‘Homem não gosta de mulher que seja só bonita, mas de mulher viva’

‘Homem não gosta de mulher que seja só bonita, mas de mulher viva’

Sonia Racy

05 de maio de 2014 | 01h00

Foto: Daniel Teixeira/Estadão

A atriz estará de volta à telinha no remake de O Rebu – na pele de uma investigadora nada sexy. Depois de rodar quatro longas seguidos, ela pensa em ser mãe outra vez.

Com três Celestes (todas sexy) no currículo – a primeira na minissérie Dona Flor e Seus Dois Maridos; a segunda no folhetim Fina Estampa; a terceira, o furacão que turbinou a audiência de Amores Roubados –, Dira Paes não quer saber de férias. A paraense tem por hábito enfileirar um trabalho atrás do outro. Em meio às gravações do remake de O Rebu, na TV Globo – com estreia prevista para julho – , ela conta quatro filmes prontos, que devem ser lançados ainda este ano.

A vida da atriz tem sido assim desde a adolescência, quando conseguiu o papel da índia Kachiri na produção internacional A Floresta das Esmeraldas, de John Boorman, em 1985. A partir daí, já vivendo no Rio, ganhou os palcos e a telinha – além de prêmios de público e crítica.

Às vésperas dos 45 anos, mãe de Inácio, confessa uma dúvida: não sabe se tentará um segundo filho. “Já pensei em adotar”, revela. “A vida coloca as possibilidades, e você tem de saber se está pronta para algumas responsabilidades.”

Ela falou com a coluna por telefone, de sua casa, no Rio. A seguir, os melhores momentos da conversa.

Você passou a infância em Abaetetuba?

Não. A família morava em Belém, e minha mãe, grávida de oito meses, foi passar um fim de semana em Abaetetuba. Acabei nascendo lá, em casa, sem parteira – uma prima de 16 anos fez o parto. Fiquei 20 minutos ligada ao cordão umbilical. Foi um parto com requintes de humanização (risos). Até hoje não sei meu ascendente, porque ninguém sabe se o sol já tinha nascido. Foi um domingo entre 5h30 e 6h30. Fui criada em Belém, sexta filha de sete irmãos – 4 homens e 3 mulheres.

Qual foi a reação quando você falou que ia ser atriz?

Meus irmãos mais velhos sempre foram muito inteligentes, a cobrança era grande. Mas sempre tive um jeito diferente de me comunicar. Fazia teatro no colégio. Um dia, um professor de arte comentou: “Está acontecendo um teste para uma superprodução. Acho que é o seu perfil”.

Era o filme do John Boorman, A Floresta das Esmeraldas?

Era. Eu já falava inglês, o que ajudou – aliás, o ensino em Belém é muito bom, viu? Até pelo posicionamento do Pará, a gente tem um forte olhar para o exterior. Estava com 14 para 15 anos. Fiz o teste, passei e ganhei um dos principais papéis femininos, o da índia Kachiri.

Foi um estouro na Europa.

Foi, na França principalmente. Era para eu ter participado do Festival de Cannes, mas o convite chegou atrasado. Naquela época, 1985, acho que nem havia fax ainda, né? A partir do filme, ganhei minha independência financeira. Ou seja, dinheiro para comprar uma casa e começar a construir uma vida.

Sempre quis ser atriz?

Primeiro eu queria ser engenheira. Se tivesse ficado em Belém, teria feito engenharia – meu irmão mais velho é engenheiro. Queria ter uma profissão masculina, encaminhar obras, gosto mais de pensar na estrutura do que na decoração.

Você foi sozinha para o Rio?

Dei sorte. Minha irmã médica estava no Rio com a família, fazendo residência no Hospital da Lagoa, quando resolvi me mudar. Então, tive esse carinho. Consegui uma vaga para estudar na Casa das Artes de Laranjeiras e, dois meses depois, fui chamada para fazer Ele, o Boto, do Walter Lima Jr. – meu primeiro filme brasileiro.

Fazia teatro também?

Estava começando. Minha primeira peça foi Capitães da Areia, do Roberto Bomtempo. Era assistente e também atuava. Quando houve a retomada do cinema brasileiro, em meados dos anos 90, minha carreira ganhou novo fôlego – porque quando a Embrafilme acabou, em 1990, achei que teria de arrumar outra coisa para fazer, dar aula de artes cênicas ou me tornar produtora.

A partir da retomada você passou a colecionar prêmios.

Os projetos voltaram a acontecer. Ganhei o Candango por Corisco & Dadá (1996) e por Anahy de las Misiones (1997). Esse filme também me rendeu o prêmio da APCA (1998). Graças a Deus foram muitos.

Prefere drama ou comédia?

Prefiro dramas e tragédias no teatro. Gosto muito de comédia na TV. E, no cinema, tudo é permitido. Agora, fazer comédia é muito mais difícil do que drama. Você depende do outro – o que é sempre um risco. Se for um monólogo, depende da resposta do público.

Aos 44 anos, imaginava que Celeste, de Amores Roubados, seria tão aclamada?

Imaginei que a minissérie seria um grande trabalho, mas admito que não tinha ideia de que a Celeste faria o público se sentir tão atraído. Uma atração fatal. Impossível mesmo adivinhar. Até porque, diferentemente do teatro, em que você tem uma resposta instantânea, na TV, depois da gravação, você entrega seu personagem a uma série de outras etapas de edição.

As cenas de nudez e sexo foram um desafio?

O ator tem de se despir metaforicamente sempre que encara um personagem. No meu caso, ali, também literalmente, biblicamente (risos).

Te chateou ouvir coisas do tipo “ela está ótima para a idade”?

Acho um preconceito. Não comigo, mas com as mulheres. Muitas amigas minhas estão ótimas! Algumas, melhores do que eu. A gente está vivendo outro momento. Olho a Helen Mirren, a Meryl Streep, e quero aquilo pra mim. Olho para a Gloria Pires, a Marilia Pêra. Tantas atrizes maravilhosas. São mulheres interessantes, atemporais. Isso não é só corpo, é alma. O que eu senti é que ninguém soube explicar o novo olhar sobre mim. Aquele corpo estava em Salve Jorge. Acho que é isso: um corpo a serviço de um personagem. Até porque, acho que homem não gosta só de mulher bonita, mas de mulher viva. É preciso ter algo além da barriga negativa, senão não há sobrevivência.

O que gostaria que o próximo presidente fizesse?

A reforma política. É urgente. Acho que a Dilma é uma pessoa séria e comprometida, mas sofre por ter as mãos atadas. Até porque as mudanças profundas não são pró-eleição. Por exemplo: o que mais precisamos, além da reforma política, é de uma reforma agrária. E estamos menos do que engatinhando em ambas.

Como está se preparando para sua personagem no remake de O Rebu?

Tive aula de tiro (ela interpreta uma inspetora de polícia) e de defesa pessoal.

É uma personagem sexy?
Não, absolutamente.

Com seis irmãos no currículo, pensa em ter mais filhos?

Tive o Inácio com 39 anos, naturalmente. Achava que não conseguiria engravidar. Acabou sendo como nas novelas. Abri o exame e descobri: “Estou grávida!”. Na sequência, tive outras duas gravidezes que não foram adiante. Aí fiz uma tentativa de fertilização, que não deu certo. Estou reavaliando minha vida. É um pouco querer muito da natureza, mas outras coisas podem acontecer. Nunca descartei a opção de adotar. A vida coloca as possibilidades, e você tem de saber se está pronta para algumas responsabilidades. /DANIEL JAPIASSU

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