‘Lula nos cobra tudo, todo dia’

‘Lula nos cobra tudo, todo dia’

Redação

04 de maio de 2009 | 07h47

O ministro Orlando Silva conta sua luta pela Copa, a Olimpíada e por recursos.

Orlando Silva é um homem de sorte. Em 1992, no auge do movimento Fora Collor, entrou na direção da UNE. E herdou do “camarada” Lindberg Farias, então no PCdoB, a presidência da entidade no seu melhor momento. Em 2006 foi o nome escolhido na cota de seu partido para assumir o Ministério dos Esportes, até então o patinho feio da Esplanada. Menos de um ano depois, a Fifa escolheu o Brasil para sede da Copa de 2014, o Rio de Janeiro abrigou os Jogos Pan-Americanos e o Rio entrou na lista de candidatos a receber as Olimpíadas.

Aos 37 anos, Orlando é o ministro mais jovem do governo Lula e o segundo mais novo da história, só perdendo para Antonio Cabrera, que foi ministro da Agricultura de Collor com 29. Célebre também pelo escândalo da tapioca, o primeiro da safra dos cartões corporativos, ele mostra que aprendeu com o episódio. “O poder tem seus encantos e quem não toma cuidado corre o risco de se deixar levar por eles.”

Tem havido muita pressão das cidades que querem receber a Copa? A pressão é imensa. Os Estados que disputam marcam homem a homem, sob pressão. Mas eu levo muito a sério uma determinação expressa que me deu o presidente: ficar fora dessa briga. A decisão é técnica e é da Fifa. Rezo todo dia para chegar logo o final de maio, quando serão definidas as cidades, para acabar essa pressão.

O que acha do Dunga como técnico? Uma revelação como treinador. Vai classificar o Brasil para a Copa da África.

Valeu a pena ter feito o Pan? A operação do Pan mobilizou a economia do País. Foi feito um estudo sobre o impacto econômico daqueles Jogos e descobrimos que metade da receita foi gerada fora do Estado do Rio.

Muitos atletas reclamam que o ‘legado’ do Pan está sendo mal utilizado, até foi abandonado. É o caso das piscinas do Maria Lenk…Podemos usar melhor as instalações do Pan. O COB assumiu a gestão do Maria Lenk e do Velódromo. O que não falta é gente interessada e necessidade, no Brasil e na América do Sul.

Quais as suas pretensões políticas em 2010? Não existe honra maior, para alguém que desde 1989 faz campanha para o Lula, do que ser seu ministro. Lula será meu conselheiro em 2010. Prefiro não pensar nisso agora. Sou novo, tenho 37 anos.

Existem chances reais de o Rio ganhar a briga pelas Olimpíadas? Claro. O Brasil está na moda. Barack Obama já falou que o presidente Lula é o cara. Eu torci muito para que ele dissesse também: ‘E o Rio é a cidade’. Ganha o Rio e ganha o Brasil.

Pratica esporte? Menos do que devia. Quando mais jovem, vivia jogando futebol. Hoje com muito esforço consigo fazer uma caminhada no Ibirapuera ou andar de bicicleta com minha filha, nos arredores de Vila Mariana, onde moro.

Os parlamentares estão sendo duramente criticados por utilizar recursos públicos como se fossem privilégios pessoais. Como você, que chegou a ser envolvido, no episódio da tapioca, faz para não cruzar essa linha? Não me incomodo com a cobrança. Afinal, ninguém é obrigado a ter vida pública. A saída é manter a vida privada como era antes de se tornar homem público. O poder tem seus encantos e quem não toma cuidado corre o risco de se deixar levar por eles. A casa em que moro é a mesma em que morava antes de ser ministro. Na média, mantenho os mesmo hábitos. De vez em quando é sempre bom andar de transporte coletivo. No meu caso é necessário porque nem sequer sei dirigir (risos).

É famoso? Dá autógrafos? Ás vezes pedem para tirar foto comigo. Aliás, na semana passada tive de andar menos na rua em São Paulo, porque ficava todo mundo me pedindo ingresso para o jogo do Corinthians.

Sua mulher, Ana Cristina Petta, é atriz de teatro e TV. Você sente ciúme quando a vê em cena beijando alguém? Já a vi seminua em uma peça. Achei bonito. Aliás, acho ela muito bonita. Já a vi beijar também… É normal. Isso faz parte do trabalho dela.

É verdade que você convidou o Lula para uma roda de samba ? A vida em Brasília é muito estressada, especialmente terça, quarta e quinta. Nas terças, depois do expediente, sempre que dá vou a uma roda de samba. Aí saíram notinhas em jornal a respeito. Achei que poderia pegar mal. E perguntei: ‘Presidente, de vez em quando vou a um samba aqui em Brasília. Você acha que é complicado para um ministro?’. Ele respondeu: ‘Só não vou te acompanhar porque não tenho idade e criaria muito tumulto’.

Com que frequência o presidente lhe cobra sobre Copa e Olimpíadas? Ele nos cobra tudo todo dia. É muito rigoroso, detalhista e tem uma memória fabulosa.

O projeto Empresário Amigo do Esporte, chamado de “Lei de Rouanet” dos esportistas, levou a uma cisão entre artistas e esportistas? Por 40 anos o esporte tentou e não conseguiu um projeto assim: 100% do que for investido pode ser deduzido do IR. Em 16 meses de vigência, arrecadamos uns R$ 140 milhões. Estou fazendo uma cruzada. Fui até a Comandatuba… Essa animosidade entre esportistas e artistas é uma coisa já superada. O processo legislativo acabou separando o dinheiro da cultura do dinheiro do esporte.

Você foi criticado por fechar grandes convênios com ONGs ligadas ao seu partido, o PC do B. O que tem a dizer sobre isso? Tem uma ONG chamada Bola Pra Frente, da ex-jogadora de basquete Karina. Eles têm um trabalho maravilhoso, em 15 cidades. Essa parceria tem desdobramentos com as prefeituras, com um lastro institucional muito grande. A Receita Federal, por exemplo, doa brinquedos apreendidos para eles. Claro que o fato de ela ser filiada ao PCdoB dá lugar a especulação política. O TCU e a CGU auditaram esse trabalho. Vejo com naturalidade essas coisas que saem na imprensa.

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