Jair Bolsonaro é ‘um fenômeno tecnopolítico’, diz analista

Jair Bolsonaro é ‘um fenômeno tecnopolítico’, diz analista

Sonia Racy

22 Outubro 2018 | 00h45

 


MIGUEL LAGO. FOTO MELANIE STETSON FREEMAN/CSM

Para Miguel Lago, diretor da ONG Nossas, presidenciável
é fruto do impacto da tecnologia na sociedade.
‘A resposta à crise de representatividade quem trouxe
foi a extrema direita, não a esquerda nem a direita clássica.’

Quando, há quatro anos, ninguém prestava atenção ou dava a devida importância eleitoral a Jair Bolsonaro, Miguel Lago já previa o crescimento do candidato do PSL. O cientista político e cofundador da rede Meu Rio, também diretor da ONG Nossas, analisou o trabalho desenvolvido por Bolsonaro nas redes sociais desde 2014 – e hoje, quando muitos se perguntam de onde veio o “furacão”, ele tem algumas reflexões a compartilhar. A principal delas é a da característica midiática de Bolsonaro, por ele definido como “o maior youtuber do Brasil”.

“Ele é muito carismático e sabe usar bem rede social. Ele é um sintoma do impacto da tecnologia na sociedade, um fenômeno tecnopolítico, não político”, explicou à repórter Marilia Neustein em entrevista por telefone, do Rio. Para Lago, há uma relação direta entre o uso da tecnologia e a democracia: “A arquitetura das redes sociais tem uma afinidade eletiva com populismo, sensacionalismo e com fake news”, explica. Sobre o efeito nocivo desse uso, Lago alerta: “A importância das fake news não é fazer você acreditar em algo falso, mas tirar qualquer lastro de verdade ou de qualificação de uma matéria do Estadão, da Veja, da The Economist, de pesquisas acadêmicas”. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

O sr. já afirmou que o Bolsonaro é “um youtuber.” Por que essa definição?Sempre pergunto de onde que vem o sucesso do Bolsonaro. Vemos um clássico político do baixo clero, com atuação legislativa medíocre, que não entende de política econômica, fiscal, agrícola… – então de onde é que pode vir esse sucesso? Bolsonaro é muito carismático e sabe usar bem rede social. Ele é um sintoma do impacto da tecnologia na sociedade. Um fenômeno tecnopolítico, não político.

E o que isso implica?
Seria impensável os eleitores do Bolsonaro votarem nele em 2014. E não é porque eles pensavam diferente. É que a política naquele momento era muito mais “no fazer”. Você tinha o Aécio Neves, governador muito bem avaliado de Minas, o Eduardo Campos, governador muito bem avaliado de Pernambuco, e duas ex-ministras de um governo muito bem avaliado, a Dilma e a Marina. Todos tinham provado alguma competência, quer a gente gostasse ou não deles. Agora diminuíram a importância, o peso e a seriedade da política. O Bolsonaro se tornou conhecido pelo YouTube, falando grandes barbaridades, porque entendeu o mecanismo da internet e a lógica das redes. E existe muita investigação e muita pesquisa em relação a isso na ciência política.

O que elas revelam?
Falam das intersecções entre tecnologia e democracia. De que a arquitetura das redes sociais têm uma afinidade eletiva com populismo, sensacionalismo e com fake news. Para dominar a linguagem das redes não basta ter uma boa estratégia digital, é preciso ter uma sensibilidade ética e jogar um jogo a que nenhum dos outros candidatos aceitou se submeter – que é o de inventar mentiras. O Bolsonaro não tem conteúdo para canais clássicos, como TV ou artigo de jornal. No entanto, ele tem muito conteúdo para a linguagem curta para a superficialidade das redes sociais.

Nesse contexto, o MBL também tem domínio da linguagem de memes, da internet e teve deputados muito bem votados. Acha que o PT não sabe surfar nessa onda da conectividade?
Acho que PT, PSDB e todos os partidos tradicionais olham para conectividade como sendo mais um canal de conteúdo. O que acontece é que os partidos tradicionais têm uma sensibilidade ética. Já movimentos como MBL não têm isso. É aquela máxima “podem falar mal de mim, mas falem de mim”. Uma busca por relevância na rede, uma conquista do latifúndio de espaço. Essas ações não acontecem nas formações políticas mais tradicionais, tanto de esquerda quanto de direita, porque há compromisso completo com a ética e com a verdade.

Acredita que o atual clima beligerante vai continuar depois das eleições? E, a longo prazo, qual pode ser o efeito das fake news e da informação buscada na rede?
O que é mais grave no bolsonarismo, e incluo o MBL nessa corrente, não é ganhar uma eleição, mas o que enseja como visão de mundo. A importância da fake news não é fazer você acreditar em algo falso, mas tirar qualquer lastro de verdade ou qualificação de uma matéria do Estadão, da Veja, da The Economist, de pesquisas acadêmicas. Eu vi isso acontecer na área de mudanças climáticas. Gente dizendo que “não concordava” com pesquisas sérias e renomadas sobre o assunto. De fato você não tem que concordar com um cientista, estamos em um mundo livre e uma opinião não vale mais do que outra, mas tem coisas que são artigos científicos, há matérias jornalísticas que checam os fatos.

Nessa perspectiva, como você acha que Bolsonaro atraiu tantos votos de tucanos e social-democratas tradicionais?
Ninguém achava que o Bolsonaro pudesse chegar ao segundo turno. Mas ele está no espírito do tempo. O mundo está indo para uma onda de extrema direita na Itália, nos Estados Unidos, na Hungria, na Rússia. A resposta da crise de representatividade quem trouxe foi a extrema direita, não a esquerda nem a direita clássica. Na minha intuição, acho que houve uma “normalização” do Bolsonaro, que começa na figura do Paulo Guedes. O Guedes fez o Bolsonaro ser considerado um candidato como qualquer outro, e ele não era.

Qual foi, a seu ver, o efeito dessa “normalização”?
Acho que não foi tomado o cuidado de se olhar esse eleitorado como algo que poderia crescer. Depois, é importante dizer que o PSDB sempre se colocou como antipetista, mas não como tendo ódio do PT. O PSDB respeita o jogo democrático, assim como o PT também respeita os partidos tradicionais. Já o Bolsonaro fez com que o antipetismo chegasse a um ponto no qual não basta ser antipetista, tem que querer eliminar o PT. Nesse sentido, o Bolsonaro ganhou. Mas isso só foi possível porque todo mundo, atingido por essa “normalização”, só percebeu a barbaridade do Bolsonaro dois meses antes das eleições. E mais: no momento em que se começa a criticar o Bolsonaro ele toma uma facada.

O episódio da facada o fortaleceu eleitoralmente?
Foi algo muito ruim para a pessoa do Jair, mas para o Bolsonaro foi bom, porque blindou-o completamente. E permitiu ao candidato criar uma teia de teoria de conspiração, de propaganda. No momento em que ele toma a facada, o eleitor o humaniza. Deixa de ver o Bolsonaro e vê o Jair. É absolutamente natural que nós, como seres humanos, simpatizemos com qualquer outro ser humano quando ele sofre uma agressão desse tipo.

O eleitorado dele é heterogêneo e muitos criticam “as elites” por apoiá-lo.
Tem duas coisas muito interessantes nesse apoio das elites em relação ao Bolsonaro. Um aspecto é o antagonismo presente em todos os movimentos de extrema direita no mundo. O Trump, o Matteo Salvini, o Putin, e Erdogan… todos eles possuem um discurso antiesquerda. No entanto, quando bem examinado, se vê que eles não estão se referindo à esquerda, mas a um pensamento liberal, globalizado e intelectual. Não é à toa que o George Soros é o inimigo dessa turma: um banqueiro ultraliberal, que tem uma fundação para financiar organizações pró-direitos humanos e democracia. Duas bandeiras clássicas dos EUA que a esquerda marxista sempre associou ao capitalismo.

Acha então que Bolsonaro faz antagonismo aos liberais e não à esquerda?
Sim. O maior ódio dele não é contra o militante comunista – que quase não existe mais –, mas contra o burguês intelectualizado que estudou fora, que é viajado, que tem intelectualidade. As elites estão votando no Bolsonaro porque não estão enxergando o discurso contra elas, no médio prazo.

Depois da Segunda Guerra o mundo entrou numa onda mais progressista, enaltecendo valores mais humanistas e globais. O discurso do Bolsonaro contra isso encontrou eco na população. Os valores progressistas estão em baixa?
Se analisarmos os princípios da Revolução Francesa e da Declaração dos Direitos Humanos depois da Segunda Guerra Mundial, tudo é muito calcado em valores cristãos. Acho que estamos vivendo um momento em que não se dá tanta importância a esses valores. Foi um desafio para toda a Europa e para os EUA trabalhar em prol da democracia e direitos humanos como sendo um sinal de progresso e desenvolvimento.

Como avalia os acenos do centro ao PT?
O único lugar em que a extrema direita foi derrotada sucessivas vezes foi a França. Lá, a extrema-direita tem uma performance eleitoral nas eleições presidenciais muito boa desde os anos 80. Só foi possível derrotá-los e revigorar o sistema democrático francês porque houve uma aliança de extremo-centro, direita e esquerda. Se houvesse uma aliança do PT e do PSDB, poderia haver aqui essa chance. E, verdade seja dita, existem dois PSDBs, o de centro e o de direita, este mais próxima do Bolsonaro do que do Alckmin. Talvez o futuro do PSDB seja ser uma linha auxiliar do PSL, o que seria um triste fim para o partido.

Você acha que aliar a imagem de Haddad à de Lula é bom ou ruim pra ele?
Foi bom no primeiro turno porque sem isso não haveria segundo turno. Mas agora o Haddad deveria, como estratégia eleitoral, ter uma agenda clara de reformas. Porque você pode até não gostar da reforma do Temer e ser crítico a ela, mas tem que reformar. Então, qual a reforma que ele propõe? O Haddad tem que olhar rapidamente para o mercado para ser também “normalizado”, como Bolsonaro foi. Mas não sei se o PT está mais interessado em ganhar a eleição ou em marcar um ponto, mais um elemento de uma narrativa, se quer ganhar esse campo chamado de esquerda, centro-esquerda, progressista.