Há dez anos ator trocou vida em SP para fundar ONG na Amazônia

Há dez anos ator trocou vida em SP para fundar ONG na Amazônia

Sonia Racy

10 de outubro de 2019 | 00h39

FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Há 10 anos o ator Thiago Cavalli largou uma vida sem sentido em SP e como diz a música de Caetano Veloso, sem lenço e sem documento foi parar numa casinha abandonada às margens do rio Tupanas, na Amazônia. O local virou a ONG Casa do Rio. Hoje a instituição ajuda na alfabetização de crianças e jovens, desenvolve um projeto com as mulheres da região através do artesanato, batizado de Teçume – que levou o trabalho manual das mulheres amazônicas com a palha para o mercado de luxo, através de parcerias com marcas como Cris Barros, Yael Sonia e DVF. Além de atuar em muitas outras frentes que visam empoderar a comunidade amazônica. Confira entrevista a seguir.

Como surgiu a Casa do Rio?

Era julho de 2009, eu havia abandonado de uma só vez o psiquiatra e o Citalopram. A diretora de teatro francesa Léa Dant, com quem trabalhava, havia passado um exercício de preparação dos atores propondo: “Façam algo que nunca fizeram antes”. Bom, eu já tinha feito muita coisa – o que incluía descer pelado a Rua Augusta, nos seus tempos áureos, até ser expulso da festa do Festival de Cinema em Cuba, quando Fidel ainda mandava. O insight veio numa festa na casa de uma amiga: resolvi ir tão longe quanto minhas milhas pudessem me levar. E o mais distante que eu poderia ir era Manaus. E assim fui.

Você chegou, literalmente, sem lenço e sem documento?

Na mochila só cabiam minha câmera e uns dois pares de roupa. Ao pôr os pés fora do aeroporto, levei uma porrada: o bafo quente e úmido. Umas oito horas depois de atravessar o Rio Amazonas, rodar 200 km de estrada enlameada e mais uma hora de canoa, aportei no único lodge do rio Tupana. Era tudo verde e água. Encontrei uma casinha abandonada há anos e com a ajuda do livro ‘Manual do Arquiteto Descalço’, do holandês Johan Van Lengen, nasceu a Casa do Rio, que num primeiro momento era uma residência artística.

Mas também funciona como escola de alfabetização?

No Tupana, a educação, assim como a luz, não é para todos. E foi depois de muito insistir por uma escola com a Prefeitura do Careiro – município mais próximo – que nós desistimos do governo. A varanda da Casa do Rio se tornou a sala de aula para 25 jovens que chegavam às sextas-feiras, pois precisam trabalhar com a família durante a semana, e iam embora no domingo à tarde. No ano seguinte, o secretário de Educação nos ofereceu uma escola. Claro que sem salário, mas a gente não pode recusar a chance.

Como mantinha a escola?

Ficava pedindo dinheiro para comprar material e manter a escola, uma vez que a prefeitura não cumpria totalmente sua função. E também queria desenvolver outros trabalhos. Assim foi preciso fundar uma associação, em 2014, a Casa do Rio virava uma Organização da Sociedade Civil.

Como começou o trabalho com as mulheres da região, com a Teçume?

As mulheres eram social e economicamente invisíveis. Elas plantam, caçam, pescam, cuidam das crianças, dos maridos, da comida e da roupa, mas quem toma as decisões e pega no dinheiro são os maridos. Era uma situação incômoda, então decidimos formar um grupo de 11 mulheres e trabalhar o artesanato e o feminino – e deu certo.

Conte um pouco mais desse trabalho.

Hoje as mulheres da Teçume empregam filhos e maridos e são a maior fonte de renda da família. Viajam para feiras, participam de reuniões, fazem negócios, dão entrevistas e são famosas nos município. Neste meio tempo, começamos a fazer parcerias com marcas de luxo, que entenderam que um objeto portava uma Amazônia respeitada e tradicional e principalmente a autonomia de mulheres. Hoje são donas de suas vidas. /SOFIA PATSCH

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