Livro do palhaço Cláudio Thebas combate pandemia de mal-entendidos

Livro do palhaço Cláudio Thebas combate pandemia de mal-entendidos

Sonia Racy

22 de agosto de 2021 | 00h50

O palhaço Claudio Thebas. Foto: Fernando Vianna

Uma resposta lacônica, a palavra inadvertida que não soou bem ou cobrança exagerada. Na pandemia, que exacerbou as conversas virtuais em níveis inéditos, os mal-entendidos podem azedar com mais frequência uma relação pessoal ou profissional. Os ruídos nos relacionamentos se multiplicaram na era da covid-19, o que ampliou a demanda por comunicação não violenta. Adotada por famílias na educação de crianças, por grupos de comunidades periféricas, ela evoluiu, tornou-se mais flexível, reflexiva, sendo mais do que nunca demandada pelas empresas.

O assunto é tema do livro do palhaço Cláudio Thebas, intitulado Ser Bom não é Ser Bonzinho, lançado pelo selo Paidós. Para o autor, o processo envolve ouvir a si mesmo, dizer o que precisa ao outro, como se sente e escutá-lo também – sem fórmulas prontas. A ferramenta possui semelhanças com a arte do clown: “Ambas são linguagens que ajudam a gente a olhar para dentro e expressar para fora”, diz Thebas em conversa por videoconferência.

Além de palestrante, é autor de nove livros, entre eles O Palhaço e o Psicanalista escrito com Christian Dunker. Dá aula para clowns que atuam em hospitais no Brasil. Fez pós-graduação em Pedagogia da Cooperação. Fundou grupos como o Forças Armadas, que trabalha o fortalecimento psíquico de moradores de regiões que passaram por catástrofe, como em Teresópolis, no RJ, destruída pelas chuvas em 2011.

Como estimular a comunicação não violenta por meio de jogos, histórias emocionantes e práticas estão no novo livro. Um exemplo: ao pedir para o filho lavar o prato sujo o pai deve se posicionar com firmeza, expressando a sua dificuldade de ver a pia desorganizada com uma pitada de bom humor, sem julgar ou rotular. Esse caminho seria mais convincente do que a bronca ou a punição Exige, porém, treino, desenvolvimento de repertório e reconstrução de relações.

Por que esse título “Ser bom não é ser bonzinho”?

É uma brincadeira e tem uma puxadinha de tapete logo abaixo no subtítulo dizendo para evitar julgamentos como o desse título. Sempre acham que o palhaço é fofo, bonzinho, e não é assim. Eles são autênticos, há uns muito bravos por sinal que são encantadores. E as pessoas pensam também que quem trabalha com comunicação não violenta é alguém passiva, boazinha. Esse senso comum eu não quis desperdiçar nem desprezar, mas não é para se aprisionar nele. Se não estou conseguindo ser autêntico tanto quanto gostaria, o que está faltando para que eu consiga? Quis pensar sobre isso.

A comunicação não violenta e a arte do palhaço se misturam?

Elas têm um ponto em comum permitem não só escutar o outro, mas também a si. O palhaço revela o tempo inteiro o que está dentro dele, por isso, ele é inadequado. Tudo que as pessoas escondem, o palhaço está lá mostrando. E a comunicação não violenta ajuda a encontrar caminhos para expressar o que você está precisando e sentindo. Ambas são linguagens que ajudam a gente a olhar para dentro e expressar para fora. Se eu não me observar, vou oferecer para o outro a desconexão que tenho comigo.

Se precisamos de uma comunicação não violenta, o ser humano é um ditador por natureza?

Eu não sei se ditador, acho que o ser humano é essencialmente equipado para colaborar e amar ou não estaria aqui, não existiria como espécie. Fora o intelecto, é muito frágil, uma bala mata. Entretanto, há perfis mais autoritários, que acham que colaborar é do jeito que eu quero.

Em tempos de rivalidades políticas, a ferramenta de algum modo pode trazer mais harmonia entre as pessoas?

Pode ajudar todo mundo que estiver disposto ao diálogo, mas não é uma tábua de salvação.

E como praticá-la?

Um bom caminho para começar é ler os livros que existem, como do psicólogo americano Marshall Rosenberg, conversar com as pessoas que já praticam, não acreditar em fórmulas nem em receitas. Ela é mais subjetiva do que um método supõe. Então é compreender a comunicação não violenta como um processo de investigação mesmo.

Na pandemia há o uso intenso da comunicação online com prejuízos para relacionamentos.

Sim, eu tenho feito muitos encontros com grupos de escuta de crianças entre 8 a 11 anos, que estão muito frustradas, dizendo que no confinamento achavam que veriam mais os pais, mas, na verdade, veem muito menos do que antes. Aqui em casa também acontece de minha mulher ficar num notebook, eu em outro, e a gente quase não se ver na semana. Fui chamado para fazer esse grupo e escutar as crianças, dar vazão às suas inquietações.

Como é a questão de apresentar a sua vulnerabilidade na comunicação não violenta?

A palavra vulnerabilidade para o palhaço é muito importante. Então, é no sentido de acreditar que ao mostrar só uma frestinha do que eu sinto e do que preciso, o outro pode conseguir me compreender humano e, por isso, se conectar comigo.

/ PAULA BONELLI

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