‘Há no mundo um esgotamento da democracia liberal’

‘Há no mundo um esgotamento da democracia liberal’

Sonia Racy

18 Julho 2016 | 01h30

Foto: Denise Andrade

Foto: Denise Andrade

Para o futuro embaixador do Brasil em Washington, os partidos políticos – na Europa e nos EUA – não foram capazes de captar a tempo a crescente insatisfação da sociedade

Falta apenas a sabatina no Senado, dia 11 de agosto, para que Sergio Amaral arrume suas malas rumo a Washington. O diplomata já recebeu o agrément (aceitação formal) do governo americano para ser o novo embaixador do Brasil nos EUA, mas precisa ainda ter seu nome aprovado no plenário da Casa. Experiência, entretanto, não lhe falta. Amaral já serviu, em duas ocasiões diferentes, na embaixada brasileira da capital americana. E volta ao local cheio de planos: “Existe uma multidão de grupos de trabalho, de comissões mistas, de projetos que foram assinados ou que resultaram em comunicados conjuntos entre Brasil e Estados Unidos. A maior parte deles está paralisada ou nem saiu do papel”, conta o embaixador que já está pinçando, dentro de uma pilha gigante, os projetos factíveis, além de estar pensando outras novas iniciativas.
O fato é que Brasil e Estados Unidos mantêm uma antiga e extensa relação comercial. O mercado americano é o segundo maior comprador de produtos e serviços brasileiros no exterior. Segundo os números do governo Temer, a China adquiriu, ano passado, US$ 35,6 bilhões do Brasil, seguida pelos Estados Unidos, com US$ 24,2 bilhões. A balança, no entanto, só é favorável ao Brasil, no caso da China, que comprou US$ 5 bilhões mais do que vendeu. Já os EUA venderam US$ 2 bilhões mais do que compraram por aqui.
Amaral já foi embaixador em Paris e Londres, serviu na embaixada de Bonn, na Alemanha, e na missão permanente do Brasil junto à ONU, em Genebra. Também foi presidente da Associação dos Países Produtores de Café e do Conselho Empresarial Brasil-China. Abaixo, os melhores momentos da conversa.
Se Donald Trump ganhar as eleições norte-americanas, o que muda nos Estados Unidos e na sua relação com o Brasil? A tradicional administração americana é forte o suficiente para impedir a implantação de ideias ‘estranhas’ que o candidato vem apresentando?
Essas perguntas requerem uma percepção um pouco mais ampla: a análise do novo populismo na Europa e nos Estados Unidos. O movimento parece refletir algumas coisas. Uma delas é um esgotamento da democracia liberal, porque os partidos não foram capazes de captar a tempo a crescente insatisfação da sociedade e dar uma resposta. Há uma crise de representatividade na Europa, onde se vê um conjunto de partidos antieuropeus. Nos EUA também há uma crise de representatividade porque os partidos políticos esperavam que certos temas fossem absorvidos e não foram.
Como o tema dos imigrantes? 
Sim, incluindo o tema das importações, sobretudo provenientes da China, que transferem empregos e estão aguçando um sentimento nacionalista protecionista. Curiosamente, a Hillary Clinton tem hoje a seu lado o senador Bernie Sanders, que é uma espécie de socialista tardio. Ele levantou uma série de questões socialistas exatamente no momento em que o socialismo no mundo está acabando. O populismo, nesse sentido, significa líderes ou partidos que estão tomando lugar dos partidos tradicionais. Trump fala para os desempregados cujas empresas onde trabalhavam foram fechadas. Fala para os sindicatos que sofrem a concorrência dos produtos de fora ou cujos associados estão perdendo emprego. Ele fala de maneira segmentada.
E como unir essas partes? Como unir o protecionismo em um partido liberal, como o Republicano? De que maneira Trump vai implantar a ideia fantasiosa de fazer um muro entre EUA e México? Ou proibir a imigração?
É fato que a imigração não se refere só ao imigrante em si, mas também às empresas que precisam de migrantes para serem competitivas.
Acredita que hoje quem não é politicamente correto é visto com bons olhos? Não há nada mais politicamente incorreto que falar sobre o muro entre Estados Unidos e México, concorda?
Trump dá uma resposta radical, diferente dos partidos tradicionais, que deram respostas que não foram satisfatórias para setores e camadas que estão sofrendo esses problemas.
Aqui na América Latina você vê algo parecido?
Por aqui o populismo tinha outro conceito, extremamente diferente, que era a capacidade dos partidos tradicionais manipularem as massas com discurso popular. Depois, o populismo foi econômico. E hoje o populismo já é diferente. O caso mais claro do populismo atual na América Latina foi o de Hugo Chávez. Não acho que Lula tenha sido exatamente populista. Ele foi popular. Já em um segundo momento do governo Dilma, ela sim foi claramente populista quando as respostas que dava não tinham um significado realista, não condiziam com a realidade.
O sr. acha que esse novo populismo inclui inverdades, como no caso de Dilma?
Muitas das afirmações que Dilma fez, sobretudo na campanha, não condiziam com a realidade e essa foi uma das grandes razões da perda de popularidade dela. Os eleitores, inclusive do PT, se sentiram fraudados. Mas o impressionante é que isso parece ser não só uma prática, mas também um recurso da política nos tempos contemporâneos.
O Brasil vai ter eleições majoritárias daqui a dois anos e meio. Há algum perigo disso se repetir por aqui?
Não. Inclusive porque o que nós estamos sentindo no governo do presidente interino, Michel Temer, é exatamente o contrário. Ele está buscando uma pacificação, uma serenidade no trato das coisas e, acima de tudo, tem uma grande capacidade de articulação política. Acredito que isso vai estabelecer um modelo, um novo parâmetro de relações do governo com o Congresso e com a sociedade.
Trata-se de um novo modelo ou já tivemos conduções semelhantes a esta?
É um modelo parecido com o que foi o governo Fernando Henrique Cardoso. Que tinha uma grande serenidade, tinha capacidade de articulação e, sobretudo, a capacidade de uma discussão pública das grandes questões.
O que o Brasil pode esperar da ida do sr. a Washington? O que vai mudar?
Temos uma boa oportunidade de um aprofundamento das nossas relações, porque, antes de tudo, existe uma convergência nas políticas maiores dos dois países.
O que isso quer dizer? 
Obama, desde o início, assumiu compromissos que vão exatamente na direção daquilo que o Brasil sempre reclamou ou sempre desejou: a afirmação do multilateralismo, a afirmação da concertação como uma forma básica de entendimento. Mais do que isso, ele deu um passo muito importante para as relações dos Estados Unidos com a América Latina: o reatamento das relações com Cuba.
Mesmo com a proximidade do governo Lula e Dilma com Cuba, o Brasil não foi chamado a participar dessas negociações. Perdemos a oportunidade de ter tentado um entendimento? 
Talvez o Brasil tenha perdido essa oportunidade porque não era visto como isento nessa relação entre Estados Unidos e Cuba. Mas voltemos à convergência, qual é a nossa parte nela? Ela está no discurso de posse do ministro José Serra com orientação clara do presidente Temer: a nova política externa vai ser fiel aos valores e aos interesses do Brasil e não às preferências ideológicas de um partido.
Que projetos o sr. levará para Washington?
Tive uma grande surpresa ao me debruçar na relação bilateral, que eu não acompanhava havia muito tempo. Existe uma multidão de grupos de trabalho, de comissões mistas, de projetos que foram assinados ou que resultaram em comunicados conjuntos entre Brasil e Estados Unidos. A maior parte deles está paralisada ou nem saiu do papel.
Sabe por que não andaram?
O episódio da espionagem telefônica da Dilma praticamente paralisou o relacionamento, mas também há casos em que nós não soubemos superar as dificuldades. Tenho tido conversas com a embaixadora americana no Brasil, preparando a minha ida, e nós resolvemos que a primeira coisa que vamos fazer é uma limpeza da mesa. Pegar essa pilha de projetos e acordos, separar o que é viável, aquilo que pode ser resolvido a curto prazo, o que é uma prioridade para os dois países, e tentar resolver isso da forma mais rápida possível.
Pode mencionar alguns desses projetos?
Um que já está no Congresso é o Open Sky, que permite a liberdade de frequência de voos entre os dois países. Há também um acordo sobre carne, dando liberdade de exportação in natura dos dois lados. Esse projeto está bastante avançado existindo apenas algumas questões técnicas que devem ser resolvidas nas próximas semanas para que se concretize. Além disso, está pronta para sair a questão da aprovação do Global Entry – programa que ajuda a agilizar a entrada de passageiros internacionais de baixo risco, pré-aprovados, com destino aos EUA. Isso aumenta o prazo do visto para viajantes frequentes ou facilita a vida, sobretudo, da comunidade de negócios.
Na área cultural, podemos esperar algo interessante? 
Defendo que nós criemos nichos para falar para determinados segmentos da sociedade. Quando estive na embaixada, em 1992, começamos a construir uma ponte entre a comunidade judaica americana e a brasileira. Você sabia que os judeus que fundaram Nova York, em sua maioria, migraram do Brasil para lá? Na época em que a Inquisição se instalou na Espanha e, depois, em Portugal, esses judeus novos vieram para o Brasil durante a ocupação holandesa e se instalaram no Nordeste, tendo importante papel na colonização holandesa de Pernambuco. Falo em desenvolver uma ponte de aproximação.
Como seria essa ponte de aproximação?
Poderíamos começar com uma exposição mostrando que, quando eles foram expulsos com os holandeses de Pernambuco, uma parte migrou para Nova York – que era a New Amsterdam – e ajudaram na fundação da cidade. Tanto assim que o primeiro cemitério judeu em NY se chama Cemitério Brasileiro. Tem também uma história que eu comecei lá atrás e que não evoluiu: a participação do Smithsonian Institute no desenvolvimento e criação de parques temáticos ambientais na Amazônia. Nós os ajudamos a criar um departamento sobre a Amazônia e depois eles estudaram a implantação de cinco parques temáticos. Quero muito ver isso acontecer.