Marina Morena quer ‘levar o Brasil para o resto do mundo’

Sonia Racy

29 de abril de 2019 | 00h45

MARINA MORENA. FOTO IARA MORSELLI

A empresária baiana, uma das responsáveis
pela carreira internacional de Anitta,
defende os artistas que não querem falar
de política: “As pessoas têm de aceitar”.

Na sua primeira ida à Europa, acompanhando turnê de Gilberto Gil, a hoje empresária Marina Morena percebeu que precisaria de dinheiro para aproveitar a viagem. A baiana, na época com 14 anos, tinha a passagem e a estada pagas pela família Gil, mas nenhum tostão para chamar de seu. “Eu queria dar um jeito de ganhar um dinheiro e a Flora sugeriu que eu comprasse CDs do Gil e os revendesse nos shows. Eu vendia tudo. Vendia tanto que ainda voltei com dinheiro pro Brasil”, conta ela, que chegou a morar com o cantor e sua mulher no Rio e é tratada como filha por eles. A proximidade é tanta que em brincadeiras na família também baiana de Dorival Caymmi se dizia que a canção Marina, que ele compôs nos idos de 1946, era de Gil…

A aventura europeia ilustra bem o espírito empreendedor e um tanto cara de pau de Marina. Aos 35 anos, ela é uma das responsáveis pelo salto internacional dado por Anitta, tida hoje como a cantora brasileira mais bem-sucedida no exterior. Ficam a cargo de Marina desde ideias para clipes e figurinos até intermediações de grandes contratos publicitários. Sua lista de contatos estrelados também ajuda. A parceria musical de Anitta com Madonna, por exemplo, teve um empurrãozinho seu. “Eu sou amiga do Mert Alas (fotógrafo turco). Aí ele conheceu a Anitta, foi a shows dela e amou. Quando a Madonna, que é amiga dele, falou de uma ideia para um funk em português, ele se lembrou da Anitta!”, explica. A indicação de Mert rendeu o almejado dueto, que tem lançamento planejado para junho. “Quando a Madonna ligou para Anitta eu estava junto. A gente só gritava de felicidade”, contou ela à repórter Marcela Paes, na semana passada, em seu apartamento nos Jardins.
Além de Anitta, que toma a maior parte de seu tempo, Marina é uma das sócias fundadoras da MAP, agência que tem clientes como Chay Suede, Regina Casé e Bruno Mazzeo, entre outros. “Sabe aquele livro O Segredo? Às vezes eu acho que minha vida é assim! De tanto eu pensar em uma coisa, acaba acontecendo”. A seguir, os principais trechos da conversa.

Você trabalha com marcas há bastante tempo, e mais recentemente com agenciamento de artistas. Como foi o início da sua carreira?
Isso é engraçado, porque ninguém sabe exatamente o que eu faço. Com mais ou menos 20 anos eu vim pra São Paulo acompanhar a Preta (Gil). Ela ia começar um programa de TV e eu vim pra ser assistente. Só que não deu certo, tinha muita censura, não podia nem falar pentelho na TV. O programa acabou, a Preta voltou pro Rio e eu fiquei aqui.

Conseguiu outro trabalho?
Não! A Preta arrumou para eu trabalhar para o Marcos Buaiz (empresário), que estava abrindo uma boate, a Lótus. Não tinha uma função definida. Só que eu sempre fui muito boa para agregar gente, montar equipe…

Mas como você saiu desse ramo para a sua área?
Todo mundo ligava me pedindo contato. Um dia o Luís Lara, da agência Lew Lara, me ligou pedindo pra eu convencer a Gal Costa a fazer um comercial… Daí eu pensei que isso podia dar algum dinheiro, fazer esse intermédio entre artistas e agências. Depois eu intermediei um comercial com a Regina Casé e em seguida consegui fechar outra campanha com o Romário.

Era o que você almejava como carreira na época?
Eu sempre gostei muito de atender agência, atender cliente. Nessa época eu pedi pro Nisan (Guanaes), que eu conheço desde pequena, para me passar coisas da agência dele também. E ele só me dava bomba, coisas muito difíceis, tipo convencer a Lucinha Araújo a autorizar a mudança de uma letra do Cazuza para um comercial da Vivo… E eu gostava!

Como você começou a agenciar artistas?
Foi com a Anitta. Eu tinha resistência porque sabia o trabalho que artista dá. É normal, não estou falando que seja frescura, artista dá trabalho mesmo. Mas como eu já vinha acompanhando isso de perto, com a Preta e tudo mais, e tinha muitos amigos artistas, me parecia que ficar só com os clientes era melhor. Só que eu conheci a Anitta numa festa e a Amanda (Gomes), que é minha sócia, queria muito entrar nessa, ela dizia ‘essa menina vai virar’. A Anitta já tinha decidido que seria empresária dela mesma, mas queria delegar algumas coisas.

Demorou pra você se convencer a fazer essa transição?
Não. No dia seguinte a Anitta já me ligou falando sobre uma campanha da Coca-Cola e a gente começou.

Como foi esse início?
Ela ainda não tinha feito nenhuma campanha supergrande. Eu achava que faltava associá-la a marcas fortes, com credibilidade. Aí conseguimos fechar um comercial da Fiat para a internet. A Anitta é muito cria da internet. Tem um amigo nosso que sempre fala que Pelé nasceu na época do auge da televisão e a Anitta no nascimento das redes sociais.

E artisticamente?
Uma coisa levou a outra. A Anitta conheceu o Giovanni Bianco (diretor criativo) e se apaixonou por ele. Foi ele quem deu a ideia de fazer uma música chamada Bang e tal. Ela queria trabalhar com ele, fazer clip, mas não tinha dinheiro. Aí nós pegamos uma campanha de jeans e o dinheiro que entrava ia direto para pagar o Giovanni. E depois uma campanha com a Niely… Depois que Bang foi lançado virou uma loucura, mudou tudo. A Anitta é muito focada.

A identidade visual dela mudou muito nesse período. Ficou mais global e muito mais pop. Tem muita influência sua nessa mudança?
Sim. Teve insistência minha de que valia a pena pagar o Giovanni Bianco, por exemplo. Obviamente que ela reconhece o trabalho das pessoas, mas como ela não conhecia muita gente, ainda ficava na dúvida. Essa parte ficou muito comigo, essa coisa da imagem, de clips. Virei a ‘Marina dos clips’, entendeu?

Que ideias você deu nos clips?
A maioria das ideias vem dela, mas a gente vai afinando, vai discutindo, vai brigando até chegar no que é possível fazer (risos). No Vai Malandra, por exemplo, ela me disse que queria fazer um clip na favela. E eu pensei: “Caramba!” Imaginei que podíamos incorporar a Érika Bronze (conhecida por sua laje feita para bronzeamento e biquínis de fita isolante).

Foi nesse clip que aconteceu a polêmica das celulites da Anitta.
É. A gente brigou porque eu queria que apagasse as celulites e ela não, ela queria a coisa real.

Como foi crescer com a família de Gilberto Gil? Quando você foi morar com eles?
Minha mãe é madrinha de casamento deles. Gil e Flora passavam os verões em Salvador e eu ficava junto. Uma hora resolvi vir com eles pro Rio.

Como foi essa convivência?
Era incrível. Teve uma vez que Gil foi fazer uma daquelas turnês na Europa – 30 cidades em 33 dias. Eu nunca tinha ido para a Europa, meu sonho era ir a Paris e fui com eles. Imagina, né? Eu nunca tinha visto croissant na vida. Eu era gorda e comia um monte! O Gil até contava quantos croissants eu comia (risos). Eles pagaram tudo pra mim, a passagem e a estada. Mas eu queria dar um jeito de ganhar um dinheiro e a Flora sugeriu que eu comprasse CDs do Gil e os revendesse nos shows. Eu vendia tudo. Vendia tanto que ainda voltei com dinheiro pro Brasil.

Neste carnaval você trouxe o Major Lazer (dupla americana de música eletrônica) para se apresentar num trio gratuito pelas rua de Salvador. Como foi isso?
Foi inesquecível. Eu fiz o trio para o povo, aí eu os juntei com a Àttooxxá, que é um pagodão pesado lá de Salvador. O Diplo (da dupla)não tinha noção do que era. Queria que ele visse aquilo, que conhecesse o carnaval da Bahia também. Sabe, eu quero levar o Brasil para o resto do mundo.

Você conviveu a vida inteira com artistas porque sua mãe (Keka Oxóssi) era amiga deles. Ela influenciou muito?
Sim, ela sempre foi cercada de artistas. É muito carismática. Quem ia me buscar na escola muitas vezes era a Gal Costa porque eu tinha vergonha do carro do meu pai… Quando eu era pequena, ia na casa do Cazuza e ele colecionava sabonetes com formatos de bichinhos, de objetos, e deixava tudo num vidro. Eu adorava ir lá e roubar uns sabonetes do tio Cazuza (risos). Mas eu não sei se sou como ela porque as pessoas que não me conhecem me acham antipática, metida. Acham que a minha vida é o glamour do Instagram.

Os artistas são bastante cobrados por posicionamento hoje. O que você acha disso?
Entendo ambos os lados. Eu só acho que quando um artista resolve não se pronunciar, às vezes porque não tem conhecimento suficiente sobre o fato, ou não quer influenciar, as pessoas têm que aceitar. A cobrança fica pesada e às vezes muitos artistas ficam com medo de falar o que pensam.

Mas você é uma pessoa muito bem conectada…
Às vezes isso ajuda mesmo. Eu sou amiga do Mert Alas (fotógrafo turco). Aí ele conheceu a Anitta, foi a shows dela e amou. Quando a Madonna, que é amiga dele, falou de uma ideia para um funk, ele se lembrou da Anitta. Quando a Madonna ligou para Anitta eu estava junto. A gente só gritava de felicidade. Eu sou muito fã dela. Sabe aquele livro O Segredo? Às vezes eu acho que minha vida é assim! De tanto eu pensar em uma coisa, acaba acontecendo.

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