Jane Fonda: a juventude além do umbigo

Jane Fonda: a juventude além do umbigo

Sonia Racy

23 de novembro de 2012 | 01h50

Prestes a completar 74 anos, Jane Fonda desembarca no Brasil, segunda-feira, trazendo uma frustração: tentou encontro com Dilma, sem sucesso. “Acredito muito nas lideranças femininas”, contou à coluna, anteontem por telefone, a atriz e ativista americana – que perguntou sobre o tempo em SP e elogiou o País.

Jane vem divulgar seu novo livro, O Melhor Momento – Aproveitando ao Máximo Toda a Sua Vida, publicado aqui pela Paralela. E além de sessão de autógrafos, participará do Fórum da Longevidade, da Bradesco Seguros – dia 27, no Hotel Transamérica. A seguir, trechos da conversa.

O Brasil está envelhecendo, e a sra. afirma, no livro, que estamos experienciando uma “revolução da longevidade”. Como é isso?

Somos pioneiros nessa revolução. Vivemos uma média de 34 anos a mais do que nossos avós. Isso é uma segunda vida adulta inteira. Temos de nos perguntar o que fazer com esse tempo, aproveitá-lo ao máximo. Vivê-lo de forma saudável. Física e mentalmente.

Qual a principal descoberta na pesquisa sobre esse tema?

Estudos mostram que as pessoas, depois dos 50 anos, tendem a ser mais felizes. Costumam experimentar um senso de bem-estar. Um indivíduo de 50 anos já passou por crises financeiras, amores que não deram certo, algumas doenças e sobreviveu. Isso fortalece. Em inglês, há uma expressão que diz “this too shall pass” – tudo passa. Quando se é mais velho, não existe a ansiedade do “preciso fazer isso ou aquilo”.

Concorda que a idade é mais generosa com os homens?

Acho que envelhecer pode ser mais fácil para a mulher, sabia? Muitos homens dedicam a vida ao sucesso profissional e, quando param de trabalhar, se sentem perdidos. Além disso, homens não costumam ter um círculo de amigos muito próximos, como as mulheres.

No livro, há uma valorização desses vínculos afetivos.

Exatamente. Os homens não têm o mesmo “network emocional” das mulheres. Não cultivam essas conexões profundas e emocionais, como nós. E essas relações são essenciais. Entretanto, quando envelhecem, aprendem a desenvolver e valorizar esse tipo de relação.

Como?

Acontece por causa das mudanças hormonais. Na velhice, os homens têm uma queda de testosterona, o hormônio da virilidade. Muitos que não foram pais amorosos podem se tornar avôs incríveis. Já nós, mulheres, perdemos estrogênio e nossa testosterona fica mais evidente. Não queremos estar em casa e lavar a louça, mas fazer uma aula de ioga ou dança. A louça fica para eles (risos).

O poder da mulher está muito associado à beleza. Como mudar esse paradigma?

Não há nada de errado com querer estar bonita. O problema é desejar permanecer com o visual de menina.

Brasil e EUA são os países com maiores índices de cirurgia plástica no mundo. O que acha disso?

Não me oponho. Eu mesma já fiz. Mas pequenas intervenções. Não sou uma maluca que não quer ter rugas e fica perseguindo a juventude. Não quero parecer ridícula. Admiro as francesas, por exemplo. Elas não têm essa obsessão. Mantêm suas expressões. E são muito bonitas. É importante ser bonita, mas não podemos parecer tolas.

Como é envelhecer?

Estou ótima. Sei reconhecer que estou bem para a minha idade, bonita, inteira. Tenho uma genética que ajuda e condições financeiras que possibilitam que eu me cuide. Mas a força não é incomum. Quero ajudar as pessoas a perderem o medo de envelhecer.

A senhora sempre manteve um forte ativismo social.

Isso é muito importante. Ser socialmente ativo. Contemplar um mundo maior do que você ajuda a se manter jovem. A noção de que as coisas não giram em torno do seu umbigo dá uma outra perspectiva, sem dúvida.

Depois de lutar contra a Guerra do Vietnã e visitar a Palestina, há 10 anos, continua otimista com relação à paz ou se desiludiu?

Sou otimista. Acho que as mulheres têm um papel fundamental nisso. Vocês têm uma presidente mulher. Ela parece muito boa e popular, não? Deus, agora me lembro: ela foi uma revolucionária. Sabe, eu queria me encontrar com ela. Tentei, até pedi uma reunião com ela, mas acabou não acontecendo. Acredito muito nas lideranças femininas. Com o apoio dos homens, evidentemente. Mulheres tendem a votar pela paz.

Como ativista, qual sua avaliação sobre a reeleição de Obama?

Meu Deus! Foi um alívio gigantesco. Vou te dizer uma coisa: se ele tivesse perdido, seria uma catástrofe. Estou orgulhosa do meu país. Por termos dito “não” a pessoas que são contra negros, imigrantes, mulheres. Que banalizam o aborto.

E os próximos projetos?

Estou trabalhando no sucesso The Newsroom. Farei um piloto para minha série própria na ABC, em março. Tenho dois filmes para lançar. Vou escrever mais dois livros sobre sexualidade para adolescentes. E tenho três projetos sociais que envolvem a violência contra a mulher, adolescentes e o fortalecimento da voz feminina no Oriente Médio. Acho que estou bastante ativa para uma mulher de quase 74 anos (risos)./MARILIA NEUSTEIN

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.