Hidroxicloroquina: “Desespero leva a ações impulsivas”, diz pesquisadora da USP

Hidroxicloroquina: “Desespero leva a ações impulsivas”, diz pesquisadora da USP

Sonia Racy

27 de março de 2020 | 00h05

FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Bolsonaro levou, ontem, uma caixa de hidroxicloroquina (HCQ) para mostrar na reunião por vídeo conferência organizada pelo G20, centrada na pandemia do coronavírus. Também ontem, o presidente da República, por meio das redes sociais, voltou a dizer que o tratamento com fármaco tem mostrado eficácia e pode trazer tranquilidade à população.

O primeiro estudo clínico do Brasil testando esses remédios só sai em dois ou três meses. Indagada sobre o assunto, Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão Ciência, e pesquisadora do ICB da USP, conversou com a coluna.

Como cientistas escolhem remédios para testar?
Buscamos substâncias que demonstrem a propriedade desejada – no caso da covid-19, a capacidade de matar vírus – em culturas de células. Numa pandemia, é interessante usar um medicamento existente, mesmo que para outra doença, pois isso poupa tempo. Já sabemos em que condições o remédio é seguro para uso em humanos. Então, só falta provar que serve para a nova doença também.

Quais os riscos em divulgar que um remédio (que já está nas prateleiras) é promissor na cura da covid-19?
Se o remédio já existe, e a comunicação for mal feita, as pessoas podem achar que ele já foi testado e aprovado para a covid-19, e correr para as farmácias, acabando com todos os estoques. Mas “promissor” não é o mesmo que “altamente provável”. Nada foi testado para valer. Nem tudo que mata o vírus no laboratório age do mesmo modo dentro do corpo humano.

Mas vai faltar esse medicamento para quem precisa?
Desespero leva a ações impulsivas. Foi isso que aconteceu com a hidroxicloroquina. Trata-se de um remédio para malária e doenças autoimunes, como lúpus e artrite reumatoide. Com a corrida para comprar o fármaco, pessoas que de fato precisam da medicação ficaram sem, e pessoas perfeitamente saudáveis estão estocando uma droga perigosa em casa. A HQC traz um risco bem real de intoxicação para quem a tomar sem necessidade e a devida orientação médica.

De que maneira medicamentos são testados?
Primeiro são testados em células, seguidos por animais, e só depois em humanos. E em humanos, primeiro testa-se para segurança e toxicidade, só depois para eficácia. O mais importante é ter em mente que todo bom teste de medicamentos envolve comparações entre grupos. Não adianta só apontar que quem tomou, melhorou. É preciso ver se quem não tomou, ou tomou outra coisa, também não melhorou, ou não melhorou ainda mais. E essas comparações têm de ser justas. Isto é, os grupos têm de ser similares: não adianta ter um só de jovens e um só de idosos, ou tratar um grupo com mais cuidado e atenção do que o outro.

O estudo francês, que está sendo usado como base para justificar o uso da HCQ, seguiu essa lógica?
Não. O estudo francês tem erros gravíssimos. Não se tomou nenhum cuidado para que a comparação entre os diferentes grupos fosse justa e válida. Por exemplo, seis pacientes que estavam recebendo a medicação foram excluídos do estudo, quatro porque pioraram, um porqucloroe morreu e outro, desistiu. Eles não aparecem no resultado final, que alega 100% de cura. Ora, é fácil ter 100% de cura se você ignora os que pioraram e morreram!

O presidente anunciou que vai colocar os laboratórios das Forças Armadas para produzir HCQ. Qual sua opinião sobre isso?
Produzir HCQ é um desperdício de recursos que poderiam ser melhor empregados com outras coisas como testes diagnósticos, equipamentos, hospitais. Há pelo menos 20 drogas candidatas em teste, no mundo. Não existe motivo para produzir a HCQ – e não uma das outras 19 drogas – para produção imediata.

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