‘Já ouvi que tinha que esconder meu jeito de ser para ter conquistas no vôlei, diz Douglas Souza

‘Já ouvi que tinha que esconder meu jeito de ser para ter conquistas no vôlei, diz Douglas Souza

Sonia Racy

23 de agosto de 2021 | 00h30

O jogador de vôlei Douglas Souza. Foto: Iude

De malas prontas para a Itália, onde passa a jogar em seu novo time, o Vibo Valentia, Douglas Souza vive um período de grandes mudanças. Além da primeira experiência jogando vôlei fora do Brasil, o ponteiro lida com a súbita fama que ganhou durante os Jogos Olímpicos de Tóquio.

Com postagens divertidas sobre os bastidores da Vila Olímpica e a rotina dos atletas durante a competição, o jovem de 26 anos passou de 260 mil seguidores no Instagram para 3,1 milhões em menos de um mês.

“Até hoje estou digerindo isso. Dormi com 70 mil pessoas visualizando minhas postagens e acordei com meio milhão de pessoas vendo o que eu falava”, diz à repórter Marcela Paes.

Ele também usa a plataforma para dar visibilidade à causa LGBQIA+ ao assumir sua sexualidade abertamente. “Já ouvi muito que tinha que esconder meu jeito de falar e andar para conseguir conquistas no vôlei, mas nunca escondi quem sou”. Leia abaixo a entrevista:

Durante a Olimpíada você se tornou o jogador de vôlei mais seguido no mundo. A que atribui esse sucesso?
Acho que por conta da pandemia as pessoas estavam curiosas pra saber como era lá e queriam estar junto, porque não tinha público. Também porque eu mostrava um pouco dos bastidores. As pessoas têm essa curiosidade com o atleta: o que fazem, comem, como se reproduzem (risos). Para muita gente somos uma incógnita.

Foi algo que você planejou antes de começar a fazer?
Eu não tinha nem pensado nem programado nada e só estava sendo eu mesmo. Tanto que antes da Olimpíada a gente passou um mês na Itália, participando da Liga das Nações, e eu já estava fazendo isso, interagindo com as pessoas. Eu me permiti me mostrar um pouco mais, como eu não fazia antes. As pessoas gostaram do meu humor, do meu jeitinho Douglas de ser.

Os seus colegas chegaram a comentar algo quando viram que você começou a ganhar milhares de seguidores?
Nada. Eles não têm que comentar nada mesmo, né? Foi uma coisa natural. Tanto que perguntaram para o (Ricardo) Lucarelli, que joga comigo, se eu era mesmo daquele jeito na vida real. E ele respondeu que eu ‘era louquinho mesmo daquele jeito’. Não mudou nada no grupo.

Você  ficou assustado com a repercussão?
No começo eu fiquei assustado sim, não vou negar. Fui dormir com 70 mil pessoas visualizando meus stories direto da Vila Olímpica e acordei com meio milhão de pessoas vendo. Até hoje estou digerindo. Na semana passada fui ao shopping e em todas as lojas em que eu entrei as pessoas me pediram foto. No condomínio em que eu moro os meus vizinhos estão toda hora batendo aqui querendo tirar foto, querendo autógrafo, dando presentes. É bem estranho, sabe? Eu fico pensando: gente, sou só eu aqui, o mesmo (risos).

Algumas pessoas acham que essa interação nas redes atrapalha a concentração para os jogos, principalmente durante a Olimpíada.
Eu não gasto meu tempo pensando em fazer stories, quando me dá vontade eu simplesmente vou lá e faço. Não fico preocupado em produzir conteúdo para as redes sociais. Quando estou em campeonato estou focado, concentrado. Tanto que o grande conteúdo que eu produzi durante a Olimpíada foi nos primeiros cinco ou quatro dias após a chegada na Vila. O Renan (Dal Zotto), técnico da seleção, sabe que nada mudou no meu jeito de agir na quadra por interação nas redes sociais. As coisas vem de uma forma muito natural, não fico pensando horas antes no que vou publicar.

Você é gay e bem aberto em relação à sua sexualidade. Chegou a enfrentar situações de preconceito no esporte?
Para ser bem sincero é quase impossível uma pessoa que faz parte da comunidade LGBTQIA+ falar que nunca sentiu nenhum tipo de preconceito. Pode ser um olhar, pode ser uma brincadeirinha que talvez não tenha sido tanto brincadeira. Infelizmente faz parte da nossa realidade, temos que lutar aos poucos para ir mudando isso. Se não viveu é porque talvez não tenha percebido. É a mesma coisa que uma pessoa preta falar que nunca viveu racismo. Talvez ela não tenha percebido, mas algum olhar deve ter passado despercebido.

E como você lida com isso?
Eu sou muito tranquilo, sou bem na minha. No meu ambiente de trabalho procuro ser muito profissional. Não fico de muita brincadeira, as minhas brincadeiras são exatamente ali nas redes sociais, no meu quarto. Não fico fazendo essas coisas dentro de quadra. Eu evito ao máximo dar munição para as pessoas falarem alguma coisa de mim. E se acontecer, tenho total capacidade de chegar na pessoa e conversar sobre. Se eu não acho a pessoa relevante, eu simplesmente ignoro e depois desabafo com o meu namorado ou com a minha família.

Você acha que no esporte em geral falta visibilidade LGBTQIA+?
Com certeza. Acho que essa Olimpíada serviu bastante como um molde pra gente ver o quão importante é isso, visibilidade. De ter um Douglas ali, que deu muita visibilidade não só à comunidade LGBTQIA+, mas também ao esporte de um modo geral. Os atletas também podem ser influencers. Isso traz patrocínios para o esporte. Não gosto de ser colocado numa caixinha onde só sou um atleta, não gosto que me coloquem em nenhuma bolha. Sou um atleta, sou streamer, sou youtuber, sou influencer. Eu posso ser tudo o que eu quiser. Acho que essa Olimpíada serviu muito pra isso, porque os atletas estavam muito mais engajados. Nas próximas acho que vai ser ainda melhor para mostrar que também temos uma vida, entendeu?

Você é de Santa Bárbara d’Oeste, que é uma cidade pequena. Como foi crescer sendo gay em uma cidade do interior?
Foi tranquilo em partes. Quando eu tinha 13, 14 anos acabava sofrendo preconceito sem ter muita noção do que estava acontecendo. Quando eu estava saindo de Santa Bárbara para jogar em São Paulo, no meu primeiro clube grande, o Pinheiros, as pessoas falavam que agora que eu iria jogar em um clube grande não poderia andar do jeito que eu andava, falar do jeito que eu falava. Já ouvi muito que tinha que esconder meu jeito de falar e andar para conseguir conquistas no vôlei. Mas quando cheguei em São Paulo também tinha gente que me dizia pra não fazer determinadas coisas senão eu nunca iria para a seleção. ‘Olha, se você andar desse jeito vai ser cortado na hora’. Consegui provar que eles estavam errados. Nunca fui cortado, fiz parte de todas as competições e tive uma caminhada muito vitoriosa na seleção. É uma das coisas de que me orgulho muito. Eu estava certo em sonhar. Nunca escondi quem eu sou e não tenho problema nenhum em dizer que sou gay para quem perguntar.

Como foi se abrir sobre isso com a sua família?
Eu nem tive que contar, fazer aquela reunião com o papai e com a mamãe e falar assim, ‘olha, eu gosto de beijar meninos’. Uma pessoa heterossexual não tem que fazer isso. Ela só vive a vida dela e está tudo bem. E foi assim comigo, exatamente do jeito que eu queria. Os meus pais obviamente, no começo, tinham dúvidas porque viam que eu era uma criança diferente das demais. Eles foram entendendo isso aos poucos até que chegou em um ponto, em 2016, que minha mãe sabia que eu estava namorando um menino, porque eu o levei várias vezes em casa. Aí ela me mandou mensagens dizendo que me amava do jeito que eu era e que minha família também me amava.

Falando um pouco sobre a Olimpíada de Tóquio. Você acha que a falta de público afetou o rendimento de vocês?
A gente já vinha jogando os campeonatos todos sem público. Pra mim não mudou muita coisa, eu já estava acostumado. Só a gente contra o adversário. Não tem gritaria, não tem torcida nem aquela energia boa que tivemos em 2016, infelizmente. Mas acho que faz parte da nossa realidade nos adaptarmos. Acredito que não tenha mudado muita coisa. Talvez, se a pandemia tivesse acontecido em 2016, quando jogamos em casa, o impacto teria sido maior.

O que faltou no time para o Brasil ganhar?
Jogar vôlei. Básico, não tem muito o que fazer. A gente teve jogos em que estávamos muito na frente, mas não conseguimos fechar o set. Não foi falta de treino nem falta de concentração, só faltou jogar e ser melhor do que os nossos adversários.

Em Tóquio, o Brasil teve sua melhor campanha na história dos Jogos Olímpicos. A que você atribui isso?
Talvez tenha sido um milagre! E eu falo assim porque me assusta ver o pouco investimento que temos no esporte Muita gente também ficou parada dentro de casa pela pandemia, eu pelo menos fiquei cinco meses sem treinar. Foi uma total superação, um orgulho e até um alerta para a galera abrir o olho e entender que se com pouco investimento conseguimos fazer tanto, imagina com patrocínio, com a preparação adequada.

Você acha que falta investimento nas categorias de base do vôlei?
Demais. As categorias de base claramente estão caindo, morrendo. Isso é um fato. E não é nem só nas categorias de base. O atual bicampeão da Superliga de vôlei, que é meu antigo time, não tem dinheiro para investir e teve que sair do campeonato. Teve toda a uma situação de dever salários aos jogadores… Quem joga na seleção brasileira, e naturalmente têm os contratos mais caros, é obrigado a sair do País. Simples assim. Eu optaria por ficar no Brasil, mas não dá. Aqui estou perto da minha família, dos meus amigos, só que infelizmente não tenho investimento suficiente pra ficar no Brasil, não posso ficar aqui perdendo dinheiro. A vida de atleta é muito curta. Tive esse boom todo na Olimpíada, mas vou ter que sair do meu País, não vou conseguir aproveitar isso aqui.

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