‘Investimento na cultura reverte em saúde’, diz gestor do Itaú Cultural

Marcela Paes

03 de abril de 2020 | 00h50

Eduardo Saron/Foto: Iara Morselli

 

Fundado há 33 anos, o Itaú Cultural segue um caminho de retomada de suas origens após a pandemia da Covid-19. Pensado originalmente para ser uma plataforma online, a instituição agora voltou grande parte de seus esforços para a produção de conteúdo virtual. Para Eduardo Saron, gestor do IC e diretor do MAM, medidas como alterações nos mecanismos da Lei Rouanet e Proac, além de uma taxa menor de juros nas linhas de financiamento especiais para economia da cultura – direcionada a pequenos produtores – são medidas que podem ajudar o setor cultural durante o período de isolamento. Leia abaixo a entrevista.

Como vocês estão se organizando no Itaú Cultural? A produção do conteúdo agora se voltou totalmente para o virtual?

A gente está fazendo uma guinada para reencontrarmos com mais intensidade a própria origem do Itaú Cultural. Se você for pensar, a origem do Itaú Cultural há 30 anos era, o desejo do Olavo Setúbal era de que fosse uma grande plataforma virtual. Tudo começou inclusive com a base de dados virtuais, que hoje é a enciclopédia de arte e cultura brasileira. Já estávamos nesse processo de aumentar os produtos virtuais e nesse momento tudo se acelerou.

A produção do conteúdo atual agora se voltou totalmente para o virtual?

Temos conteúdo virtual a cada segundo, cada momento é um novo conteúdo virtual. E há um ano também já fazíamos bastante home office. Claro, nem tudo dá pra ser feito à distância. Tem coisas que você precisa de pesquisa de campo, por isso já estamos adiando coisas para 2021.

O que, por exemplo?

Ainda estamos vendo. As ocupações (projeto que exibe acervos de artistas e pensadores brasileiros), por exemplo, vamos ter que adiar… É um projeto que precisa de pesquisa de campo, manejo de documentos… E não só a pesquisa, mas higienização, organização desse material, digitalização. A da Tatiana Belinky seria no final do ano e ficou pra 2021. Mas, na outra mão, aumentamos muito a produção virtual.

Já existem novos projetos pensados exclusivamente pro virtual?

Na semana que vem vamos lançar uma sequência de micro editais. Os artistas vão ter a possibilidade de escrever conteúdos que possam fazer virtualmente, como uma apresentação circense em sua própria casa, uma leitura dramática. Teremos recursos de até R$ 10 mil por projeto. Teremos editais para música, para artes cênicas educação cultural para crianças. Isso tudo de maneira virtual. O público poderá ver ao vivo ou depois no sites e nossas redes sociais. Já tivemos aumento nos acessos do site.

Vocês já notaram aumento nos acessos do site?

Sim. Ainda não tenho esse comparativo porque nós estamos na primeira quinzena, mas o número de acessos no nosso site aumentou bastante, também o número de acessos à enciclopédia do Itaú Cultural… Quando fecharmos o primeiro mês após o isolamento, vamos conseguir um comparativo mais preciso do número de acessos após a quarentena…

A forma como as pessoas consomem cultura vai mudar após esse período?

Sim. Eu acho que nada mais será como antes. Acho que o mundo artístico vai ter que se reposicionar para defender a cultura e a arte. Investir em cultura significa a longo prazo, menos necessidade de recursos para segurança pública, menos necessidade de recursos para saúde, para educação. Já existem evidências disso.

Isso não vai enfrentar barreiras na sociedade? Antes da pandemia recursos para o setor cultural, como a Lei Rouanet, já eram criticados.

A gente precisa fazer esse movimento. Quanto mais conseguirmos provar que cultura impacta questões como saúde, segurança e educação, mais teremos apoio. O ser humano precisa da poética, precisa da imaginação. É isso que nos diferencia. É isso que nos faz seres humanos. Mas num momento de tamanha carência de recursos, precisamos poder provar isso de maneira científica.

Qual seria a ligação direta entre a cultura e esses aspectos citados?

Uma análise de custo-benefício de ser investir em arte foi feita a partir do programa de prescrição social Artlift, na Inglaterra. Foram contadas as consultas no ano anterior e no ano seguinte após um artista ter visto pacientes que sofriam de depressão e ansiedade; o resultado mostrou que as taxas de consulta caíram 37% e as taxas de hospitalizações em 27%. O investimento na cultura reverte em saúde.

Como avalia as medidas que o governo federal está tomando para ajudar o setor cultural neste momento?

Foram lançadas linhas de financiamento especiais para economia da cultura, mas a taxa de juros poderia ser menor para o micro produtor, que é o iluminador, a pessoa que está no backstage e até artistas menores. Esses precisam de recursos para seu dia a dia. O Proac e a Lei Rouanet também poderia permitir alterações nos projetos na era do corona, como aumentar o porcentual de recursos captados para a empregabilidade de pessoas. Muitos editais, por exemplo, também não previam atividades feitas virtualmente. Outra questão fundamental seria a liberação dos recursos da loteria pro Fundo Nacional de Cultura. São cerca de R$ 400 milhões por ano. A secretária da Cultura, Regina Duarte, pode, por exemplo, lançar editais com esses recursos da loteria, que não são recursos do Tesouro.

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