‘Mais do que construir vilãs ou heroínas, construo personagens’

‘Mais do que construir vilãs ou heroínas, construo personagens’

Sonia Racy

09 Março 2015 | 01h00

Foto: Alex Carvalho/Globo

Prestes a estrear em Babilônia, nova novela das nove, atriz fala sobre seu processo criativo, mulheres no meio artístico e seu papel no folhetim, na pele da invejosa Inês.

Se há três anos Adriana Esteves arrebatava o País com sua Carminha, em Avenida Brasil, agora o público está ansioso para conhecer Inês. Trata-se de sua personagem em Babilônia, novela que estreia dia 16, na Globo. “Nesse período, ainda pensei muito em Avenida Brasil, claro. Dei muitas entrevistas fora do País, sobre a novela, sobre a personagem. Mas a Inês é um papel tão trabalhoso, que me exige tanto, e tão rico também, que posso te dizer, agora, que eu me livrei da Carminha. (risos) Porque a Inês ocupou o lugar, e no meu coração não tem espaço para as duas”, diz a atriz, bem-humorada, em entrevista à coluna.

Avessa aos estereótipos e títulos de vilãs e mocinhas, a atriz acredita que o mais importante é a construção de personagens interessantes. Para isso, é conhecida por mergulhar intensamente em suas pesquisas. No caso de Inês, o fio condutor é a inveja, sentimento que a atriz acredita ser 100% humano, mas muito difícil de se admitir. “É um tema riquíssimo”, diz. “Ainda mais porque ela não é uma pessoa que sente inveja do mundo, mas de uma pessoa específica”, completa.

Uma das atrizes mais prestigiadas de sua geração, Adriana demonstra grande entusiasmo e paixão pela profissão. Indagada sobre os maiores desafios para as mulheres na área, fica reticente ao falar da questão da idade: “Procuro não compactuar com isso. Percebi que minha profissão também valoriza a experiência, e existem grandes personagens para mulheres mais velhas”, afirma, completando com um grande elogio às colegas: “Sou uma atriz muito encantada com as outras atrizes. Com as mulheres. Realmente admiro e me espelho. Tenho orgulho de ter o mesmo ofício delas. Olho para a frente e vejo um caminho que eu quero pra mim, um caminho que quero traçar”. Sobre o discurso de Patricia Arquette, no Oscar, em que a atriz americana defendeu igualdade entre homens e mulheres, Adriana acredita que já há grandes avanços também na área financeira. No entanto, não deixa de fazer coro à causa: “Acho um absurdo o salário de um homem, em qualquer profissão, ser maior do que o de uma mulher apenas porque ele é homem. Isso é inadmissível”.

A seguir, os melhores trechos da entrevista.

Inês, sua personagem, lida com sentimentos difíceis, como inveja e ressentimento. Como foi sua pesquisa?

São sentimentos difíceis, mas, ao mesmo tempo, é instigante tocar nesse assunto, pesquisar um tema que não é muito falado. A inveja é um sentimento que ninguém admite. E existe um material riquíssimo para se pesquisar, inclusive na dramaturgia. Então, é muito interessante receber a proposta de uma personagem que claramente é movida pela inveja. E mais: ela não é uma pessoa que tem ódio do mundo ou inveja do mundo. Ela é objetiva em relação àquela personagem ali, que se chama Beatriz, feita pela Gloria Pires.

Concorda que a inveja é um sentimento humano que todo mundo sente? Acha que é mais comum esse tipo de situação acontecer entre mulheres ou elas são apenas mais explícitas?

Sim. É super humano. Na minha pesquisa, percebi que realmente a mulher sente mais. O homem, quando deseja, por exemplo, o cargo de um outro, ele não tem subterfúgios, não escamoteia. Ele vai lá e faz uma determinada coisa para conseguir aquele cargo. Acho que, na mulher, fica tudo meio velado, sofrido e, às vezes, isso se esconde em uma certa falsidade. Ela tenta fazer um teatro, demonstrando que é grande amiga, mas não é tanto. E o homem, nesse sentido, seria mais sincero, mais verdadeiro. Isso não sou eu que acho, estou baseada em pesquisas que fiz. Alguns desses livros, como A Cabala da Inveja, do Nilton Bonder, eu comprei pensando na personagem e, no fim, o livro está fazendo bem para a minha vida. (risos) Sou uma pessoa melhor.

Não acha que exista um mito de que as mulheres são menos leais às outras mulheres?

Não, não acho. Claro que não sou a mais estudiosa sobre o assunto, mas acho que faz sentido, nesse caso, a mulher e o homem serem um pouco diferentes. O motivo real – se a diferença está no sexo ou não – eu não sei dizer. Mas, nessa questão da inveja, minha pesquisa é tão explícita… A mulher sofre mais, tem mais inveja do que o homem.

Acredita que falar sobre inveja é um tabu? Que as redes sociais contribuem para que a inveja aumente, já que as pessoas postam tudo o tempo todo?

Sim. É um tabu, mas até para os nossos filhos seria muito agradável poder conversar sobre esse assunto. Pode ser essa coisa das redes sociais, sim. Eu não tenho, mas observo. Acontece isso um pouco com a Inês. Vocês verão.

A Inês é uma vilã, né?

Não gosto de falar vilã ou não vilã. Porque eu construo personagens, não construo vilãs. Assim como também não construo heroínas. Eu construo mulheres. Porque tanto a vilã quanto a heroína podem ser vítimas de determinada situação. Então, dependendo da ótica, ela é até meio heroína por conseguir sobreviver a determinada pressão. Mas, realmente, a Inês não é uma mocinha ingênua e injustiçada. Não é. Definitivamente, não é.

Você acha que esse é um dos motivos pelos quais a Carminha teve o apelo que teve?

Ainda bem, porque não me imagino construindo estereótipos. Não gosto, não é assim que eu trabalho. Acho que foi uma personagem muito bem escrita pelo João Emanuel (Carneiro, autor de ‘Avenida Brasil’). Acho que as pessoas se interessaram pela história dela, pelo que ela sentia.

Você a abandonou completamente? Foi fácil exorcizar a Carminha? Como é que está sendo essa volta para a telenovela?

Não vou te dizer que foi fácil, não. Fiz dois filmes, fiz a minissérie do Fernando Meirelles, Felizes Para Sempre?. Foram trabalhos menores, no sentido de duração, não podem ser comparados com uma novela de oito meses. Nem foi um projeto de teatro, em que eu ficasse em cartaz por dois, três anos, como já aconteceu. Foram situações bem interessantes, bonitas, ricas. Nesse período, eu ainda pensei muito em Avenida Brasil, claro. Dei muitas entrevistas fora do País, sobre a novela e a personagem. Mas a Inês, agora, é uma personagem tão trabalhosa, que me exige tanto, e tão rica também, que eu posso te dizer: me livrei da Carminha. (risos) A Inês ocupou o lugar, meu coração não tem espaço para as duas.

Duas poderosas.

É isso. Teve de sair a Carminha para que pudesse entrar a Inês. Agora, meu coração é da Inês.

Você é uma pessoa superdiscreta. Hoje em dia, as pessoas usam redes sociais, Twitter, Instagram, essas coisas. Acha que isso ajuda na exposição?

Cada um tem uma natureza. Eu não comporto, não comportaria isso. Não consigo ter, não tenho Facebook. Na verdade, nunca tentei, nunca me interessou. Não tenho Instagram também. Minha rede social é o WhatsApp. Tenho os grupinhos dos amigos próximos, a gente se fala. Mas não consigo ter perfil em outras redes sociais. Seria invasivo pra mim.

Acha que sua discrição contribui para dar mais espaço à personagem, para que ela possa ganhar vida? Você não tem Twitter, mas a Carminha tinha.

Se eu, propositalmente, deixasse de me expor, de me divertir, para fazer isso, talvez não surtisse esse efeito. Mas, como é a minha verdade, acho que sim. Porque a gente luta tanto para um personagem ficar crível, para as pessoas acreditarem que ele existe… Tenho a sensação de que, se eu ficar o tempo inteiro me expondo, minha vida pessoal ou o que eu estou falando e pensando, fica mais difícil. Acho divertida a brincadeira. Durante o período em que aquele personagem está sendo apresentado, o ator ou a atriz dá uma sumida. Acho que faz parte, ajuda a tornar crível o personagem. Agora, também não sei se eu inventei isso para me proteger, porque gosto mesmo de me proteger.(risos)

Mas você se sente invadida? Acha que existe uma onda de supervalorização das celebridades, provocada pelas redes sociais?

Algumas pessoas talvez consigam ser mais fortes do que eu nesse ponto. Não julgo que usar as redes sociais seja uma coisa errada, nociva. É que realmente não conseguiria. Para educar meus filhos, por exemplo, de maneira nenhuma é proibido ou aconselhável que não tenham acesso às redes, mas a gente procura, aqui em casa, conversar com eles sobre a responsabilidade que você tem de ter para participar de uma rede social. Eles acabam sendo cobrados, existe uma responsabilidade nisso. Pensando por esse lado, é muito bom você ter a consequência do que está fazendo.

Eles são expostos muito cedo.

Sim, muito. Acho inacreditável que meu filho de 8 anos, desde os 6 já estava perguntando se podia ter Instagram. É quase inacreditável.

Você disse, em entrevista, que tinha se entregado totalmente à Carminha. E que, após a novela, daria 100% de atenção a seus filhos. Está entregue assim à Inês também?

Estou. Já tomei até uma “chamada” do meu pequeno, que falou: “Mãe, mas mal começou…”. (risos). Eu gosto muito de estar assim e tento organizar a minha vida de uma forma que possa conciliar com a família. Quem fica mais sem mim são meus amigos, os colegas, porque, no núcleo familiar – meus filhos e o Vladi (Vladimir Brichta, marido de Adriana) – damos um jeito.

Qual o maior desafio hoje para uma atriz no Brasil? Concorda com o discurso que Patricia Arquette fez no Oscar?

Imaginei que você fosse me perguntar isso. Os desafios foram se transformando. Há muitos anos, a atriz não era tão respeitada como mulher. Hoje em dia, isso mudou, Atualmente, uma atriz é respeitada, admirada, tem ótimos personagens. Eu poderia dizer que a maior dificuldade talvez fosse a idade. Porque o homem vai ficando mais velho e, teoricamente, vai ficando mais seguro, mais bonito. Mas procuro também não compactuar com isso. Percebi que minha profissão também valoriza a experiência e existem grandes personagens para mulheres mais velhas.

Mesmo nesta novela?

Muitas. Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro, por exemplo. Posso falar de muitas mulheres da minha idade, mais velhas, de todas: Renata Sorrah, Regina Duarte, Natália do Vale. Sou uma atriz muito encantada com as outras atrizes, com as colegas, com as mulheres. Realmente admiro e me espelho. Em me orgulho de ter o mesmo ofício delas. Olho para a frente e vejo um caminho que quero para mim, um caminho que eu quero traçar.

Sente que isso melhorou o mercado para as mulheres?

Sim. Gostaria até de conversar com elas também sobre o assunto, para saber se estou muito otimista, mas acho que melhorou. Até a questão financeira. Eu ficaria bastante chateada de saber que alguém com o mesmo cargo que eu, alguém com o mesmo tempo de profissão, por ser homem, estivesse com o valor acima do meu. Claro que ficaria. Mas, na nossa profissão, é tudo tão subjetivo. Esse assunto quase não é comentado, então, acaba nem chegando ao nosso conhecimento. Mas acho um absurdo o salário de um homem, em qualquer profissão, ser maior do que o da mulher. É inadmissível. /MARILIA NEUSTEIN