‘Já fui mais rancoroso’

‘Já fui mais rancoroso’

Redação

14 de dezembro de 2009 | 10h27

O engajado Milton Gonçalves estreia como presidente do Brasil nos cinemas em 2010 e coloca a política no divã

Em 1994 o ator e diretor Milton Gonçalves deu um tempo na carreira para tentar ser governador do Rio de Janeiro. Perdeu para Marcelo Alencar, mas teve uma votação expressiva, algo como 700 mil votos. Desde então não se aventurou mais na política de verdade. Já a da ficção vive cruzando seu caminho. Depois de interpretar um deputado corrupto na novela A Favorita, fez o papel do primeiro presidente negro da história do Brasil no filme Segurança Nacional, que deve estrear em 2010, na mesma época do longa sobre a vida de Lula. Para tanto, fez cenas dentro do Palácio do Planalto e foi o primeiro ator a gravar no interior do Aerolula. Antes do filme, Milton volta à TV na série Força Tarefa, da Globo, na qual interpreta um policial que investiga outros policiais. Nesta entrevista para a coluna, ele fala sobre política, racismo, TV e cinema com a mesma contundência dos tempos do Teatro de Arena.

Como foi ser o primeiro presidente negro do Brasil? Foi muito emocionante conhecer o poder da república por dentro e andar para cima e para baixo no Palácio do Planalto. O filme, aliás, foi feito antes de Obama ser eleito nos Estados Unidos. Foi uma coincidência feliz.

Gostaria de ser presidente de verdade? Por mais sabedoria que um candidato tenha para ser presidente, ele precisa ter conhecimento universal. Para presidir um país com medidas continentais como o Brasil, é preciso saber um pouco demais sobre tudo. Não dá para se fixar nas beiradas. Eu mesmo fui candidato a governador do Rio, em 1994. Ainda sou membro do PMDB. Fiz, junto com o Osmar Santos, a campanha pelas Diretas e fui âncora da campanha do Presidencialismo no plebiscito.

Lula tem esse conhecimento ou se fixa nas beiradas? Eu não gostaria de envolvê-lo nisso para não parecer campanha. Só acho que qualquer político tem que se preparar, seja qual for o cargo. É como você apresentar uma peça. Tem que ensaiar, saber sobre os personagens…

Tem que ter diploma? Se tiver, melhor. A complexidade dos assuntos internacionais é enorme. Não é possível aprender a ser presidente de um país na prática. Se não tiver preparo, você coloca em risco a vida de milhões de pessoas.

O filme ‘Segurança Nacional’ exalta instituições como a Abin, Polícia Federal, Exército e Presidência. Trata-se de um filme chapa branca? Não acho. Ainda mais, com o perdão do trocadilho, tendo um presidente negro (risos). Olha, nos EUA vivem fazendo filmes com a CIA, FBI e Casa Branca. Por que aqui não se pode falar da Abin e do Exército? Eles abriram as portas para gente.

Ainda é militante? Sou um membro em movimento. Já fui mais intransigente e rancoroso. Hoje estou mais calmo. Vejo as coisas de outro jeito.

Recentemente Taís Araújo e Manoel Carlos foram duramente criticados por uma diretora da CUT devido a cena em que ela recebe um tapa na cara de Lilia Cabral. O que achou disso? Ela é uma jovem de classe média, jornalista formada, amorosa, educada, gentil, sensível. Eu a chamo de minha terceira filha. Gosto muito dela e ela de mim. Não deixei de ligar para Taís incentivando-a no momento em que era questionada como atriz, não como negra, como alguém incapaz de fazer aquele personagem. Isso do tapa não me incomoda. É uma bobagem. Quando fiz A Favorita com ela, algumas pessoas também reclamaram. É direito dessa moça da CUT reclamar, mas que seja racional. Não venha me dizer que o papel de deputado corrupto está atrapalhando a luta dos negros. Isso não vou aceitar. Se disser que o papel está mal desenvolvido, tudo bem. Mas dizer que o negro não pode fazer vilão é demais.

É a favor da política de cotas para negros nas Universidades? Não é questão de ser a favor ou contra, só acho que as cotas não vão resolver nada. Isso é paternalismo. Nós somos 57% da população brasileira. Olha, se o STJ só tem um negro e não existe nenhum governador negro no Brasil é porque falta militância política nossa. É fácil ficar do outro lado da rua jogando pedra em vez de sentar na cadeira e ler, estudar, tentar entender filosofia.

Gosta do merchandising social de Manoel Carlos em suas novelas? Sou um cara das antigas. Minha formação é o Teatro de Arena de São Paulo. Para esse grupo do Boal, Vianinha, Guarnieri e Lima Duarte, a arte tem que ser encaminhadora e discutir as contradições do país. É claro que tem de ser de forma dramatúrgica, sem ser chato e panfletário. A novela tem sim que ter merchandising social. Só acho que ele, hoje, não tem mais o impacto de antes.

O Rio de Janeiro está preparado para receber a Copa do Mundo e as Olimpíadas? Não tem infraestrutura para isso. Não basta só colocar uma linha de ônibus e achar que o problema está resolvido. Colocaram lá no Pavão-Pavãozinho uma polícia pacificadora. O que aconteceu? Os traficantes desceram de moto e mandaram os lojistas fechar as lojas. E eles fecharam.

Em ‘Força Tarefa’ você faz um policial que investiga a polícia. Como é sua relação com os policiais? Sou o rei da PM daqui (risos). Eu animei muitas festas de policiais para arrecadar dinheiro para comprar cadeira de rodas. Minha relação é de afeto e de carinho. Em São Paulo, tenho um irmão e um sobrinho que são policiais. E uma sobrinha que é da polícia metropolitana.

Fez laboratório? O laboratório está na minha cabeça.

Não acha o ingresso de teatro no Brasil caro demais? Não acho que é caro, o povo é que ganha pouco. Custa muito dinheiro alugar teatro. Tem que dar 30% para o dono. A produção também é muito cara.

O que acha do patrocínio estatal para o teatro e da Lei Rouanet? Acho isso paternalismo, é passar a mão na cabeça. Não é legal. O que precisamos é ter espaços públicos de teatro, com preços razoáveis para se alugar.

Gosta da gestão de Juca Ferreira na Cultura? Ele é um só. Não tem como operar milagres.

Pretende voltar para a política? Não tenho vontade. Quando fui candidato a governador fiz campanha com R$ 10 mil no bolso. Cruzei o Rio dirigindo meu próprio carro e paguei minha gasolina.

Por Pedro Venceslau

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