José Scheinkman diz que economistas, no atual cenário de extrema liquidez, precisam ser modestos

José Scheinkman diz que economistas, no atual cenário de extrema liquidez, precisam ser modestos

Sonia Racy

22 de janeiro de 2021 | 00h40

José Scheinkman. Foto: Hélvio Romero/Estadão

Teme-se, pelo mundo, a criação de uma crise, diferente entretanto da que ocorreu em 2008. Não pelo mesmo motivo – créditos imobiliários podres. Mas em razão de uma bolha de “dinheiro”. A atual liquidez internacional, somada aos juros baixíssimos, está resultando em uma montanha gigante de investimentos sem rendimento real. Prova disso, aqui no Brasil, é o boom da bolsa que já bateu nos 120 mil pontos, bem como o fluxo intenso de capital estrangeiro entrando no País. 

Esta coluna procurou o economista brasileiro José Alexandre Scheinkman, radicado no EUA há 30 anos, para explorar sua memória e resgatar o aviso que dava em 2002, a quem o procurava – sobre o financiamento de imóveis nos EUA. Ele enxergou, na época, a distorção que estava se desenhando e suspeitou com todas as letras de um futuro desastre econômico mundial. 

Acontece que o timing dos economistas não é o mesmo dos mercados. E tudo continuou aparentemente tranquilo em 2003, 2004, 2005… até a crise estourar em 2008. Credita-se a previsão desta bolha, a Nouriel Roubini – mas na verdade, muitos outros temiam a mesma coisa e guardavam a percepção para si. Da ciranda financeira criada, participavam investidores, compradores de imóveis, players de mercado, iniciativa privada, pessoas físicas – ninguém queria sair da festa. Ela estava boa, estava durando, e poucos optaram pelo conservadorismo. Muito poucos. E deu no que deu. 

Consultado agora sobre o volume colossal de recursos flutuando na busca de investimentos rentáveis, se isso estaria formando nova bolha, o economista – que não faz previsões explícitas – observou: “O problema hoje é o seguinte: a taxa de juros está tão baixa que, se você simplesmente pegar o lucro das empresas e descontar pela taxa de juros, o preço dos ativos não parecem tão caros”. O entrave, segundo ele, esbarra na pergunta: quanto tempo vão durar essas taxas de juros baixas? “Se de repente a taxa subir por conta da pressão inflacionária, podemos imaginar que essa bolha estoura logo.” O X da questão é o timing. “Pensa e analisa: por que o Japão está com taxas de juros baixas há tanto tempo?” pergunta.

Para Scheinkman, “entende-se por que os bancos centrais estão cobrando juros tão baixos. Mas por que isso não traz inflação ou por que o Japão não teve inflação esses anos todos, é uma questão a responder”. O ex-professor de Chicago, de Princeton e hoje em Columbia, NY, concorda que as empresas japonesas produzem pouco lucro, portanto, não são muito atrativas. “Mas isso não justifica o fenômeno da estabilização dos índices de inflação”. Economistas, na opinião de Scheinkman, têm que ter modéstia para dizer “a gente não entende o porquê da taxa de juros tão baixa”. 

 Por outro lado, ele atrela o futuro à velocidade da recuperação mundial pós-covid. “Olhamos o quão rápido isso se dará. O próprio Jerome Powell, do FED, falou essa semana que estava otimista. E que depois da vacinação a recuperação será relativamente rápida…”

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.