Los chicos latinos

Sonia Racy

21 de abril de 2015 | 01h20

O céu azul, a praia, o mar e coqueiros foram inútil paisagem para os quase 400 empresários e políticos reunidos por João Doria em seu Fórum de Comandatuba. Além do debate político à tarde, um quarteto de ex-presidentes, FHC à frente, foi convocado para falar sobre a América Latina durante a manhã de domingo. Com o mexicano Vicente Fox, o boliviano Jorge Quiroga e o uruguaio Luis Alberto Lacalle, o brasileiro regeu um debate quente, que teve de tudo – política, economia, memórias, ironias e protestos contra o autoritarismo. Contrabalançado por um grand finale sério, em que os quatro, perfilados em pé, anunciaram um manifesto conjunto, formal, de “repúdio ao arbítrio da Venezuela”, pelos abusos que ali se cometem contra a oposição.

FHC era todo memórias. Lembrou-se do tempo das Diretas Já, cuja “autoria” atribuiu a Franco Montoro, “um líder muito mais teimoso que o Mário Covas”. Na diplomacia, lembrou uma conversa com o alemão Helmut Kohl, em que este o aconselhou a “dar o tom” na América do Sul, como ele dava na Europa. “Ele dizia isso porque não conhece a Argentina”, ponderou para a plateia, despertando gargalhadas. E foi em frente contando que, anos depois ele ouviu Hugo Chávez reclamando de George Bush e citando Montesquieu. De novo, FHC refugou: “Para quê ler Montesquieu a esta altura da vida?”. O boliviano Jorge Quiroga, em seguida, roubou a cena com suas metáforas e senso de humor. Falou de Neymar, Messi e Suárez no Barcelona, recitou o time brasileiro inteirinho campeão em 1970 e disse que o desafio do continente é o trio “Chi, Sha e Chá”. A China, o shale gas (gás de xisto) e Chávez. E sobre o sucesso do xisto dos EUA, fez uma previsão: “Em breve vamos ver o vampiro norte-americano exportar sangue”. Também resumiu em “quatro pês” a política da Bolívia: “personas, programas, partido y plata”. Sobre a Venezuela, foi didático: “Imaginem aqui no Brasil a Dilma chamar o José Eduardo Cardozo, da Justiça, e mandá-lo prender o Aécio!”

Depois que a plateia o aplaudiu de pé, coube ao mexicano Fox elogiar a tecnologia que ajudou a recuperar o seu país. E foi fundo: “Já pensaram se Platão ou Einstein tivessem à mão um smartphone podendo saber tudo sobre qualquer coisa? Hoje todo mundo tem isso.” O uruguaio Lacalle dedicou-se a desmontar os discursos ideológicos da região citando o chinês Deng Xiaoping: “Não me importa se o gato é preto ou branco, desde que mate os ratos.” Ou seja, o que interessa é o comércio.

As drogas entraram na pauta. “Epa, agora mexeram comigo”, animou-se FHC, que defende a descriminalização de sua venda. O assunto se estendeu por quase uma hora e Lacalle surpreendeu a todos ao mencionar uma lei no Uruguai que pretendia entregar o controle dessas vendas ao Exército. GABRIEL MANZANO VIAJOU A CONVITE DO LIDE

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