Livro relata primeiros passos da ciência no Brasil

Livro relata primeiros passos da ciência no Brasil

Sonia Racy

09 de julho de 2019 | 00h40

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LORELEY KURY / FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Nos idos de 1789, quando a Revolução Francesa derrubava a monarquia na Europa, um dos 20 mil habitantes de São Paulo era um astrônomo português, Francisco de Oliveira Barboza, que aqui chegou a mando de Lisboa para ajudar a demarcar limites do Tratado de Santo Ildefonso, assinado com a Espanha. Foi ele, ao que tudo indica, o provável primeiro cientista da cidade – que então preparou a Táboa Perpétua do Princípio e Fim do Crespúsculo e da Saída do Sol para a Cidade de São Paulo (foto acima). Na prática, um registro, dia a dia, da hora exata do amanhecer e pôr do sol paulistano. É um material precioso, como tantos outros de Cadernos de Viagens, livro que Lorelay Cury organizou e que o Andrea Jakobsson Estúdio Editorial lançou, com 36 relatos de viajantes que andaram e viveram fazendo ciência no Brasil desde o século 18.

Entre esses 36, figuras como Charles Darwin, o botânico Saint-Hilaire, a bióloga Bertha Lutz, o engenheiro (e barão) Guilherme de Capanema e a famosa dupla von Spix e von Martius – que saiu do Rio registrando de tudo e foi parar na Amazônia. “Chegamos a esses autores a partir de uma enquete que fiz em nosso universo, extremamente reduzido, de historiadores de ciência”, diz a organizadora. “Foram anos de pesquisa”. Ela sabia de outros viajantes importantes da época mas fez sua escolha “pelo ineditismo e pela representatividade” – descartando quem já tivesse seu trabalho divulgado.

As 224 páginas alternam ilustrações raras da flora e da fauna brasileiras, mapas dos lugares por onde esses autores estiveram e preciosas fotos das páginas onde eles escreviam sobre o resultado de suas andanças. Borboletas, abelhas, tatus, flores e folhas de incontável variedade se sucedem no Caderno. “Mais do que beleza”, ressalta Lorelei, “o que desperta emoção são as marcas transpostas para o papel. Manchas, mofos, rasgões, páginas corroídas, falta de tinta e aproveitamento de cantinhos de páginas deixam evidente o percurso do documento no tempo.”

A contextualização de cada autor com sua contribuição é preciosa. Darwin, na famosa viagem do Beagle – relata o texto – aportou em Fernando de Noronha, Salvador, Abrolhos e Rio, onde ficou por três meses. O cientista passeou pela região e disse a respeito: “Nunca retornei dessas excursões com as mãos abanando”. Outro exemplo foi John Christopher Willis, que dirigiu o Jardim Botânico do Rio entre 1912 e 1915 e mantinha correspondência com o colega suíço Jacques Huber, então diretor do Museu Goeldi, em Belém do Pará.

Tem destaque, no grupo, a cientista brasileira Bertha Lutz, filha de Adolpho Lutz, que começou a carreira ajudando o pai, estudando anfíbios e dividiu seu tempo entre a ciência e a luta pelos direitos políticos das mulheres. Foi a segunda servidora pública da história do País. Para conferir drama à sua história, vale dizer que algumas imagens de Bertha, obtidas no seu diário, foram destruídas no incêndio do Museu Nacional em setembro passado – mas, fotografadas pela equipe, sobrevivem no Caderno. / GABRIEL MANZANO

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