“Levo para o chão mesmo”

“Levo para o chão mesmo”

Sonia Racy

13 de abril de 2013 | 01h09

Foto: Evelson de Freitas/Estadão

“Não estou inventando a roda, não”, diz ela, com forte sotaque goiano, sobre como prepara políticos e empresários para situações de crise. Em 2010, Olga Curado, ex-diretora da Rede Globo, assumiu a tarefa de treinar Dilma Rousseff para enfrentar o então candidato do PSDB à Presidência, José Serra. Olga fez a petista deixar o discurso técnico de lado para se expressar com mais clareza. Seu método, que mistura o aikidô (arte marcial japonesa), terapia gestalt, budismo, meditação e jornalismo, agora foi transformado em livro: Viver sem Crise, a ser lançado terça-feira, em SP.

Como nasceu a ideia do livro?

Foi a exigência de comunicar o meu método. Precisei traduzir a linguagem do tatame para a linguagem verbal.

Na sua opinião, as pessoas estão vivendo em um mundo de imaginação?

É um mundo da autoimagem. Organizações, políticos e empresas vivem assim. As pessoas não entram na perspectiva do outro, não se olham no espelho. O olhar é para fora, nunca para si.

Daí vem a vitimização?

É mais fácil transferir responsabilidade, colocar-se na posição de injustiçado. Precisamos lembrar que temos autonomia e que nem sempre as coisas dão certo.

Como é lidar com o medo e também com a vaidade?

Quando uma pessoa está muito autocentrada, fica muito vulnerável. Começa a se expor mais do que o necessário. E, no outro ponto, quando a pessoa está com muito medo, deixa de falar o que é necessário. São lados diferentes, mas que sempre geram perda. O medo tem presença muito mais forte nas relações do que a confiança.

Qual a diferença entre treinar empresários e políticos?

O empresário tem uma visão mais pragmática e bem focada no resultado. O político trabalha com mecanismos de mais sensibilidade. O empresário tende a ser mais racional, esquemático e planejado. O lado emocional fica mais tímido. Já o político tem menos vergonha de sentir, de falar as coisas.

Qual foi seu maior desafio?

Não vou citar nomes, mas já tive casos de pessoas que não aceitavam nada. É quando parto para abordagens bem pouco ortodoxas mesmo. Levo a pessoa para o chão. Assim, ela percebe qual é o tamanho de sua resistência. Eu parto, como diria um amigo, para a “fratura exposta” (risos).

Você consegue viver sem crise? É possível?

Consigo. A crise é inevitável, mas não precisamos transformá-la em companhia de viagem. É um visitante que bate à sua porta, que você atende e reencaminha. Teremos de lidar sempre com situações de desconforto, que nos tiram do eixo, mas não precisamos incorporar isso em nossas vidas. Viver sem crise não é viver como se a crise não existisse. A crise existe, mas não é companhia. /THAIS ARBEX

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: