Juntos em DVD, rappers criticam o racismo e as barreiras culturais

Juntos em DVD, rappers criticam o racismo e as barreiras culturais

Sonia Racy

08 de julho de 2013 | 01h00

Foto: Denise Andrade/Estadão

A dupla comemora megalançamento dirigido por Andrucha Waddington, fala sobre sua trajetória e a onda de protestos que tomou conta do País.

Emicida e Criolo receberam a coluna no espaço Ação Educativa, na Consolação, para falar sobre o lançamento do DVD que gravaram juntos, no ano passado. A superprodução, dirigida por Paula Lavigne, Andrucha Waddington e Ricardo Della Rosa, contou com 40 microcâmeras e quase 100 pessoas trabalhando. Tudo feito a toque de caixa, em apenas cinco dias.

O reencontro desses dois grandes nomes do rap paulistano foi muito comemorado. Eles se conhecem há mais de oito anos, desde quando frequentavam a Rinha dos MCs, batalhas de freestyle de rap. “Acredito que esse DVD é um recorte de tantos MCs que estão fazendo coisas grandiosas, mas que, por um motivo ou outro, ainda não tiveram a mesma visibilidade que nós”, afirma Criolo.

Representantes do gênero consagrado por letras de contestação social, os músicos comentaram as manifestações que ocorreram no último mês. “Em algum momento isso iria acontecer. Mas não acredito que a grande massa desceu para a rua. Se isso ocorrer, teremos realmente uma revolução”, diz Emicida. “Acho que as pessoas têm direito a dar suas opiniões. A gente já não tem nada, você acha que a gente vai comemorar as migalhas que jogam?”, indaga Criolo.

Questionados sobre as ações culturais na periferia, ambos concordam que falta investimento: “Venho de um bairro que não tem nada. O único braço do Estado que sobe lá é a polícia. A única manifestação que leva cultura é a barraquinha de CD pirata”. O assunto que ganha voz de ambos é o racismo no Brasil. “O preconceito racial parece ser uma das poucas coisas democráticas no nosso País. Porque sempre alguém vai falar de você. Se é branco, se é preto, se é baixo, se é alto, se é magro, se é gordo, sempre alguém vai exercer o espelho. Porque, quando você fala do outro, fala um pouco de você também”, diz Criolo. “O grande tema dos estudos sobre racismo no Brasil – segundo lugar do mundo em que há mais racismo – é que você não encontra os racistas, mas isso está pulverizado no dia a dia de cada uma das pessoas não brancas do País”, completa Emicida.

Os rappers sobem ao palco do Espaço das Américas, dia 14, em um show sem venda de bebida alcoólica – para permitir a entrada de menores de idade.

A seguir, os melhores momentos da conversa.

Como surgiu a ideia de gravar este DVD?

Emicida: Na verdade, era um show agendado. No final das contas, surgiu essa ideia e a gente achou que era interessante aproveitar.

Criolo: Foi um lance colaborativo. As pessoas falaram com a gente que gostariam de fazer um registro disso. E foi se juntando uma equipe, essa equipe teve uma ideia, passou pra gente. Acabou rolando. Não se trata de um DVD qualquer, mas uma superprodução, feita de maneira independente.

Emicida: Acho que, quando você tem um projeto dessa dimensão, levanta um questionamento sobre como tudo funciona no nosso mercado. A classe artística tem de se desobrigar de ver o dinheiro antes do material, sabe? Essa é a maneira sobre a qual eu moldei a minha carreira inteira.

Como vocês veem o cenário do rap hoje no Brasil?

Criolo: Acho que dedicar 24 horas por dia à sua canção é de uma extrema coragem. Acredito que o panorama do rap é sempre o mesmo. Existe um olhar que vai e volta, de quem não vive neste universo e acha que existem períodos de alta e de baixa, mas o processo criativo sempre foi o mesmo, extremamente forte.

Emicida: O hip-hop tem uma história bem interessante e bonita no Brasil. A evolução do gênero musical tem acompanhado o desejo da periferia de contar sua própria história. Vivemos um momento em que a facilitação de acesso às ferramentas está possibilitando que mais pessoas contem sua história sem intermediários.

Muitos dos textos que se espalharam nas redes sociais durante as manifestações levantam questões que o rap aborda há tempos. O que acham dos protestos?

Criolo: São sempre muito positivos. As pessoas estão se expondo e se expressando. O rap sempre abordou uma série de temas, mas não existe um dono dos temas.

Emicida: Em algum momento isso iria acontecer. Mas não acredito que a grande massa desceu para a rua. Mas, pela primeira vez, ouve-se falar de política com essa frequência. Mesmo que não exista uma pauta clara, começa a acender essa lenha, para que as pessoas se informem melhor.

Uma das suas frases famosas, Emicida, é “a rua é nóis”. Hoje, quem seria o “é nóis”?

Emicida: Acredito que essa frase… ela é muito menos limitadora do que algumas pessoas colocam. É um grito. Como a metáfora que diz “a gente vive e ocupa as ruas da cidade”. Então, é interessante, principalmente se você olhar agora a quantidade de pessoas que repetem isso, mesmo com todo o preconceito, com todo o racismo do nosso país.

Criolo: Ele é da zona norte. Eu sou da zona sul, e alguma coisa aconteceu que estamos aqui, falando de música. Isso já é algo extremamente agressivo. O grande lance é você não desistir de você, no processo.

Seu Jorge, ao recitar Negro Drama, dos Racionais, em um show no ano passado, na Fundição Progresso, no Rio, foi vaiado. O que acham que aconteceu naquela situação?

Emicida: Isso acontece com frequência na realidade do brasileiro. No momento em que Seu Jorge sobe no palco e recita Negro Drama, ofende algumas pessoas. É o grande tema dos estudos sobre racismo no Brasil. Nessa situação, racistas se sentiram poderosos enquanto massa. Porque não têm coragem de levar aquilo para o dia a dia, de uma maneira explícita. Esse é o grande problema do racismo no Brasil. Esse episódio é pulverizado no cotidiano de cada pessoa não branca do Brasil, todo dia.

Criolo: O preconceito racial não merecia nem uma vírgula desse espaço que está sendo oferecido para nós. Ao mesmo tempo, é de grandiosidade absurda dizer que algumas pessoas continuam sendo extremamente equivocadas. Por causa dessa coisa tão pequena, e que é tão latente, o racismo. Eu tenho um pai negro esplendoroso, um dos homens mais bonitos do mundo. E eu tenho uma mãe de pele clarinha… E eles se amam muito. Então, eu não consigo entender essa peça que não tem encaixe em nossas vidas, mas que permanece ali, nos incomodando. O preconceito, sobretudo o racial, parece ser uma das poucas coisas democráticas no nosso país. Porque sempre alguém vai falar de você. Se é branco, se é preto, se é baixo, se é alto, se é magro, se é gordo, sempre alguém vai exercer o espelho. Porque, quando você fala do outro, fala um pouco de você também.

Vocês hoje fazem turnês internacionais, participam de gravação de DVD com 40 câmeras. Alguém torce o nariz pelo fato de estarem fazendo sucesso?

Emicida: Qualquer pessoa que acompanhe a nossa história tende a se ver representada nesse tipo de conquista.

Criolo: As pessoas têm o direito de dar suas opiniões. A gente já não tem nada, você acha que a gente vai comemorar a migalha que jogam? As pessoas jogavam migalhas como se tivessem dado pra gente uma mesa abastada.

Do que você está falando?

Criolo: De todas essas coisas que estão acontecendo nesses últimos tempos. As pessoas têm direito de construir seu pensamento, dar suas opiniões. Acho que isso é o mínimo, sabe? E a gente não construiu nada ainda. Não teve uma condição de receber tantos olhares assim…

Como vocês enxergam o incentivo à cultura nas periferias? Os projetos dos CEUs, os pontos de cultura. Acreditam que deveria haver mais incentivo do Estado?

Emicida: Olha, vou te falar com sinceridade: eu venho de um bairro que não tem nada. Lá em Cachoeira, o único braço do Estado que sobe é a polícia. Falta uma intervenção. Não existe um centro cultural, a escola está caindo aos pedaços, não tem uma quadra. O único campinho que foi construído é obra dos moradores. A questão não é nem a construção de um espaço público, mas saber lapidar a estrutura de cada bairro, para que aquilo possa manter a cultura viva.

Criolo: Não adianta criar um espaço que não dialoga com as pessoas. É necessário espaço físico, sim, mas também é preciso fazer com que o cara se sinta dono dele. Nosso povo merece espaços culturais, e o dinheiro está aí. É obrigação. Agora, é muito mais do que isso. É liberdade para se apossar desse espaço. É proporcionar a sensação de pertencimento.

Emicida: Tem milhares de formas de se potencializar isso. Mas carece de uma sensibilidade rara nas pessoas que ocupam as posições de poder. A repressão policial na periferia é um problema muito sério, por exemplo. Isso faz com que as pessoas deixem de sair de casa. Tira o bairro das pessoas. Na Vila Zilda, por exemplo, existe o Samba da Paz, que acontece em um lava-rápido. O que a gente carece é de menos repressão para que esse tipo de coisa possa florescer.

Vocês falaram que vão disponibilizar o áudio do DVD – que, depois de lançado, já vai estar no YouTube. O que pensam a respeito da pirataria?

Emicida: Quando as pessoas falam contra a pirataria, não posso engrossar esse cordão. A única manifestação que leva cultura ao meu bairro é a barraquinha de CD pirata. Então, lá, o centro cultural é um cara com uma tela com um monte de DVDs.

Democratiza a cultura?

Emicida: Sim. A pirataria se apropria do que o mercado populariza, mas fortalece a arte independente de uma maneira intensa. O meu primeiro DVD oficial vai sair agora, mas já tenho três DVDs na barraca pirata. A visão do camelô é uma coisa que tem de ser valorizada.Uma das maiores críticas à Virada Cultural foi centralizar os eventos e não incluir os CEUs na programação. Isso dividiu opiniões. O argumento a favor é que seria preconceituoso achar que a periferia não poderia usufruir da cultura no Centro.

Criolo: Como se lá não tivesse cultura? Como assim? Onde tem ser humano tem cultura. Agora, como viabilizar o acesso para troca? É este “ir e vir” que está totalmente ligado a quem pode e quem não pode estar em determinado lugar.

Emicida: Aí carece de uma mudança de perspectiva extrema. Eu penso assim: cultura não é como um muro. Tem de ser pensada como uma ponte. Ela está aí para ligar as pessoas.

Criolo: Acho que estamos falando o óbvio.

Emicida: Não considero tão óbvio, cara. É uma reflexão importante. /MARILIA NEUSTEIN

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