Marina Lima ganha documentário de ex-namorado

Marina Lima ganha documentário de ex-namorado

Sonia Racy

16 de setembro de 2019 | 00h40

MARINA LIMA, CANTORA. FOTO: CANDÉ SALLES

Aos 64 anos, a cantora carioca — que se diz
‘mais chegada
ao universo feminino’ — fala de seu
envolvimento com amigas e amigos, do amor
pelo Ri0, da censura de Crivella e do
documentário
sobre ela, que o ex-namorado lança neste terça

Foram quase dez anos de gravação, reunindo material para o documentário ‘Uma Garota Chamada Marina’, sobre a vida de Marina Lima, um presente de seu grande amigo e ex-namorado Candé Salles (ver o quadro abaixo). O filme será exibido, pela primeira vez, em sessão especial, nesta terça-feira – quando a cantora completa seus 64 anos – no Centro Cultural São Paulo. Outra sessão especial acontece no Rio, dia 18 de outubro, no Festival Cine Out Jazz – e a estreia oficial será pouco depois, no Canal Curta!.

“Eu e o Candé somos muito ligados, ele é como família para mim. Quando namoramos, ele veio morar comigo e, como ele está sempre com uma câmera na mão, começou a me filmar. Não tenho o menor pudor com ele, fico muito à vontade”, contou Marina por telefone à repórter Sofia Patsch, de Araras, no interior paulista – onde está curtindo férias na casa de um amigo.

A história que corre, de que Marina é homossexual assumida, não a representa totalmente. “Sou quem sou, mas às vezes também mudo”, explica, acrescentando: “Sou mais chegada no universo feminino, me relaciono mais com mulheres, mas volta e meia conheço um homem que me deixa de quatro”. Não é de se estranhar, diante disso, que Marina tenha três grandes amigos – e todos são homens.

Mas ela já teve uma grande amiga, Fernanda Young – por sinal, ela é madrinha de uma das filhas de Fernanda, Cecilia Madonna. As duas não se falavam há anos. “O mais triste é saber que ela não devia ter ido agora, estava com o maior gás. Não era assim que ela queria ir, ela queria fazer muita coisa ainda. Fiquei morrendo de pena dela”, disse sobre a morte precoce da roteirista.

Ícone do Rio de Janeiro, a cantora carioca, que se mudou há dez anos para SP, disse que o Rio está precisando de pessoas como o youtuber Felipe Neto, que rotula como “genial” – ele imprimiu e distribuiu exemplares da história em quadrinhos que continham foto de um beijo entre dois personagens masculinos que o prefeito Marcelo Crivella tentou censurar na última Bienal do Livro do Rio. “Precisamos de pessoas com ideias para rebater e a internet é muito importante nesse ponto, porque agrega muita gente.” A seguir, os principais trechos da conversa da cantora com a coluna.

Foram quase dez anos de gravação para surgir Uma Garota Chamada Marina. Como tudo começou?

Eu e o Candé somos muito ligados. Ele é como família, um grande amigo. Há uns 10 anos nós namoramos e ele veio morar um tempo comigo no Rio, então a gente criou muita intimidade. Como está sempre com uma câmera na mão, ele começou a me filmar. Não tenho o menor pudor com ele, fico muito à vontade. O Candé me conhece muito bem. Ele foi captando e filmando todo o meu movimento de mudança do Rio para SP, em 2010, é assim que o documentário começa, do nada (risos).

Quem assistir vai conhecer uma Marina que as pessoas ainda não imaginam?

Com certeza. É muita intimidade ali. Acho que me coloco bem socialmente, a Marina que as pessoas conhecem sou eu mesma, mas esse nível de intimidade, de conviver com a minha rotina, me pegar dando um mergulho, esse tipo de coisa é raro de aparecer. O filme vai trazer muita surpresa. Não estou falando isso pra instigar não, é porque não sei descrever de outra maneira, é melhor o Candé falar do que eu, o filme é dele, ele que dirigiu. Eu sou somente o objeto estudado.

Você se enxergou na forma como foi retratada no filme?

Muito. Quem me conhece sabe que adoro rir. O bom humor é muito importante, a disposição é o que muda tudo. Problemas existem o tempo todo, então, se não tiver uma disposição proativa pra resolver, uma atitude positiva, vira um inferno, tudo acaba dando errado. Sou positiva e leve na forma de encarar a vida, sou assim há muito tempo. Desde que tive depressão, em 1998, mudei a forma de enxergar a vida. O filme mostra bem esse meu lado bem humorado.

É homossexual assumida, mas teve um relacionamento com o Candé. Como foi isso?

Isso é engraçado. Há um tempo atrás dei uma entrevista na qual falei um monte de coisa e tal e a manchete saiu: Marina Lima, assumidamente lésbica desde não sei quando… Eu ri. Sou quem sou. Ás vezes também mudo. Sou mais chegada ao universo feminino, no sentido de me relacionar mais com mulheres, mas volta e meia conheço um homem que me deixa de quatro. E o Candé foi um cara com quem eu fiquei muito unida e acabei namorando. Depois, nós descobrimos que a gente devia mesmo é ser amigo. Mas foi muito profundo o que tivemos.

O filme conta com depoimentos de seus amigos?

Tenho três grandes amigos na minha vida. O Candé, o Cao Albuquerque e o Fernando Muniz – e, por sinal, é na casa dele que estou de férias neste momento, em Araras. Preciso deles por perto. Eles me ajudam a descansar. Os três estão presentes no filme.

Tem grandes amigas mulheres?

Não. Tenho amigas, são mulheres das quais eu gosto, que quero muito bem, mas não convivo muito com elas.

Mas você foi muito amiga da Fernanda Young, não?

Fui. Sou madrinha da filha dela, a Cecilia Madonna.

Estavam sem se falar há algum tempo antes de ela morrer…

Estávamos. A Fernanda era uma mulher talentosíssima, única no mundo, eu a conheci antes até de ela escrever ‘Os Normais’. Fiquei amiga da família dela, amo a Rena

ta, sua irmã. Nós nunca brigamos, só me afastei dela.

Teve algo que motivou esse afastamento ou foi natural?

Teve um momento em que a Fernanda foi pra um outro lugar, de televisão, e ficamos muito diferentes, sabe? Achamos melhor nos afastar. Porque tenho o meu jeito, ela tem o dela, e eles estavam se cruzando. Fui fazer o ‘Saia Justa’ – ela fazia o programa, era o lugar dela. Aliás, eu nunca deveria ter feito aquele programa.

Por quê?

Não sou muito de ficar falando, todo mundo falava muito lá e eu ficava quieta. Não gosto de dar minha opinião por qualquer coisa, não sou tão original. Sou original com coisas que me interessam. Mas a Fernanda sempre teve um lugar muito querido. Não podia imaginar nunca que isso fosse ocorrer agora. Levei uma sacudida. Não tive nem tempo de me encontrar com ela.

Isso deve ter sido o mais doloroso. Não se despedir.

Não, o pior é saber que ela não devia ter ido agora, estava com o maior gás. Não era assim que ela queria ir, queria fazer muita coisa ainda. Fiquei morrendo de pena.

O que achou do episódio da Bienal do Livro do Rio, em que o prefeito Marcelo Crivella censurou uma história em quadrinhos que mostra dois personagens masculinos se beijando?

Olha, como carioca acho que o Rio tá ferrado, porque o Crivella só pensa em guerra civil. Mas o Rio tem seu lado encantador, de se andar a pé de sandália, ir à praia. Tenho um contato com a minha cidade. Temos pessoas como o Felipe Neto, que foi genial (ao redistribuir milhares de exemplares da HQ censurada). O Crivella tentou barrar e o pegaram. O Rio está precisando de pessoas assim, que tenham ideias, e a internet é muito importante nesse ponto, porque agrega facilmente muita gente.

Para encerrar e você ir curtir suas férias. Nesses 64 anos bem vividos, você mudaria algo na sua trajetória ou está feliz com ela?

A única coisa com que perdi tempo demais foi com a depressão. Porque é um negócio tão mais simples, não vale a pena. Ou não ter passado ou ter passado mais rápido.

‘NOS ANOS 80 ELA CAUSAVA,
GENTE
’, DIZ DIRETOR

CANDÉ SALLES. FOTO: MARCELO BOLDRINI

Marina diz que Candé Salles pode falar melhor do filme que ela. “Servi de objeto de estudo do Candé por dez anos. Foi muito legal, temos muita intimidade”, disse. “Ela diz isso, mas o curioso é que Marina tem 22 ou 23 discos lançados e só um DVD”, replica o diretor e ex-namorado – fato que o levou a providenciar esse material em vídeo. Confira a seguir a conversa com Candé sobre Uma Garota Chamada Marina.

São dez anos de gravação. Como tudo começou?
Nós namorávamos e fui morar com ela na Lagoa. Nessa época ela estava com uns 50 e poucos anos e muito inquieta com o Rio, insatisfeita com a cidade. Achei isso curioso, porque o Rio sempre foi o berço de todos seus sucessos, ela começou um processo de mudança para São Paulo, estava ensaiando um show com direção do Isay Weinfeld, que é um cara adorável. Observei todo esse movimento e falei: “Opa! Aí tem muita coisa.”

Em um depoimento que aparece no filme, Cao Albuquerque diz que Marina é muito mais que uma cantora. Ela fez muita gente gozar. O que ele quis dizer com essa frase?
Ela fala uma coisa que é muito bonita, que a música tem a capacidade de afagar e eternizar momentos e pessoas. O Cao diz que ela, como compositora, tem uma canetada boa pra isso. Acho que foi isso que ele procurou expressar, que não há uma pessoa que não tenha tido alguma boa recordação enquanto tocava uma música dela. Imagina, nos anos 80 ela causava, gente…

Quais os momentos que acha os mais curiosos do filme?
Adoro a história sobre quando ela posou para a revista Playboy aos 45 anos.

O que aconteceu então?
Ela foi posar nua porque estava sem grana, estava sem cantar há uns anos, tinha cancelado uma turnê de 60 shows. Aí, durante uma sessão de análise, o analista dela falou: “Posa nua, Marina” e ela retrucou: “Mas doutor, como assim? Como é que eu vou explicar para as pessoas que vou posar nua?” Aí o terapeuta dela descobriu uma boa solução: “Fala a quem perguntar que foi prescrição médica” (risos). Essa é a Marina.

Deve ter dado um trabalhão editar dez anos de material. Você gravou desde VHS até celular. Como foi organizar tudo isso?
Minha produtora Letícia Monte e o Lula Buarque de Holanda, que formam um casal maravilhoso (donos da Espiral Filmes), entraram nessa onda de me ajudar a organizar tudo e a fazer esse conjunto de memórias virar um filme.

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