Leal ao horário nobre

Leal ao horário nobre

Sonia Racy

19 de julho de 2014 | 01h05

Foto: Daryan Dornelles

Leandra Leal está pronta para encarnar Cristina, heroína de Império, nova novela das nove da TV Globo – que estreia nesta segunda. Apesar de ter praticamente nascido nos palcos (é filha da atriz Angela Leal), ela percorreu trajetória pouco comum entre suas colegas de emissora. Além de ter atuado em 19 filmes e somar 25 prêmios, comanda, há quatro anos, a produtora Daza Cultural – um dos projetos no forno é o documentário Divinas Divas, sobre uma geração de travestis brasileiros. Com tantas atividades, confessa: não tem muito tempo para acompanhar… novelas.

Enquanto se mantém no horário nobre da TV, a atriz também é conhecida por se engajar em projetos e declarar seu voto em eleições – em 2010, optou por Marina Silva, no primeiro turno, e Dilma, no segundo. Este ano, entretanto, afirma estar decepcionada com a “grande semelhança” que todos os candidatos apresentam. “Isso é algo que me deixa bem desesperançosa. Está tudo muito igual, tudo em troca de um minuto de TV.”

A seguir, os melhores trechos da conversa.

Você foi atriz mirim, mas tem uma carreira bem diferente da de Bruna Marquezine – formada na TV e que, aos 18 anos, acaba de ser protagonista de novela. Acredita que esse é o sonho das meninas brasileiras?

A televisão representa algo muito forte no imaginário do brasileiro. Acredito que exista, sim, esse sonho. Entretanto, isso não tem nada a ver com o dia a dia da minha profissão, que é de muito trabalho. É uma profissão inconstante. Sou filha de atriz e já vivi altos e baixos. A TV faz isso: endeusa pessoas e, no outro dia, isso acaba. É gritante mesmo.

As novelas estão passando por um período de transição. A audiência de Em Família foi fraca. As pessoas procuram outros tipos de entretenimento na TV?

O que mudou foi a forma de se assistir novela. O Ibope talvez não seja mais o único medidor possível. Falava-se muito que a internet ia ser uma oposição à TV e acho que é justamente uma ferramenta com que as pessoas interagem. O Twitter, por exemplo, é uma sala coletiva de assistir televisão.

Acha que sua personagem vai ajudar a recuperar a popularidade das mocinhas de novela?

Para mim, este trabalho é um desafio, mas não com esse contexto. Isso não cabe a mim.

Como é a Cristina?

Uma mulher forte e feminina. Ela vive grandes dilemas e sofre perdas grandiosas, mas encara isso com dignidade, com força, não se vitimiza.

E você não acha que isso tem a ver com a mulher brasileira?

Total. A Cristina é uma mulher brasileira dos dias de hoje. E, por isso, ela pode ser muito cativante: é uma figura normal, batalhadora. E se prepara para assumir a chefia da família. Ela tem uma liderança, que é própria da nossa geração.

Falando em liderança, foi ideia sua o Divinas Divas, documentário de sua produtora?

Foi. Porque eu conheço as divinas desde a minha infância. Meu avô era dono do Vivaldi, um dos primeiros teatros brasileiros a abrigar homens vestidos de mulher – isso no meio da ditadura. Acho que a vida delas é um grande ato de pioneirismo, de coragem, de entrega à arte, de uma forma muito radical. Como artista, achei isso muito interessante. Estamos há cinco anos tentando terminar esse projeto.

E vocês abordam a homofobia no filme?

A questão de gênero ainda é um tabu no Brasil, mas o Divinas tem outro, que é a velhice. Quando eu comecei a filmar, achei que o maior preconceito que encontraria seria o de gênero, mas constatei que há muito preconceito, também, em relação à velhice.

Você sente esse preconceito na televisão também?

Minha profissão é bem generosa com todas as idades. Óbvio que, aos 30 ou 40 anos, é mais fácil viver um herói. Depois, isso vai mudando. No entanto, imagino que o lugar para se envelhecer é o teatro.

Sabe-se que, para atrizes que são musas, envelhecer é algo bem difícil e doloroso.

Mas isso acontece em qualquer profissão.

Você declarou voto em Marina Silva e Dilma nas últimas eleições. Tem candidato este ano?

Não tenho candidato ainda. Pela primeira vez, faço parte desse porcentual de eleitores indecisos, e confesso estar decepcionada com a grande semelhança que todos os candidatos apresentam. Isso é algo que me deixa bem desesperançosa. Está tudo muito igual, em troca de um minuto de TV. /MARILIA NEUSTEIN

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