Hora de fazer as pazes

Sonia Racy

28 de agosto de 2012 | 01h01

Fascínio, inteligência, paixão, sensibilidade. É com essas palavras que Heitor Martins descreve sua relação com a arte. Mas nem sempre foi assim. O consultor financeiro assumiu o comando da Fundação Bienal em meio a uma grave crise e viu as contas da instituição serem bloqueadas judicialmente – o que ameaçou a continuidade da mostra.

Em entrevista exclusiva à coluna, em sua casa, no Morumbi, Heitor disse que é hora de fazer as pazes com o passado. A 30ª edição da Bienal de São Paulo, com 3 mil obras de 111 artistas, abre as portas para convidados dia 4 de setembro – e, dia 7, para o público.

Como foi assumir o comando da Fundação num momento de crise?
Uma instituição com 60 anos tem todas as condições de se reinventar. Foi com essa mentalidade que assumimos. As pessoas questionavam se deveria ter Bienal, havia uma dívida financeira grande. Sempre olhamos para isso com naturalidade e com a convicção de que uma instituição com essa tradição ia receber apoio para seguir adiante. Nossa expectativa se confirmou. A Bienal recebe apoio de toda a sociedade.

A Fundação saiu do vermelho?
A situação hoje é muito mais confortável. A Bienal não tem nenhuma pendência – a dívida era de R$ 5 milhões. Saneamos uma série de passivos e criamos uma reserva de caixa. Existem pendências relativas à prestação de contas do passado – os convênios que levaram ao bloqueio. Esses passivos serão todos solucionados, mas isso não se dará da noite para o dia. A Bienal vai fazer as pazes com esse passado.

Houve prejuízo para a realização desta 30ª edição?
Sem dúvida, houve um prejuízo de imagem. A gente não precisava disso, tirou o foco da diretoria, que teve de apagar esse incêndio e explicar à sociedade o que estava acontecendo. Por sorte, tínhamos começado, muito antes, o processo de preparação. A Bienal vai abrir na data prevista.

Quais serão os destaques?
Temos 111 artistas na mostra, dos quais 100 têm obras no pavilhão. Esta edição traz um conjunto representativo da produção desses convidados. É quase como se fossem minirretrospectivas. O espectador entenderá a trajetória da produção daquele artista e verá como um influencia o outro. Além disso, 76% deles estão com obras inéditas, muitas produzidas especialmente para a Bienal. Isso traz um frescor único e muito vigor.

Como avalia a gestão da ministra da Cultura, Ana de Hollanda?
Não cabe a mim fazer avaliação. O que posso dizer é que a Bienal tem uma relação muito próxima com o Ministério da Cultura. Temos uma parceria muito abrangente. Isso transcende as gestões, é uma relação institucional.

Não houve estremecimento por causa do bloqueio de recursos?
Não. Mesmo com esse episódio continuamos com um diálogo muito aberto, com projetos conjuntos. As pessoas confundem um pouco as circunstâncias – a questão da prestação de contas com essa relação. Durante todo esse problema, estávamos trabalhando juntos para preparar a Bienal de Veneza, por exemplo. Essa relação é muito mais profunda do que os percalços do dia a dia. Nem sempre os pontos de vista são os mesmos, mas é como um casamento. A relação é muito saudável. /MIRELLA D’ELIA

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