Julio Le Parc: arte e política

Julio Le Parc: arte e política

Sonia Racy

28 de novembro de 2017 | 01h00

Conhecido como um dos precursores da arte cinética, o argentino Julio Le Parc conversou com a coluna durante almoço pilotado por Renata Paula. O artista, de 89 anos, abriu duas exposições no sábado, em São Paulo. Uma delas no Instituto Tomie Ohtake e outra na galeria Nara Roesler. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Seu trabalho busca combater a passividade do espectador, oferecendo uma experiência sensorial. Como fica essa interação num cenário marcado por tecnologias como o celular?
Sim, dentro da medida do possível, combater essa passividade é o que pretendo. Acho que hoje há mais possibilidades de comunicação. Talvez o consumo seja muito rápido, mas isso não impede que essas experiências continuem acontecendo de forma interessante.

O senhor afirmou, em 2013 em Paris, que as pessoas estão cansadas de coisas monótonas. O que se pode fazer a respeito?
A minha intenção é criar situações de relação direta com o público. Uma cumplicidade. Mas com o público em geral, não apenas com aqueles que são entendidos no assunto. Me interesso por pessoas que têm essa abertura para olhar, observar, e que conservem a disponibilidade para entrar em contato com essas obras.

O senhor participou de forma ativa do movimento maio de 68. Qual a sua percepção do atual momento do mundo?
Acredito que o domínio do mundo está nas mãos de grandes grupos, que tomam decisões importantes, como os acordos contra a poluição. Esses grupos promovem indústrias que vão poluir e que não enxergam o perigo para as gerações futuras. Mas há sábios que são contra. E as pessoas tomam consciência, pouco a pouco, dessas situações.

O sr. acredita que há um diálogo direto entre arte e política?
Sim. Um diálogo que é estabelecido de diversas maneiras. Desde arte que denuncia situações sociais degradantes até estimulação para as pessoas tomarem consciência. E, mesmo a arte que não parece, faz parte de uma situação política.
O Brasil passou nos últimos tempos por episódios em que museus e exposições foram atacados. O que pensa disso?
As pessoas comentaram comigo. Acredito que agredir as pessoas não é necessário. Impedir que os artistas tomem atitude também não é bom. As pessoas sabem o que querem ver ou não ver. Não é preciso que outros digam o que eles devem ou não ver./MARILIA NEUSTEIN

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