‘Incomoda ver minimização da doença’, diz médica de UTI que teve trabalho quadruplicado

‘Incomoda ver minimização da doença’, diz médica de UTI que teve trabalho quadruplicado

Marcela Paes

08 de abril de 2020 | 00h59

MARIANA PERRONI. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Médica intensivista desde 2008, Mariana Perroni já trabalhou em todo tipo de hospital: de pequeno e grande porte, no sistema público e no privado, no Brasil e fora dele – inclusive em uma situação de catástrofe, como no Haiti após o terremoto de 2010.   Nem toda a experiência no campo fez com que Mariana já tivesse visto algo parecido com a pandemia da Covid-19. “Tem sido usual chegar ao plantão na UTI e me deparar com todos os pacientes entubados, o que é algo que eu, sinceramente, não me lembro de ter vivido’, explica. Leia abaixo a entrevista com a médica que teve o tempo que passa no hospital quadruplicado desde o início de março.

 

Em que aspectos seu trabalho mudou desde o início da pandemia? 

Com o aumento do número de pessoas infectadas pelo coronavirus, novas UTIs estão precisando ser disponibilizadas de forma suprir a demanda. Em todos os hospitais. Consequentemente, a mesma equipe precisa cobrir mais dias e horários. Em diversos hospitais, já existem três escalas de plantão: a usual, a de contingência e a de “contingência da contingência”(esta última para substituir colegas que se infectam e são afastados ou que fazem parte do grupo de risco para desenvolver formas graves da doença). O tempo que passo na UTI quadruplicou em março em comparação a fevereiro.

 Existe a ideia de que o número de pessoas infectadas é muito maior que o divulgado e muitos casos estão sendo subnotificados. Isso faz sentido?

Definitivamente. Ainda não temos testes suficientes para diagnosticar todos os casos. Por conta disso, os testes disponíveis tem sido reservados aos casos mais graves. Pessoas com quadros suspeitos e sintomas mais leves estão sendo orientadas a ficar em casa, em isolamento, até se recuperarem. Ao mesmo tempo, pessoas assintomáticas acabam transmitindo sem nem saber. Dessa forma, o tamanho do problema acaba subestimado em nosso país.

 

Pessoalmente, como você enxerga esse momento? Está lidando bem com a situação?

 A especialidade que eu escolhi por amor tem sido uma das mais requisitadas e visadas no contexto atual.  Por mais cansativo e desafiador que seja, é extremamente gratificante estar de N95 usando meu conhecimento à beira do leito, em prol do chamado mais intenso da minha carreira e, possivelmente, da minha vida. Para tratar e confortar quem precisa.

É reconfortante ter o reconhecimento da população?

 O sacrifício é enorme, mas, ao mesmo tempo, nada disso nos torna super-heróis. Eu e todos os profissionais da saúde na linha de frente também somos pessoas vulneráveis à infecção. Mas somos comprometidos e estamos fazendo nosso trabalho. Então, por mais que as palmas na janela sejam emocionantes e nos motivem, o que queremos mesmo é a certeza de que vamos ter equipamentos de proteção e ferramentas para conseguir continuar fazendo nosso trabalho da melhor forma que pudermos ao longo das próximas semanas.

O que está sendo mais difícil pra você neste período?

 Em um sentido mais macro, todas as vezes que assisto às notícias e atualizações sobre a pandemia na Itália e nos Estados Unidos, tenho me sentido dentro daquele livro do Charles Dickens que mostra para o personagem principal o “fantasma do natal futuro”, se ele continuar se comportando da mesma forma. Esse vai ser o futuro do Brasil, se as coisas continuarem como estão.

E no dia a dia do trabalho, convivendo com a situação dos doentes de perto?

O que mais me afeta é perceber que essas pessoas estão passando por isso sozinhas e assustadas em seus leitos. E distantes das pessoas que mais importam para elas. Posso tentar fazer meu melhor para ajudar a confortá-las, mas não é igual. Os óbitos, nessas condições, dilaceram qualquer coração.

Quais são as particularidades da pandemia no Brasil?

Percebo que já estamos ficando sobrecarregados sem que ainda tenhamos chegado no pico da curva de casos.  E que nosso país vai ser um dos primeiros a viver a pandemia em contexto de desigualdade social. Afinal, o SUS tem 1/3 de todos os leitos do país e é responsável pela Saúde de 2/3 da nossa população.

Muitos profissionais foram infectados pelo vírus. Teme que isso aconteça com você?

Sem dúvida. Tenho amigos, colegas e professores brilhantes entubados. Tanto jovens ser comorbidades, quanto idosos saudáveis. Apesar de não faltarem, alguns EPIs (equipamentos de proteção individual) já estão sendo racionados nas grandes instituições. E, como falei, ainda nem chegamos no pico da curva de casos.  Felizmente, as únicas coisas maiores que a tensão são o senso de responsabilidade, a empatia e a vontade de ajudar quem precisa em um momento tão crítico para a saúde mundial.

O presidente já se referiu à doença como uma ‘gripezinha’ e muitos são a favor da interrupção do isolamento social. Como avalia a doença em termos de gravidade?

 Sem dados, somos apenas pessoas com opiniões. E eu me preocupo demais quando opiniões se sobrepõem à ciência e à Medicina Baseada em Evidência e acabam fomentando declarações questionáveis. Pois o saldo disso são vidas. Incomoda muito ver a minimização sem embasamento da doença e a falta de empatia que é vista por meio de declarações do tipo “ah, morreu mas era diabético…”,  “morreu mas tinha asma…”ou “morreu mas era idoso e tinha doença do coração”. Além da crueldade e falta de empatia extremas, isso deixa de lado o fato de que 45% de nossa população tem, pelo menos, uma doença crônica.

 Pode dizer que aprendeu algo com o coronavírus?

Acho que o coronavírus surgiu como algo assustador em uma época que já recebíamos uma enxurrada notícias ruins no país e no mundo. Quase a gota d’água para tudo extravasar e escancarar verdades desconfortáveis a respeito do modus operandi dos seres humanos e das fraquezas dos sistemas de saúde ao redor mundo: imaturidade das cadeias de suprimento frente a emergências globais, falta de informação integrada e transparência entre os países, processos analógicos de vigilância de doenças e infra-estrutura insuficiente, dentre incontáveis outros exemplos. Assistimos várias formas de lidar com isso tudo: xenofobia, pânico, negação e autoritarismo. Nada funcionou. Exceto agir pautado na Ciência e nos dados, ter ponderação e empatia. Muita empatia.

 

 

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