‘Izabella Teixeira fez a diferença. Pude sentir orgulho do Brasil’

‘Izabella Teixeira fez a diferença. Pude sentir orgulho do Brasil’

Sonia Racy

14 de dezembro de 2015 | 08h53

Em junho deste ano, mais de 50 organizações da sociedade civil e da iniciativa privada se reuniram em torno de um mesmo objetivo: promover a economia de baixo carbono no Brasil. A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura nasceu com 17 propostas com o propósito de contribuir com o desenvolvimento econômico e, ao mesmo tempo, promover o País como líder global em economia sustentável. Entre os signatários dessa tarefa, está Gustavo Junqueira, presidente da Sociedade Rural Brasileira. De família tradicional agrícola, Junqueira defende que o setor tenha um outro olhar sobre o meio ambiente. E acredita em conciliar o crescimento do agronegócio com a preocupação ambiental.

O dirigente da SRB chegou ontem de Paris, da COP-21, que terminou sábado com acordo histórico limitando o aquecimento global em 1,5 grau Celsius. Além da determinação para que as nações ricas contribuam com US$ 100 milhões por ano aos países pobres. “Não se discutiram apenas aspectos ambientais. Foi travado também um grande debate com as melhores cabeças que buscavam por modelos econômicos que redirecionem a economia mundial para uma nova onda de investimentos na qual seja possível haver retorno financeiro e uso mais eficiente dos recursos”, destacou em entrevista à coluna. “Foi um acordo audacioso. Em termos de dinâmica econômica podemos estar diante de uma nova ‘descoberta da America’ conseguindo conciliar produção e proteção”. E mais: Junqueira faz um elogio para a ministra Izabella Teixeira, do Meio Ambiente. “Ela realmente fez a diferença e pude sentir orgulho do Brasil. Senti que o País e o setor agrícola estão claramente no centro das soluções.”

Foto: Iara Morselli/Estadão

Foto: Iara Morselli/Estadão

O setor do agronegócio é talvez o de menor interferência do governo, mas seria isso percebido pelos agricultores como “falta de prioridade”? Segundo Junqueira, com a falência do Estado no fim dos anos de 1980, o controle da União sobre o setor foi reduzido. Os melhores produtores, então, se organizaram, as cooperativas se fortaleceram e as grandes empresas surgiram. “O Brasil do agronegócio moderno cresceu à margem da mão estatal, com baixíssima regulação e grandes investimentos”, ressalta.

Foi, diz ele, justamente esse setor que financiou por muitos anos toda a industrialização brasileira e a âncora verde na implantação do Plano Real. Nos últimos anos, o governo tem tentado ocupar o espaço perdido. “Mas infelizmente, como temos acompanhado, o posicionamento ideológico das lideranças petistas custou muito caro ao Brasil”, analisa. A seguir, os principais trechos da conversa.

Terminou a COP-21 em Paris. O que achou das conclusões?

Foi um acordo audacioso e se for firmemente perseguido por todos os países podemos ver a era de um novo nascimento, a era da descoberta de uma ‘nova América’ conciliando produção e proteção. O Brasil saiu fortalecido e a ministra Izabella Teixeira representou muito bem o Pais. Uma verdadeira estadista Ela realmente fez a diferença e pude sentir orgulho do Brasil. Senti que o País e o setor agrícola estão claramente no centro das soluções. Mas precisamos ser sensatos para que o romance não ofusque o desafio. As metas do Brasil, definidas recentemente, são ambiciosas se consideradas isoladamente. Mas somente serão factíveis se a gente incluí-las na construção de novo projeto para o País. O desafio principal é estruturar mecanismos financeiros. Em todas as conversas que tive em Paris , vi um interesse enorme em transformar o agronegócio brasileiro em referência mundial. Há, porém, obstáculos em nossa governança. Sem regras claras, o custo de capital fica inviável e os investidores não encontram a porta de entrada. Não temos segurança jurídica. Para se ter uma idéia, só a implantação do Código Florestal prevê investimentos de R$ 150 bilhões a R$ 200 bilhões.

Há mais de duas décadas, países fracassam na tentativa de chegar a um acordo único para reduzir as emissões. Desta vez o que foi diferente?

Os países mudaram suas agendas e chegaram a Paris com propostas firmes. Alinhadas à redução dos spreads entre os projetos para investimentos em energias fósseis e renováveis, o foco das discussões passou a ser na solução e não no problema. Por isso é preciso lembrar que o caminho da agricultura de baixo carbono em escala mundial é multifacetado e espinhoso. É primordial definir uma matriz única de critérios para que se possa comparar os sistemas de produção entre os países. A pergunta que fica é a seguinte: o que, de fato, é produzir de maneira sustentável?

Historicamente os países desenvolvidos emitiram muito mais gases de efeito estufa para alcançar seu atual estágio de desenvolvimento. Como o Brasil pode avançar ao mesmo tempo que atua para reduzir as emissões?

Precisamos trabalhar a busca por ganhos de produtividade e adaptar nossa economia para um uso mais eficiente dos recursos. Se o agronegócio brasileiro liderar esse processo, teremos legitimidade para influenciar outros países.

De onde acha que virá o financiamento? Do Estado, dos proprietários de terras, das empresas consumidoras de matérias-primas ou de novos impostos?

O volume de recursos que estamos falando é superior à capacidade dos proprietários de terra em se autofinanciar. Por isso os recursos precisarão vir de todos os lados, assim como a produção baseada em fontes fósseis deverá ser melhor precificada. Em última instância, toda a sociedade arcará com os custos da transformação da economia no curto prazo para conseguir benefício no médio e longo prazo.

Para cumprir as metas da COP-21, o Brasil depende de inovações também na agropecuária, já que somos considerados um dos maiores desmatadores de florestas e emissores de carbono. O setor tem feito algo para interromper a devastação florestal?

O foco não é apenas cumprir metas, mas empreender um processo baseado nas metas definidas. O Brasil discute sustentabilidade frequentemente, e o agro já mostrou que tem agilidade de adaptação. De 2006 para cá, reduzimos o desmatamento anual em 85%.

Em outros países o agronegócio é subsidiado. Vocês sentem falta da ‘mão’ do Estado?

Discuti isso em vários fóruns na Europa. Apesar de o Brasil contar com taxas de juros abaixo do mercado, esta ajuda é infinitamente menor em comparação com a praticada lá fora. Saímos na frente porque temos escala e competitividade. Defendo, por isso, que o debate seja feito em torno da integração que englobe a discussão do clima e do comércio.

Você defende a abertura do Brasil para investidores internacionais, posição distinta à do governo Dilma. É possível aumentar a competitividade do setor sem exterminar as conquistas sociais?

Sem dúvida. Minha visão não é contraponto aos avanços sociais. Mas eles, por si só, não são sustentáveis nem acabam a desigualdade. A geração de empregos, por meio do crescimento e ganhos de produtividade, é o que garante melhores condições sociais. O governo precisa passar a acreditar no mercado como veículo de modernização e de diminuição das desigualdades. O agronegócio do País é altamente dependente de capital que, em sua maioria, virá de investidores estrangeiros e, consequentemente, trará grandes projetos para o Brasil.

O que acha da tese da ministra Kátia Abreu de que o governo deve trabalhar para viabilizar a criação de uma grande ‘classe média’ rural? Em que medida é possível replicar o que Lula fez nas áreas urbanas?

Tenho grande respeito pela ministra. Ela tem apresentado o Brasil a outros mercados e países de maneira muito prática e objetiva. Mas é importante considerar que temos aqui uma classe média rural já há muito tempo. Não precisamos da interferência do Estado para criá-la. Além disso, o fator de sucesso do agronegócio brasileiro não é restrito à produção em larga escala das grandes companhias. Compreende, principalmente, os produtores médios, que se arriscam diariamente na aplicação de tecnologias inovadora e, muitas vezes, ‘não testadas’.

Você defende a consolidação dos Ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário, assim como o fim dos programas de assistencialismo, tanto no campo como na cidade. Acha possível solucionar a desigualdade social no País sem esse tipo de atuação do Estado?

A atuação do governo não pode deixar de existir, mas precisa ser modificada. O uso do dinheiro público deve ser urgentemente melhor gerido. A existência de dois ministérios é uma loucura. Gestão por prioridades exige uma hierarquia de objetivos, alinhamento estratégico e cooperação efetiva entre os órgãos de execução. O Brasil já possui os requisitos para ser um “megaplayer” no agro mundial. No entanto, esse potencial só será efetivo se o País tiver uma gestão focada na eficiência do sistema governamental, de cooperativas, das associações, dos produtores, das cadeias e do comércio.

Mesmo com redução de 45% para 15% da população que vive no campo, o agronegócio aumentou sua importância no PIB. O setor é reconhecido e bem representado na esfera política?

Acredito que sim. O agro está presente em todos os municípios brasileiros, principalmente em grandes centros de tecnologia como o ITA, em São José dos Campos (SP), onde se desenvolve pesquisa ligada à ciência espacial para aplicação nesse setor. Um exemplo disso é o fato de que, hoje, um grão de soja tem mais tecnologia embarcada do que um chip de celular. O agro está demandando novos engenheiros, arquitetos, economistas, cientistas. Mesmo com menos gente no campo, o setor ganha em relevância na sociedade.

O setor enfrenta a mesma carência de lideranças empresariais e cívicas que caracteriza o resto da sociedade brasileira?

Existe uma saudável rede de lideranças atuantes nos seus respectivos segmentos. Elas precisam, entretanto, pensar na construção de um Brasil maior, sobretudo, tendo à frente os novos desafios que devemos enfrentar a partir da instauração do processo de impeachment da presidente Dilma. A tarefa é árdua, porque não há uma convergência de ideias, nem mesmo um projeto para o Brasil do futuro. O País precisa urgentemente congregar pessoas sérias e dispostas a se engajar no serviço público para reformar o Estado e liderar os brasileiros por um caminho desafiador. Esse grupo deve trabalhar sob o princípio de que liderar não é impor interesses, mas convencer as pessoas de que sacrificar algumas coisas hoje trará um benefício maior para o todo no futuro. A palavra-chave é confiança.

O ajuste fiscal de Joaquim Levy vai impactar o setor?

Sim. O efeito da má gestão das finanças públicas é a diminuição da disponibilidade de recursos. O ministro faz um trabalho importante e necessário. Mas é muito difícil para quem quer que seja quebrar o círculo vicioso do assistencialismo ao qual a sociedade brasileira se acostumou. Levy tem jogado luz sobre problemas históricos, mostrando à população o tamanho do rombo nas nossas contas. O desgaste consequente dessa transparência é compreensível. Não é culpa do ministro a falência do Tesouro, nem a falta de dinheiro.