‘Maysa é um trabalho distante do público’

‘Maysa é um trabalho distante do público’

Redação

19 de janeiro de 2009 | 06h00

Alexandre Raposo, presidente da TV Record, avalia os rivais, acha que Elis Regina seria melhor personagem para uma minissérie e conta os planos para superar a Globo

Alexandre Raposo não é o tipo de executivo que pisa em ovos. Aos 37 anos, comanda a Rede Record com carta branca do pastor Edir Macedo, fundador da Igreja Universal e dono da emissora. Assim como não lhe falta ousadia, não lhe falta dinheiro em caixa para avançar sobre redutos da concorrência. Antes dos primeiros sinais de crise, comprou por US$ 75 milhões os direitos das Olimpíadas de Londres, dos Jogos Pan-Americanos do México e dos Jogos de Inverno, no Canadá.

Pragmático e workaholic, Raposo – filho de portugueses que começou a vida tocando uma padaria em Salvador -, passa o dia numa ampla sala da emissora, na Barra Funda, de olho em quatro telinhas de TV que mostram, minuto a minuto, os índices do Ibope. Para a coluna falou, sem meias palavras, sobre audiência, concorrência e, claro, a minissérie Maysa, da TV Globo.

Viu algum capítulo de Maysa? Assisti a uns pedaços gravados e achei que é um trabalho muito distante do público. Dizem na chamada que o Brasil conhece a Maysa. Acho que não. Eu mesmo não a conheço bem. A história é distante dos dias atuais. Se fosse a Elis Regina, todo mundo conheceria e talvez o sucesso fosse maior. Mas não quero tirar o mérito de quem produz.

Gosta da novela Revelação, de Íris Abravanel? Vi o primeiro e o segundo capítulo. O terceiro não consegui. Achei muito ruim. Não é o padrão de novela que o brasileiro quer.

Como a crise afetou a Record? Os salários estão mais baixos? Salários absurdamente altos não existem há algum tempo. E não por causa da atual crise. Houve um momento, entre 1999 e 2001, em que eles eram altíssimos: Gugu, Ana Maria Braga, Ratinho… Isso mudou. A Record passou a focar em produtos, não em pessoas, como faz a nossa concorrente (TV Globo). Veja o exemplo do Ratinho. Ele saiu da Record e foi para o SBT ganhando um absurdo. Hoje, está fora do ar. E a Adriane Galisteu, na Band? Quanto será que ela ganha hoje? Talvez 30% do que ganhava no SBT.

A Record gastou US$ 75 milhões para comprar o Pan, as Olimpíadas e os Jogos de Inverno. A dívida em dólar cresceu muito? Para nossa sorte, pagamos boa parte das Olimpíadas com o dólar a R$ 1,60. E só vamos pagar novas parcelas no segundo semestre, quando o real deve se valorizar. E, para nossa felicidade, vendemos os direitos da transmissão com o dólar a R$ 2,36, metade à vista.

Como foi a publicidade em 2008? Cresceu. E deve crescer mais este ano. O mercado geral prevê crescer de 5% a 7%, nós esperamos 15% no mínimo.

Quanto ganha um artista na Record? Em novela, R$ 30 mil no máximo, se estiver trabalhando. Se não, menos. Um apresentador, na faixa de R$ 100 mil.

A Record é acusada de inflacionar o mercado. Houve um momento em que só havia uma TV para se trabalhar. A Record deu uma oportunidade às pessoas, que passaram a ganhar mais. Artista de novela não tinha contrato de longo prazo. Fazia novela e ficava esperando outro chamado… Nós adotamos contratos de longo prazo para dar segurança. E, aí, nosso concorrente tomou a mesma posição.

Antes da estreia de A Lei e o Crime, falou-se sobre Wagner Moura como protagonista. Por que não deu certo?
Houve um diálogo com o José Padilha sobre a produção da série, mas não avançou. Com a concorrente, também não.

A série foi inspirada no filme Tropa de Elite? Não. Foi inspirada na novela Vidas Opostas, mas é normal essa comparação. Quando estreou Tropa de Elite o filme foi comparado a Cidade de Deus…

Qual sua relação com a Igreja Universal? Fui católico, sou cristão e frequento a Igreja Universal. O Brasil continua muito preconceituoso. O diretor da Globo é judeu, mas ninguém pergunta se a Globo tem alguma coisa com o judaísmo. O fato de eu frequentar ou não a igreja não tem nada a ver. Esse mito caiu. Todo mundo já sabe que a Record é uma TV comercial e que a Igreja Universal não é dona da Record.

Como é essa relação? É comercial. A Igreja é um anunciante nosso. O mercado evangélico é um anunciante importante no Brasil e ajudou a Record a crescer. Ajudou também a Band, a RedeTV!, a Gazeta e outros canais. Isso já acontecia no mundo todo. É salutar. Essas igrejas anunciantes geram empregos.

Edir Macedo participa da vida emissora? Ele não participa da gestão, nunca participou. Nos reunimos uma ou duas vezes por ano para aprovação de orçamento, já que ele é o acionista. Faz mais de um ano que ele veio aqui pela última vez. Ele não tira lucro da emissora. Reinveste tudo e dá liberdade de ação.

Quais artistas de outras emissoras você gostaria de ver na Record? Lima Duarte é um nome maravilhoso. Já conversamos com ele , mas não avançou. Está em outro momento da carreira. Glória Pires, Tony Ramos, Renata Sorrah… Qualquer um gostaria de tê-los no elenco.

E a Xuxa? Não temos, aqui, foco infantil…

É verdade que William Bonner e Fátima Bernardes estiveram prestes a ser contratados? Não chegaram a estar próximos. Foram sondados.

De que atrações de outros canais você gosta? Assisto pouco a TV aberta. Gosto da CNN, de BBC, ESPN, documentários, RecordNews. De humor, gosto do Pânico. Do CQC também gosto.

E a Globo? A Globo eu não assisto, até porque tenho a Record. Se formos comparar produto a produto, nossa programação é muito superior.

Gostaria de comprar os direitos do Campeonato Brasileiro? Ele vive um momento difícil. O futebol está em decadência, não temos mais craques. Esse modelo de uma única transmissão acabou dando menos dinheiro aos clubes e prejudicou o futebol. A audiência cai a cada momento.

A Record tem prazo para passar a Globo? Fizemos um planejamento em 2005. A nossa expectativa era em não menos que cinco anos, e não mais que dez, passar a Globo. Essa projeção continua.
Fechamos 2008 com 46% da audiência da Globo. Em alguns meses, chegamos a 50%. Nunca nenhuma outra TV do Brasil teve essa audiência. Nos próximos cinco anos, teremos a possibilidade real de encostar na Globo.

Por Pedro Venceslau

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