‘Medalha trouxe de volta a vontade de competir’, diz Pedro Barros, skatista prata em Tóquio

‘Medalha trouxe de volta a vontade de competir’, diz Pedro Barros, skatista prata em Tóquio

Sonia Racy

20 de setembro de 2021 | 00h38

Pedro Barros. Foto: Tauana Sofia

Com 26 anos, Pedro Barros pode dizer que passou 25 deles em contato com o skate – desde bebê já brincava com as rodinhas, por influência do pai. Se tornou profissional aos 13 e foi seis vezes campeão do X-Games, competição mais importante do skate no mundo.

Este ano, foi prata nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Mesmo com tantas vitórias, o catarinense vê suas conquistas no segundo plano de sua real missão no skate – que não considera um esporte. Para Barros, o mais importante é fomentar o estilo de vida da modalidade, que classifica, entre muitos outros adjetivos, como senso de união.

“Com o skate aprendemos a cair e a levantar”, explica ele à repórter Marcela Paes. Também dono da cervejaria LayBack, ele se prepara para lançar mais 16 unidades de seu LayBack Park – mistura de pista de skate, espaço gastronômico e apresentações culturais. “Tem essa coisa de fomentar o crescimento do público”. Leia abaixo a entrevista.

O Brasil conquistou três medalhas no skate nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Acha que isso vai fazer o esporte crescer em termos práticos no País?
Acredito que a Olimpíada foi uma plataforma para mostrar para o mundo os nossos valores. Mas o crescimento depende muito do trabalho coletivo dos skatistas, de quem vai estar presente nessa indústria e no mercado. E tem que ser de uma forma benéfica para a própria cultura do skate. Precisamos melhorar a estrutura, a condição de pistas, dar informação. Durante 10 anos eu estava sempre entre os três primeiros lugares nas competições, tinha uma pressão grande, estava até pensando em me distanciar. A medalha me trouxe de volta a vontade de competir, de trazer essa visibilidade e fazer coisas pelo skate.

Em 1988, o Jânio Quadros, chegou a proibir o skate em SP. Você acha que o skate ainda sofre preconceito?
Acho que todos nós sofremos preconceito de alguma forma, a gente é constantemente julgado na sociedade. É uma característica do ser humano. Com relação ao skate, acho que sem dúvida hoje vivemos uma realidade diferente dessa época. Ainda existe preconceito, mas quebramos muitas barreiras. Mostramos o que é esse estilo de vida, mas temos que fazer a informação chegar a mais lugares. Ainda tem muito a ser construído para desmistificar ideias erradas.

Você já participou e ganhou diversos campeonatos pelo mundo. Essas competições foram muito diferentes dos Jogos Olímpicos?
A Olimpíada foi uma experiência incrível, com certeza pelo fato de ser uma experiência muito diferente do que eu estava acostumado. Nas competições de skate a maioria dos espectadores é skatista e os campeonatos são organizados por gente do meio. Não traz a atenção que tivemos nos Jogos. E, fora isso, a sensação de estar na Vila Olímpica é incrível. É um local que é basicamente um bairro montado só para atletas do mundo inteiro, de modalidades, culturas e bagagens diferentes.

Após ganhar a medalha de prata você tem sido mais reconhecido na rua?
Com certeza. Logo após o fim dos jogos, fui reconhecido o tempo todo no aeroporto no caminho de volta. Eu já tinha um grande nome dentro do skate, mas o meu papel sempre foi tentar fazer mais pelo skate nos bastidores, um trabalho que aparece pouco. Agora quero movimentar pistas, lugares, eventos e atividades culturais. Isso é o mais importante pra mim. A exposição foi maravilhosa, mas a próxima Olimpíada é só daqui a três anos. Temos que trazer mais visibilidade agora.

Seu pai sempre te incentivou a andar de skate, desde criança. Como foi esse aspecto da sua infância?
Foi tudo muito natural e orgânico. Meu pai se interessou por skate antes e começou a me levar para esse meio quando eu tinha só um ano de idade. Era o meio em que vivíamos, não era um esforço. A gente vivia meio fora da sociedade tradicional. O grupo de amigos do meu pai acordava e ia dormir falando de skate, de surf e de música. Era uma coisa bem bon vivant talvez distinta dos padrões que a gente vê implantados pela sociedade, mas com certeza com uma qualidade de vida gigantesca. Eram pessoas que tinham tempo, contato com o esporte, com a saúde. Consequentemente, quando eu vi, já estava indo a campeonatos de skate. Fui criado muito solto. Meu pai ia surfar e me deixava com dois, três anos esperando embaixo de um guarda-sol. Ele pedia pra algum amigo dar uma olhada.

Nos campeonatos você também tinha essa independência?
Com nove anos eu já ia sozinho para os campeonatos. Meu pai me levava, eu ficava na casa de amigos e ele e me buscava dois dias depois, quando acabava. Vejo isso como uma maturidade dele. Ele sabia desde o início o quanto que o skate era uma escola. Eu tive acesso a experiências e pessoas logo cedo e aprendi. Era um ambiente com pessoas de boa índole, mas sempre vi o que acontecia, como gente fumando e bebendo. Para mim foi positivo, me ensinou a ser consciente.

O Kevin Hoelfler, que também ganhou a medalha nos Jogos, disse numa entrevista que foi muito legal participar, mas que os skatistas não precisavam estar ali e nem queriam necessariamente estar lá. Qual a sua opinião a respeito?
Eu acho que qualquer coisa que vem como uma nova informação, traz um questionamento: Será que isso vai ser bom? Será que vai ser positivo? Então, claro, para os skatistas que viveram, como eu vivi, os últimos 10 anos como profissional sem nem cogitar ir para uma Olimpíada, deu uma certa desconfiança. Será que é essa imagem que eu quero passar com o skate? Esse receio surgiu em muitos competidores. Os skatistas não se enxergam como atletas, como um jogador de futebol ou uma ginasta. No final foi uma realidade positiva, mas o que foi mágico foram os próprios skatistas.

Você diz em termos de performance?
Nós mostramos valores, trouxemos elegância, nobreza e uma classe na forma de agir como atletas, como seres humanos e amigos naquele momento. Esse showzinho foi graças aos skatistas. Foi muito legal porque mostrou que não há risco de perdermos a essência quando fazemos algo com amor. O skate tem essa habilidade de transcender.

Durante a Olimpíada houve ruídos entre o Kelvin e a Confederação Brasileira de Skate. Ele também se desentendeu com a Letícia Bufoni. Como é a sua relação com a entidade e como enxergou a situação entre os dois?
Minha relação é super boa. A Confederação Brasileira nos ajudou muito durante esse período. Só que hoje em dia, em meio de tanta mídia e de tanta coisa que se fala, os fatos acabam distorcidos É um monte de gente querendo opinar e que, na verdade, não vive aquilo. Sobre o problema com a Letícia, acho que também foi distorcido. E se o Kelvin ou a Letícia têm algum motivo para dizer determinadas coisas, que deixem eles dizerem. Cada um tem sua vida, cada um tem seus problemas e as suas desavenças, também. O importante foi a mensagem que passamos, que as meninas passaram.

Na sua opinião, o que é a essência do skate?
Para mim, começa no conceito de não se enquadrar em uma caixa. É você se conhecer, se permitir ser livre e ser criativo. Desde o início o skate nos ensina que para aprender qualquer manobra é necessário saber cair e se levantar. A partir do momento em que você começa a levar essa filosofia para vida você vê os resultados. Apesar de ser um esporte individual, você aprende que não tem graça fazer uma manobra nova sozinho. Tem um senso de união.

Como isso acontece?
Por exemplo, eu estava agora em Miami e como não gosto de fazer turismo comum, fui procurar uma pista de skate. E eu estava sem skate porque vinha de uma viagem de surfe. Cheguei lá de chinelo e, com educação, pedi o skate emprestado para um cara. Ele emprestou e quando eu vi, já estava trocando telefone com ele, tirando fotos e tendo altas conversas. Provavelmente, se eu precisasse de um lugar para ficar, ele também estaria disposto a me receber. Hoje é cada vez mais difícil quebrar essas barreiras em ambientes comuns. Não se pode olhar a aparência do outro e já formar uma opinião. Talvez o cara tenha uma tatuagem na cara, o cabelo pintado ou uma cor de pele diferente da sua, mas não assuma que ele é um marginal, sem futuro ou um maconheiro por isso.

Você tem uma marca de cerveja com o seu pai e também vários skate parks. Considera ter um lado empresário?
Meu papel é mais como um criativo, sabe? Tenho esses projetos que se iniciaram de criações minhas e viraram negócios, mas a ideia sempre foi trazer coisas ligadas ao skate que eu não via no Brasil. A LayBack Beer, que é a minha marca de cerveja, surgiu porque em Rio Tavares (bairro de Florianópolis) não tinha nenhum estabelecimento em que a gente pudesse tomar uma cerveja de qualidade. Daí eu pensei: imagina se a gente pudesse ter um ambiente legal, uma marca para fazer eventos, patrocinar skatistas e fomentar esse mercado. Surgiu assim. Uma criança pode ir a um LayBack Park lá enquanto o pai come alguma coisa, vê um show. Tem uma coisa de fomentar o público.

O seu pai ajuda a colocar essas ideias em prática?
Meu pai sempre foi uma pessoa sonhadora. Nada parecia loucura demais e não éramos uma família com dinheiro. Foi com esse espírito que fizemos muita coisa na base da união, como construir uma pista de skate na nossa comunidade. Hoje tenho uma equipe que me ajuda também. Eu me profissionalizei no skate aos 13 anos e hoje tenho 26. As coisas foram indo naturalmente por esse caminho.

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