua, a violência contra a mulher é abordada. Qual a sua relação com o feminismo e o ativismo em causas de defesa da mulher?

A minha relação com o feminismo e com o ativismo é constante, permanente e existe desde que eu me entendo por gente. Sou uma mulher criada por uma mãe solo, com outra irmã, criada num ambiente feminino. Desde muito cedo percebi que a luta que se fazia necessária e com o passar dos anos vou aprendendo. Sou uma feminista em construção, o que significa que aprendo diariamente com outras mulheres, que me ensinam a pluralidade e as diferenças entre a gente. É uma situação de aprendizado permanente.

Você estourou na televisão com ‘Presença de Anita’. Como foi ter esse tipo de sucesso tão nova e com pouca experiência?

Eu tinha tanta preocupação em fazer bem o meu trabalho, que não tinha muita consciência das consequências dele. Eu era muito nova e na época achei que estava conseguindo administrar bem as coisas, mas hoje com a minha maturidade e olhando com um certo distanciamento, percebo que não. Foi avassalador  e a avalanche, de certa forma, me levou com ela, mas é natural e eu procuro me entender e me acolher. Naquele momento era tudo muito intenso.

Você acaba de ganhar o prêmio APCA com ‘Paciente 63’. Na sua opinião, por que os podcasts fazem tanto sucesso hoje? Existe um esgotamento da imagem pelas redes sociais?

Sou uma consumidora voraz de conteúdos de áudio. O fato de você só ouvir facilita um pouco no nosso dia a dia. Às vezes a gente não tem muito tempo para parar e assistir alguma coisa e às vezes você está ouvindo um conteúdo enquanto está fazendo algum trabalho doméstico, se deslocando…No caso do ‘Paciente 63’, há uma coisa interessante, que é o estímulo à imaginação e ao lúdico. O estímulo de áudio faz com que você acabe concluindo a narrativa com imagens criadas na sua própria cabeça. É uma certa magia que o rádio tem e que está sendo resgatada e aprofundada com as tecnologias e os novos modos de consumo que os podcasts e as plataformas permitiram.

Muitos são críticos do tratamento dado à cultura no governo Bolsonaro. Qual a sua opinião?

Eu acho que a cultura sofreu bastante durante esse governo, a começar com a extinção do Ministério da Cultura. A classe artística segue se mobilizando e buscando maneiras de reverter as baixas que tivemos nesse período, além das fake news envolvendo o meio. O tamanho da preocupação do governo em desmontar a cultura é proporcional ao tamanho da importância que ela tem na formação ética, crítica e questionadora de um povo.

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