Hillary contra o preconceito

Sonia Racy

03 de janeiro de 2011 | 10h36

Uma das posses menos convencionais da história do Brasil aguçou a curiosidade dos convidados de Dilma Rousseff, durante coquetel oferecido a chefes de Estado no Palácio do Itamaraty, no começo da noite do dia 1º. Uma mulher divorciada, que desfilou com a filha durante a posse, e Michel Temer, vice, com sua mulher 42 anos mais jovem, poderiam engrossar o coro na luta contra preconceitos em geral? Hillary Clinton acredita que sim. Secretária de Estado americana falou à coluna.

“Queremos que o Brasil nos ajude a evitar barbaridades em relação aos preconceitos que acontecem no Oriente Médio, por exemplo. Na Uganda tem um projeto de lei que pode levar o homossexualidade à pena de morte”, comentou ela segurando uma bandeirinha arco-íris, recebida por Toni Reis, da ABGLT. Ao saber que durante a campanha presidencial chegou-se a questionar a sexualidade de Dilma, Hillary foi enfática. “É o mais baixo nível que se pode chegar em uma campanha. Não importa a sexualidade da presidente, o País precisa que ela faça um bom governo.” E o que Hillary pensa sobre uma mulher na presidência? Às gargalhadas, responde: “Essa ideia realmente me agrada muito. Fico feliz não só pelo País de vocês, mas pela mensagem que passa ao resto do mundo. O Brasil é um dos maiores países a ter uma mulher no comando.”

Com uma taça de champanhe na mão, Ellen Gracie, ministra do STF, reconheceu que muita gente avalia as mulheres escaladas pelo governo como “bonitas ou feias”. “Acho que isso é responsabilidade de muita mulher que se vende como produto em propagandas, que cultivam essa imagem de mulher objeto na mídia. Mulher no governo não precisa ser bonita ou magra. Tem que ser competente.”

Carlos Lupi reconhece que, na sociedade atual brasileira, ainda há muito o que avançar no quesito sexismo. Citou como exemplo a vice-primeira-dama. “Não acho que haverá preconceito pelo fato dela ser mais nova que Michel Temer. Mas se fosse uma mulher de 70 anos com um garoto de vinte e poucos, minha filha, o mundo ia acabar.”

De papo com Ayres Britto, Paulo Maluf declarou-se como grande tolerante: “Posso ser considerado o prefeito que mais lutou contra o preconceito. Apoiei um candidato carioca e negro”, e emendou: “Mas, claro, em outros assuntos eu tenho lá minhas preferências”, diz piscando para o ministro do STF.

Depois de um dia intenso, a anfitriã Dilma falou pouco com seus convidados. Distribuiu beijos, abraços e logo foi embora. De tantos cumprimentos, os ombros de seu casaco pérola já exibiam tom amarronzado. Assim que se foi, os figurões da política começaram a esvaziar o salão. Às 23h30, sobraram só os mais jovens e alegres: moços com gravata na testa, fumando charuto e moças descalças sobre os tapetes persas do Itamaraty.

DÉBORA BERGAMASCO

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