‘LIVRO É UM VÍCIO INACREDITÁVEL’

‘LIVRO É UM VÍCIO INACREDITÁVEL’

Sonia Racy

10 Julho 2012 | 11h03

Em tempos de Flip,  Luciana Villas-Boas critica a falta de investimentos em educação no Brasil, fala sobre literatura de qualidade e explica como é sua rotina após quase duas décadas de trabalho na Record

A carioca Luciana Villas-Boas gosta de um desafio. Depois de 17 anos “certinha, assalariada e vivendo num lugar só”, resolveu mudar de vida. Objetivo? Transformar o mercado editorial brasileiro – que, segundo ela, ainda trata melhor os autores estrangeiros e precisa ganhar terreno lá fora.

No começo deste ano, Luciana encarou mais um desafio: criou a Villas-Boas & Moss Literary Agency & Consultancy. “A toda hora preciso explicar o que faz um agente literário, prova de como estamos atrasados.” Na carteira, 26 autores (23 brasileiros) e listas de algumas das maiores editoras internacionais. E, claro, muita vontade de trabalhar.
Workaholic assumida, ela tem três casas – no Rio, em Atlanta e em Nova York. Por isso, está sempre em movimento. Mãe de Miguel e Maria Isabel (leitores vorazes) e passando mais tempo fora do País do que por aqui, Luciana conversou com a coluna entre um compromisso e outro, pelo telefone de seu endereço carioca.

Entre as principais queixas, a de que nada foi feito nos últimos anos pela educação brasileira, complicando a vida de quem, como ela, vive dos livros e da cultura. Como boa historiadora, Luciana ainda tem esperança. A seguir, trechos da entrevista.

Como foi que você se viu no mundo dos livros?

Livro é um vício inacreditável. O Roberto Feith (da Objetiva) é um exemplo perfeito. Era jornalista e largou tudo para ser livreiro. Meu último cargo no JB foi editora do caderno Ideias. Eu conversava muito com os editores, que eram minhas fontes. Um dia, o Sergio Machado me falou: “Se você quiser mudar de lado do balcão, me avisa”. Eu recebi uma proposta de outro editor e fui me despedir de todo mundo. Aí, o Sergio me cobrou – eu não tinha levado a sério. Ele fez uma proposta muito boa e acabei indo para a Record.

Como foi esse desafio?

Desde o começo, era diretora editorial, mas a empresa era muito menor. O desafio era reposicionar a Record, melhorar o catálogo de livros e aproximá-la um pouco mais da imprensa.

Em que momento você começou a pensar em sair?

Fazia uns cinco anos que eu pensava na agência. O trabalho na Record começava a ficar volumoso demais, eu sentia que a minha interlocução com os autores brasileiros estava ficando afetada, eu não tinha tempo. E a minha vida pessoal também ficou comprometida. Passei a pensar em ter uma vida mais prazerosa.

Perder o acervo de Jorge Amado e Carlos Drummond de Andrade para a Companhia das Letras foi decisivo?

De jeito nenhum. Isso foi um delírio de parte da imprensa. Essas coisas acontecem o tempo todo. Não houve ligação entre esse episódio e minha decisão.

Atualmente, como está sua carteira de clientes?

Represento 26 autores – 23 brasileiros e três estrangeiros. E trabalho com qualquer editora. O Miguel Sanches Neto, por exemplo. Fiz o contrato de um livro para a Companhia das Letras e intermediei uma encomenda de um trabalho dele para a Intrínseca. Ao todo, foram uns 30 contratos desde o começo da agência.

À frente da agência, que desafio você se impõe agora?

Gostaria de dar alguma contribuição, mesmo que pequena, para normalizar o Brasil em sua relação com a literatura. Somos o único País em que a ficção local, produzida por romancistas e contistas brasileiros, tem espaço ínfimo no conjunto da economia literária. Não vamos falar em países europeus, como França, Alemanha, Itália e Espanha. Mesmo no México e na Argentina, a produção local tem mais peso na livraria do que no Brasil. É esquizofrênico.

Acredita na redescoberta da literatura brasileira?

Sempre que possível, quero ser agente dessa redescoberta e dessa normalização. Não “a” agente, mas “um” agente, um fator que contribua para mudar o quadro que descrevi. Sempre que prospectar um grande livro e representá-lo junto aos editores, vou cobrar tratamento editorial equivalente ao que é dado às obras estrangeiras. Fazendo isso, estarei cumprindo esse papel.

Livro é mesmo caro aqui?

Não acho que preço seja fundamental, é uma outra problemática. O profissional liberal que tem dinheiro para comprar um best-seller internacional não compra de um autor brasileiro. É um preconceito que talvez até se justifique.

Por quê?

Porque os editores, talvez influenciados pelos departamentos de Letras das universidades, passaram a publicar, principalmente, autores brasileiros extremamente “difíceis”. Ao mesmo tempo, pegue o Philip Roth, Complô Contra a América. Eu achei bom, mas, se fosse publicado no Brasil, não dariam bola. Porque não se trata de um livro de grandes experimentações linguísticas. Aqui, a tendência da crítica seria não levá-lo muito em conta.

O governo pode ajudar?

O grande desafio da indústria editorial brasileira é político: que o governo assuma o compromisso com a educação universal. O nosso mercado continua pequeno em relação à dimensão do País. Melhorou nos últimos anos, pela distribuição de renda, mas ainda é muito pouco. Uma coisa interessante: muitos pais têm disposição para comprar livros para seus filhos. Até pais que não leem.

O que fazer para aumentar os índices brasileiros de leitura?

No Brasil, a boa literatura tem tiragem média ínfima. O livro de um bom autor sai com 2 mil exemplares. Nos EUA, a média é 15 mil. Não digo que teríamos de empatar, mas se a boa ficção chegasse a 7 ou 8 mil… Para isso, é preciso melhorar a escola, criar mais leitores.

Que tipo de poder as agências têm em relação ao governo?

Nenhum. Essa é uma luta do cidadão. Eu brinco, dizendo que, quando sou otimista, vejo a entrada das editoras estrangeiras no mercado nacional como a chance de criar um novo grupo de pressão pela melhora do nosso sistema educacional – que criaria uma nova demanda por livros e outros produtos culturais de qualidade. Espero que a entrada dessas editoras ajude a profissionalizar o mercado, melhorar as relações com os autores. O problema é que não se faz nada em relação à educação no Brasil. É inacreditável! As promessas não cumpridas pelo estado durante todo o século 20… É um descaso de chorar.

Alguns livros vendem milhões, como Ágape, do padre Marcelo Rossi. Isso é bom?

É uma pergunta difícil. A motivação para comprar o livro do padre não é a melhor, mas isso agita a indústria. Para o conjunto dos leitores, não acho bom.

Que brasileiros têm mais chance de sucesso lá fora?

Paulo Coelho…

Não, vamos tirar Paulo Coelho dessa lista…

Francisco Azevedo, por exemplo. Fechei sete contratos para ele, um nos EUA. Outros autores são Ronaldo Wrobel, Edney Silvestre e Rafael Cardoso. Aliás, quer um exemplo de que a crise econômica não tem vez contra a boa literatura? Os dois últimos contratos foram fechados na Espanha: Entre as Mulheres, de Rafael Cardoso, será publicado em espanhol pela editora Siruela, e O Arroz de Palma, de Francisco Azevedo, sairá em catalão pela La Columna, do grupo Planeta. Editoras sólidas, com dinheiro para investir em marketing. A literatura brasileira poderá sofrer um upgrade se esses exemplos se disseminarem.

Ano que vem tem Feira de Frankfurt, cujo país homenageado é o Brasil. Isso ajuda?

Não necessariamente. Tenho quatro autores vendidos para editoras alemãs. Claro que o fato de o Brasil ser homenageado chamou a atenção. Mas não garante que outros países se interessem.

No momento em que o Brasil é visto de outra forma no exterior, obras históricas tendem a pegar carona na ficção?

Talvez, mas é bem mais difícil. Eu vou tentar, é um desafio. A não-ficção, no Brasil, sofre um preconceito que deve ser superado.

Um Nobel de Literatura faria diferença?

Com certeza. O próprio Saramago, português, fez muita diferença para o mercado. Um prêmio como esse faria o Brasil ser visto de outra forma.

Outro desafio no país é o livro digital. O que fazer?

Hoje é impossível vender um livro sem que a editora exija direitos digitais. O que se discute é o direito autoral. Mas o mercado é pequeno. Nos EUA, a porcentagem para o autor é maior, as vendas digitais são grandes. Lá, a questão é outra: a renegociação dos direitos sobre o exemplar baixado. Uma coisa é certa: o mercado de readers vai se consolidar. Mas não matará o livro de papel!/DANIEL JAPIASSU