Lea T.: “Não me acho bonita”

Lea T.: “Não me acho bonita”

Sonia Racy

11 de junho de 2015 | 01h10

Jeísa Chiminazzo e Lea T. para a Morena Rosa (Foto: Zee Nunes)

Três anos depois de fazer a cirurgia de mudança de sexo, Lea T. confessa: “Não me acho bonita. Evito olhar minhas fotos, não acho que estou com essa bola toda. Mas também não sou das que choram diante do espelho”.

Aos 34 anos, a modelo internacional, filha do ex-jogador Toninho Cerezo, foi eleita pela Forbes americana, no início do ano, uma das 12 mulheres que mudaram a moda italiana. Por quê? Por ter sido a primeira modelo transgênero a posar para uma grande grife – ela estreou na francesa Givenchy.

Hoje, de mudança da Itália para uma cidade do interior do Brasil, Lea é, ao lado de Costanza Pascolato, Valesca Popozuda e Jeísa Chiminazzo, um dos rostos da nova campanha da Morena Rosa, que explora a diversidade da mulher brasileira.

Na festa da marca, anteontem, no restaurante José, a modelo falou à coluna.

Como viu a repercussão sobre mudança de gênero do padrasto de Kim Kardashian, Bruce Jenner, agora Caitlyn?

Positivo. Se ele queria isso, tinha que ir atrás de ser feliz. Acho legal as pessoas nos darem atenção. Na verdade, sempre deram, mas de maneira diferente. Nós existimos desde a Grécia antiga, e sempre despertamos curiosidade. Agora somos mais populares, o que é bom para as pessoas nos olharem mais.

Quando fez a cirurgia, você afirmou que foi dolorido, que tinha até se arrependido…

Nunca me arrependi! Me perguntaram se eu voltaria atrás naquilo que tinha vivido. Como foi muito doloroso, falei que não. Seria como se eu te desse um beliscão. Você ia querer outro? Claro que não! Mas arrependimento nunca houve.

Como ficou a sua relação com seu corpo?

Sempre me senti feminina. As amiguinhas das minhas duas irmãs iam lá em casa e falavam: “Que linda, a sua irmã”. Elas estavam falando de mim. Sempre usei cabelo comprido. Comigo não teve aquela “valvulazinha”, foi tudo muito natural, orgânico. O que mais doeu em todo esse processo foi conseguir a aceitação da sociedade.

Caitlyn Jenner se transformou já aos 65 anos, depois de três casamentos e filhos. Você acha mais complicada essa aceitação no caso dela?

Acho que o processo de aceitação deve ser bem mais intenso e difícil. Porque já foi difícil para mim, que tive que expor minha família, meu pai que é conhecido – acho que cheguei até a colocar a profissão dele em risco. Mas ele e minha família sempre me apoiaram. Com filhos deve ser ainda pior.

Está em seus planos, um dia, casar e ter filhos?

Não ligo para esse negócio de casamento. Me vejo como uma pessoa muito livre. E, sinceramente, acho lindo quem consegue encarar a questão da maternidade, mas não sinto aquela vontade de ser mãe. /SOFIA PATSCH