‘Hoje em dia as pessoas dividem muito pouco as suas fragilidades’

‘Hoje em dia as pessoas dividem muito pouco as suas fragilidades’

Sonia Racy

09 de maio de 2016 | 01h00

IARA MORSELLI /ESTADÃO

IARA MORSELLI /ESTADÃO

Em cartaz com a peça ‘Os Rea-listas’ (da qual também é produ-tora), Debora Bloch reflete sobre relacionamentos e conta como é interpretar uma mulher que cresceu sem amadurecer

Foi em uma viagem a NY , para visitar a filha que estuda cinema, que Debora Bloch viu a peça Os Realistas. O texto de Will Eno, definido por ela como “uma partitura para os atores”, logo a atraiu. A atriz comprou os direitos e há dois anos começou a produzir o espetáculo, em cartaz no teatro Porto Seguro.

A peça – que fala sobre a forma como dois casais lidam com a doença de um dos parceiros– tem tido um bom retorno do público. O motivo, segundo a atriz, é a qualidade do texto, que trata de questões difíceis com humor e bons diálogos. “Esse texto toca em questões com muita sensibilidade. Questões comuns a todos nós, mas não tão fáceis de lidar”, contou a atriz à repórter Marilia Neustein, enquanto se arrumava em um hotel em São Paulo.

Para Debora, as pessoas têm muita dificuldade de compartilhar suas fraquezas e o espetáculo joga luz justamente sobre essa questão. “É uma peça na qual os personagens compartilham seus medos e, ao mesmo tempo, tentam esconder. Hoje em dia não compartilhamos muito as nossas fragilidades… A peça, enfim, é sobre as relações e o que você não controla na vida.” Abaixo, os melhores trechos da conversa.

Você viu a peça, pela primeira vez, nos EUA. Por que resolveu montar aqui?
Eu já conhecia esse autor pela companhia do Felipe Hirsch e do Guilherme Weber, a Sutil Companhia de Teatro. Fui visitar minha filha que está morando em Nova York e assisti a uma de suas peças, em um teatro bem pequeno. Por acaso, eu estava lá na estreia, ele estava também, e falei com ele. Me apresentei, e trocamos uns e-mails. Minha ideia inicial era fazer outra peça, que tinha 14 atores em cena. Mas, depois que vi essa, adorei o texto. Eram só quatro atores e resolvi montar. Chamei o Guilherme – que tinha muita experiência com esse autor – e começamos a produzir, dois anos atrás.

Por que também produzir?
Eu produzo desde sempre porque é uma maneira de você ter uma autoralidade sobre o seu trabalho. É você quem escolhe o texto que quer fazer, o personagem, chama as pessoas com quem quer trabalhar, participa do processo todo. Quando você trabalha na TV ou no cinema, é peça de uma grande engrenagem – que também é uma experiência legal, mas você tem menos autoralidade, porque está a serviço de outra coisa.

A peça trata de alguns desafios dos relacionamentos contemporâneos, como egoísmo, alteridade, amor.
Sim. A peça é sobre dois casais que se tornam vizinhos e que têm muitas coisas em comum. É sobre esses casamentos, mas não só isso. É uma peça sobre pessoas comuns, ordinárias, diante do extraordinário. É um texto sobre amor, relacionamento, mas também sobre incompletude, sobre a dificuldade de confrontar a possibilidade da morte. E questiona como cada um de nós lida com isso. O Will Eno diz que é uma peça na qual os personagens compartilham seus medos e, ao mesmo tempo, tentam esconder. Hoje em dia não compartilhamos muito as nossas fragilidades… A peça, enfim, é sobre as relações e o que você não controla na vida.

‘A PEÇA MOSTRA A DIFICULDADE

DE SE COMUNICAR

EM UM CASAMENTO’

Há uma noção, hoje, segundo a qual os casais são menos tolerantes com as fragilidades um do outro. Você concorda?
Sim, concordo. O Will Eno fala sobre isso no texto do programa da peça. É também uma peça sobre isso: pessoas compartilhando seus medos, suas fraquezas. Hoje em dia dividimos bem pouco nossa fragilidade. As pessoas estão compartilhando apenas a alegria. Hoje parece que estar triste é sinal de fraqueza.

Acredita que os relacionamentos amorosos vivem mesmo “tempos líquidos”, ou seja, não existe uma necessidade de aprofundar os vínculos?
Acredito que a necessidade existe, sempre existirá, somos feitos dessa necessidade. Mas vejo as pessoas com medo de aprofundar os vínculos.

A peça também reflete sobre a alteridade. Acredita que essa prática está em baixa?
Não sei bem dizer. Mas é verdade que vivemos tempos de pouco olhar para o outro…

Foram esses aspectos que mais a atraíram no texto?
O que me atraiu no texto foi ser uma partitura para os atores. Tem muito humor, os diálogos são brilhantes, e, ao mesmo tempo, muita coisa é dita não com palavras. O texto toca nas questões com muita sensibilidade. Questões comuns a todos nós, mas não tão fáceis de enfrentar. Não compartilhamos nossas fraquezas, os nossos medos. E a peça mostra a dificuldade, dentro de um casamento, de você se comunicar. Fala das coisas não ditas. Então, quando eu assisti, isso me atraiu. Por ser uma peça que, ao mesmo tempo, é muito divertida, mas que me tocou, me sensibilizou.

Como tem sido o retorno do público?
O retorno do público tem sido incrível e surpreendente. Quando estreamos, nos surpreendemos ao perceber o quanto a peça comunica e toca as pessoas. É um texto com humor mas ao mesmo tempo toca em questões densas, é reflexivo. Está sendo bonito ver como as pessoas se divertem e se emocionam com a peça.

Sua personagem é muito carismática. Gostou de fazê-la?
Ela é muito divertida. É uma mulher que envelheceu mas não amadureceu. Completamente destrambelhada, não consegue lidar com a doença do marido, não quer enxergar. Cada um dos personagens vai lidar com a doença de uma maneira e a minha personagem se recusa a lidar com aquilo. Mas ao longo da peça você vai vendo, também, que ela tem uma fragilidade. Já a personagem da Mariana (Lima) é aquela mulher madura, que vai cuidar do marido e de todo mundo. Falamos desses dois tipos: a mulher que fica no lugar da mãe e a mulher que fica no lugar da filha, aquela que não quer lidar com as dificuldades, que tem que ser cuidada e protegida.

Os maridos também, não é?
Exatamente. Um fica no lugar do que precisa ser cuidado, do filho, e o outro fica no lugar de proteger a mulher e esconder dela as coisas.

Falando de arquétipos da mulher, como vê essa primavera feminista?
Acho muito importante, porque, apesar de a gente estar em 2016, há muitas coisas nas quais estamos bastante atrasados. Questões como a diferença de salários entre as mulheres e os homens, a legalização do aborto, a violência contra a mulher dentro da própria casa. Tudo isso tem que melhorar. E sei que falo de uma classe social que tem mais oportunidades e proximidade de condições do que a maioria. Porque a realidade é que muitas mulheres não têm igualdade de oportunidades. Acho que existem questões que, mesmo não sendo nossas, são importantes.

Além de uma filha, você também tem um filho. Acha que os homens têm um papel importante nesse movimento?
Eu aprendo com ele, sabe? Os homens têm que ser ouvidos nas questões feministas. Seria incrível que a gente pudesse discutir, lutar todos juntos por essas questões, não só as mulheres, mas os homens também. E iguais, e não separados.

Acredita que as pessoas estão interessadas em outra coisa, no momento, que não a política?
Eu acho que a arte serve para isso. Tem uma frase do Paulo Leminski que eu adoro. Ela diz: “A arte é a maneira que o homem encontrou de ir além da necessidade”. O ser humano precisa disso. Não dá pra ficar só no concreto, no material, não é mesmo?

E o que acha do momento político atual?
Olha, estou bastante assustada. Eu vejo tudo isso com perplexidade. Estamos vivendo uma coisa muito delicada, perigosa. Mas o que acredito é que o único sistema que temos até hoje possível é a democracia. É preciso ter isso em mente. As pessoas estão muito violentas e querendo soluções rápidas pra tudo. E acho que não existem as soluções rápidas. Ninguém é a favor de corrupção, ninguém está de acordo com o que está acontecendo, com as jogadas políticas e o modo como as coisas estão acontecendo. Mas a gente também não pode atropelar, passar por cima dos processos legais, porque aí a gente coloca em risco a democracia. Eu não sou uma especialista do assunto, mas vejo isso com muito medo. Vejo os nossos governantes trabalhando pelo poder, brigando pelo poder, tanto o governo quanto a oposição, não vejo ninguém trabalhando pelo Brasil. Não estou assumindo nenhum lado porque eu nem consigo, mas o que mais me assusta é a ameaça à democracia.

E a polarização? Como vê esse movimento de Fla-Flu?
Está até difícil de se posicionar por isso. Mas, ao me posicionar, sou a favor da democracia. Cresci sob uma ditadura militar, fui à passeata pelo voto direto, quero continuar votando e acho que é isso que temos que preservar acima de tudo. Agora, vamos tirar a corrupção da frente, com certeza. Ninguém é a favor nem da corrupção, nem do governo que está aí, nem de todo jogo político que está sendo feito. Não. Estamos contra. Mas não podemos colocar a democracia em risco.

E a questão da intolerância? É a falta desse exercício, né?
Você pode não concordar comigo, mas mesmo assim podemos nos sentar à mesa e almoçar junto. Em uma democracia não dá para aceitar só quem pensa igual a você. Isso é ditadura. Isso é fascismo. Eu tenho amigos dos dois lados, que foram à manifestação pelo impeachment e outros foram à manifestação “não vai ter golpe”, e continuo amiga deles. Eu entendo que eles tenham outra opinião, que não é a minha, e respeito.