Histórias de um queridinho da Dinamarca

Histórias de um queridinho da Dinamarca

Sonia Racy

29 de março de 2010 | 08h13

6081987ok

Milton Nascimento fala de jovens mineiros que participaram de seu novo CD e de um fã-clube de dinamarqueses

A voz é inconfundível, a fala vai andando e parando e os “causos” para contar, se a conversa é boa, não acabam nunca. Mineiro de marca maior, embora nascido no Rio, Milton Nascimento está a mil por hora com seu novo disco. Não é à toa. Fundador,com alguns amigos, do consagrado Clube da Esquina, ele descobriu em Três Pontas, “sua cidade” em Minas, uma legião de novos talentos que se tornaram parceiros no projeto. “É o Clubinho da Esquininha”, define.

Bituca – assim o chamam os amigos – fez jus à fama de querido de todos, quando topou um “dedinho de prosa” com a coluna. Bem à vontade, ele abriu o leque e falou de cotas nas universidades, Copa na África do Sul e até explicou como se tornou um dinamarquês de coração. Tudo em clima de cafezinho com bolo de fubá. A seguir, trechos da entrevista:

Você está gravando novo disco. Como nasceu a ideia? Aconteceu quando eu soube que a Billboard tinha vindo ao Brasil conhecer os tipos de música do País. Em Minas, além de Belo Horizonte, eles citaram Três Pontas – justamente a minha cidade. Eu, que há tempos só ia para visitar a família e rever amigos, decidi procurar novos músicos por lá.

E o que descobriu? Em três dias, trinta e poucos músicos entre 14 e 25 anos. Uma grande surpresa. O mais interessante foi a maneira como os descobrimos, posso tentar te contar…

Por favor. Tenho lá um amigo, o Marco Eliseo, que é primo do Wagner Tiso. Mostrei-lhe o livro da Billboard e disse: “Se Três Pontas já é muito visitada por japoneses e noruegueses, imagina depois desse livro. Não tem tanta música aqui, como vamos fazer? Aí ele me chamou para uma vendinha que tem em uma estrada de terra. Quando cheguei, havia quinze meninos arrepiando, tocando rock & roll. Sabe aquele rock que a gente sempre gostou e continua gostando? Eu fiquei meio bobo.

Não conhecia nenhum? Na verdade, nós do interior podemos não conhecer a pessoa mas, quando olhamos, já sabemos direitinho a família de onde ela vem. Assim, fui reconhecendo todo mundo.

Como surgiu o convite para o disco? Chamei todos para jantar na casa da minha irmã. Detalhe: esqueci de avisá-la (risos). Na verdade juntei eles e outros meninos que ouvi tocando não só rock, mas samba e MPB em uma fazenda de lá. Foi até engraçado porque dizia-se, na ovcasião, que Marte ia ficar mais perto da Terra. E do jeito que correram as coisas, eu acho que chegou mesmo foi perto de Três Pontas… (risos).

E no que deu ? Foi bonito demais e veio a vontade de trabalhar com eles. Para não criar muitas expectativas, eu disse que era só uma faixa do meu novo CD.

E vocês estão gravando? Sim. Alguns passaram no vestibular, outros saíram de Três Pontas, mas conseguimos criar um estúdio ambulante. Gravamos lá e na minha casa aqui no Rio. Acbou virando um “Clubinho da Esquininha”…

Você compôs a música Lágrima do Sul, sobre a África do Sul. Quais as suas expectativas para a Copa do Mundo ? Torço muito por aquele país. até porque nos tempos do apartheid eu participei de algumas coisas. Cheguei a ser condecorado pelo embaixador da África do Sul. A história do Nelson Mandela emociona muito, não? É forte demais, aquilo.

Você teve um peso forte em canções políticas. Acha que a canção de protesto acabou? Talvez tenha uma nova linguagem, mas não acabou não. Nós temos muito o que consertar. Já fiz músicas com parceiros como Fernando Brant ou Chico Buarque e sempre descobrimos alguma coisa nova nessa área.

Qual a sua posição com relação às cotas nas universidades? Eu tenho uma opinião dividida. Essas cotas deveriam ser por renda e não por raça. Este país é uma raça só. É incrível. Por exemplo, vi em uma reportagem o caso de dois gêmeos – um era negro, outro branco. Então, que país é este? É tudo, né? Se na mesma família nascem dois gêmeos com essa diferença… Tem que pensar muito para não fazer besteira e não aumentar os preconceitos.

Você já teve muitos convites para carreira internacional. Nunca pensou em morar fora? Já tive vontade de morar na Dinamarca.

Por quê? É difícil explicar. Desde que vivia em Minas eu sempre quis conhecer a Dinamarca. É meu segundo país. Eles me adotaram.

Tem muito amigos lá? Muitos, é uma loucura. Toda vez que vou para a Europa tenho de passar pela Dinamarca. Eles costumam dizer: “não se pode negar nada pra Bituca”. (risos). Tenho muitas histórias.

Pode contar alguma? Certa ocasião, cheguei a uma pousada e eles começaram a cantar Parabéns. Era julho e meu aniversário é em outubro. Fiquei com um sorriso amarelo, sem entender. Entretanto, lembrei da Alice no País das Maravilhas, que gostava do desaniversário – porque queria não apenas um dia, mas o ano inteiro. Eu disse então que eles estavam com Alice no coração. Eles bateram palmas… Até que um justificou: “Mas Bituca, hoje faz 25 anos que você pisou pela primeira vez na Dinamarca”. Eu quase morri.

E o projeto de um longa baseado na música Morro Velho, como chegou a você? Um casal de brasileiros de Los Angeles me procurou porque tinha a ideia de fazer um filme baseado no Morro Velho e queriam minha autorização. Topei, com uma condição: que eu pudesse compor a trilha do filme.

Você gosta de compor para cinema e teatro? Adoro. E, sabe, existe um cinema dentro de mim.

É ano de eleição, já tem um candidato? Ainda não sei em quem votar.

Por Marilia Neustein