“Cenipa vai investigar o incidente”, diz CEO da Latam

“Cenipa vai investigar o incidente”, diz CEO da Latam

Sonia Racy

22 de dezembro de 2018 | 00h55

Jerome Caldier Foto: WERTHER SANTANA /

A pista do aeroporto de Confins, em BH, ficou completamente interditada por cerca de 10 horas em consequência do pouso de emergência feito na madrugada da quinta-feira pelo avião da Latam. Ninguém ficou ferido, mas a confusão foi grande, não só por causa do incidente mas também em função do vazamento do áudio do piloto. Em conversa ontem com a coluna, o presidente da Latam Brasil, Jerome Cadier, contou que a primeira reação da empresa de aviação, ao saber do pouso na madrugada, foi atender aos passageiros, “saber se todos estavam em segurança”. A segunda foi como tirar a aeronave dali. “Como Confins não opera com esse avião, não havia rodas lá para serem trocadas. Tampouco tínhamos o macaco necessário. E o macaco não é simples, coisa de uma tonelada e pouco”. O que fez a Latam? Segundo Caldier, haviam três possibilidade: a primeira foi a de pedir socorro à FAB, e foi demorado acertar os ponteiros – que finalmente fecharam. Usaram também o Plano B que foi pedir ajuda da Azul, que despachou o macaco com um avião. A ultima opção, o Plano C, era o de mandá-lo por via terrestre, o que demoraria cerca de 10 horas.

Qual foi a solução para os passageiros?
Eles foram para um hotel perto de Confins. Voltaram no dia seguinte a Guarulhos e decolaram para Londres. Um atraso de 24 horas.
Vocês já têm um diagnóstico do acidente?
Para ser correto, até o Cenipa classificou como incidente. Acidente tem outra conotação. O Cenipa mandou uma equipe e chamou para si a investigação. Será ele a conduzir o processo. Nós não teremos acesso aos dados até a conclusão da investigação. Tem muita gente perguntando sobre o áudio, sobre os pneus e outras coisas. Mas teremos que esperar o Cenipa.

Os pneus furaram?
Não, o avião aterrissou com mais energia, mais peso, porque estava lotado de combustível – pois iria fazer um voo transatlântico – e aí eles os pneus esvaziaram quando o avião já estava parado. Na verdade eles não estouraram ou pegaram fogo.

Não estouraram?
Pneu estourar ou explodir é diferente. O que aconteceu foi que o pneu esvaziou depois que o avião parou. Ele teve que frear muito forte por causa do peso e, como acontece na Fórmula-1 , o disco de freio fica vermelho, a temperatura sobe. Parou, a temperatura desceu e parece que estourou. Mas o que causou o incidente será revelado pelo Cenipa, que vai se pronunciar junto com a Boeing.
Mudando de assunto, a aprovação de capital estrangeiro nas empresas aéreas na razão de 100% foi moto do governo Temer nos primeiros meses de gestão. Agora, na saída, consegue-se a aprovação. Ao que vc atribui isso?
À situação da Avianca, que precisava urgentemente de alternativas.

A Latam acha isso bom?
Somos contra devido ao motivo, mas a favor por outras razões. Para salvar um dos quatro players a medida é pouco eficiente no médio e longo prazo. No curto, a Avianca não quebra. Mas no médio e longo prazo você continua com um setor extremamente doente.

David Neeleman, da Azul, falou em falta de contrapartidas. Também acha isso?
Não acho necessariamente, como ele, que a reciprocidade seja fator tão relevante. Temos reciprocidade com Portugal, de 86 voos para cada lado, e não estamos conseguindo slots para pousar em Lisboa. O acordo existe mas não é eficaz. A Tap tem 70 voos para cá e os nossos são cinco. Que reciprocidade é essa?

Quais a urgência do setor, que você diz estar doente?
Condições de competitividade. Exemplo, a mão de obra. As empresas americanas que voam para cá, de Nova York, operam com 19 pilotos. Nós operamos com 32 por causa das regras de contratação no Brasil. Pela Lei do Aeronauta, a quantidade de folgas que temos que dar para os brasileiros é imensamente maior. E não vai me dizer que voar nos EUA é mais inseguro que no Brasil. Então, o argumento não é segurança. O que vai acontecer com o mercado brasileiro é que ele tende a ser um mercado somente doméstico, onde conseguimos concorrer.

Pode dar um exemplo?
Você protege o mercado doméstico. No nosso primeiro voo para Telaviv, semana passada, voamos com tripulação chilena. Isso deve se repetir. Essa discussão devia ter vindo antes da discussão de capital, que acabou sendo aprovada para salvar avião. Esse é um tema espinhoso. Vai ser divertido no ano que vem.