‘Há desinformação sobre tema da monarquia’, diz político da realeza brasileira

‘Há desinformação sobre tema da monarquia’, diz político da realeza brasileira

Sonia Racy

28 Janeiro 2019 | 01h00

LUIZ PHILIPPE DE ORLEANS E BRAGANÇA. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

LUIZ PHILIPPE DE ORLEANS E BRAGANÇA. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Primeiro membro da família real a se eleger
toma posse como deputado esta semana

As monarquias são alvo de desinformação propagada pelas escolas e pela mídia, e as séries sobre o tema servem para a população criar vilões e heróis, sem conter nuances. A visão é do cientista político e empresário Luiz Philippe de Orleans e Bragança, que, ao tomar posse como deputado federal esta semana, será o primeiro membro da família real brasileira a ocupar um cargo político desde a Proclamação da República.

“As famílias reais são muito críticas delas mesmas. Dizem que fulano foi um péssimo rei, que a outra foi uma ótima rainha, que aquele lá foi um herdeiro patético”, conta ele, para quem a realeza tem o papel de estabilizar a nação que representa.

À repórter Paula Reverbel, ele explica por que viu a necessidade de virar ativista – é um dos fundadores do Movimento Acorda Brasil, que foi a favor do impeachment de Dilma Rousseff – e ingressar na máquina de Brasília.

“Não seria ativista ou político se houvesse mecanismo na República para interferir como cidadão”, afirma. A seguir, trechos da entrevista.

Vê uma simbologia na sua eleição? Pode ser vista como um aceno de alguém da família real à República ou um aceno da população à realeza?
Eu gostaria de interpretar dessa segunda maneira. A nossa República não tem nem chance de dar certo na atual conjuntura. E o novo governo é, no melhor dos casos, uma transição para uma futura política. Temos que fazer uma reestruturação de Estado. O risco de retrocedermos ao período de uma social-democracia de Fernando Henrique Cardoso ou a um período lulo-petista… Podemos retroceder facilmente a isso numa próxima eleição.

Como vê a monarquia?
É uma questão de organização do Estado, não de governo. Numa monarquia parlamentarista, o chefe do Estado não governa. A gente precisa ter política de Estado, independentemente de ser uma monarquia – que seja então uma República, mas uma que separe a função do Estado. Com o presidencialismo que nós temos, isso não existe, Estado e governo são a mesma coisa. Quando muda o governo, muda o Estado. Você não tem estabilidade jurídica, não consegue planejar além de quatro anos.

Então o sr. é favorável ao parlamentarismo?
Sim, tem que ter parlamentarismo. Tem que ter um chefe de Estado que seja independente do governo. Com isso, há freios e contrapesos, que são a essência do Estado moderno. Todas as monarquias modernas são assim, têm poderes de governo e poderes de veto ao governo.

O que acha do nosso regime presidencialista?
O presidencialismo no qual a gente vive, esta cópia fajuta do modelo americano… Não tem nenhum país rico assim. O governo é ilimitado. Seja o governo FHC, Lula, Dilma… Agora o do (Jair) Bolsonaro. Se ele não se autolimitar, tem poder pleno, nomeia para cargos de Estado. É muito fácil você sequestrar o Estado. O procurador-geral da República é nomeado pela Presidência. Tá errado, porque o procurador tem que monitorar o próprio presidente.

Como vê o papel das famílias reais nas monarquias parlamentaristas e nos Países que deixaram de ser monarquia?
Os reis vêm perdendo poder desde o século XVIII. Hoje, poucas das monarquias europeias têm poder de fato, talvez a de Liechtenstein, a de Luxemburgo. A própria rainha da Inglaterra tem muito pouco. Mas está havendo um resgate da função das famílias reinantes. A Europa está sendo alvo de ataque cultural e o último recurso vão ser as famílias fundadoras daquelas nações. Tenho sido crítico das que não cumprem essa função. Alguns têm vindo ao encontro dessa posição. O da Bélgica (Philippe Léopold Louis Marie) tem se manifestado diante de governantes que absorvem imigrantes que não querem se integrar.

O sr. tem uma posição forte a respeito das ondas migratórias?
Sim. A massa de imigração incentivada pelo Estado social da Alemanha ou da Inglaterra vai arrebentar o equilíbrio fiscal e a qualidade de vida dos que pagam imposto. O cidadão inglês já fez o seu referendo, está saindo da União Europeia por causa disso. O alemão não teve essa oportunidade. Isso vai estourar em movimentos de xenofobia e extrema-direita porque o Estado está querendo impor algo à sociedade. Você acha que, tendo um referendo popular, Boa Vista ia querer receber 50 mil venezuelanos? Se você não dá valor àquele que paga imposto, acabou sua nação-Estado. Suas leis não valem nada.

O sr. acha que o fato de ser de família real embute a responsabilidade de estabilizar a nação?
Total. Esse tema da monarquia não foi bem divulgado. Há muita desinformação, coisa errada que foi divulgada pelas escolas, pela mídia. Se você não tem uma família fundadora vinculada à ideia fundamental de por que é que você existe como Estado, você não está fazendo o seu serviço, não está defendendo os valores que vão proteger a todos.

Então o sr. vê essas famílias como um jeito de reverberar valores da sociedade?
Exatamente isso. E têm que estar em sintonia com os valores da sociedade. Se não é uma família, tem que ter uma sociedade organizada fazendo isso. Eu gostaria que todo brasileiro pensasse que é herdeiro de um Brasil maravilhoso, pensasse que “isso aqui é meu, vou defender”. Essa sociedade organizada está surgindo com uma ideologia vinculada à ideia de Brasil, que é fundamental. Eu não seria ativista ou político se houvesse mecanismo na República para interferir como cidadão.

Interferir como?
Propor ou vetar um projeto de lei, fazer um referendo – contra aumento de salário, de tributo… Se eu pudesse me mobilizar fora do sistema político, não teria por que me eleger, entrar lá na máquina. Mas só temos o projeto de lei de iniciativa popular, e o mecanismo está errado. Não é pro Congresso mudar, decidir se coloca em votação ou não. É para apresentar uma contraproposta. E o povo escolhe por referendo.

Tem projetos para viabilizar esse tipo de participação?
Já tenho todos feitos, os mecanismos (de participação da sociedade, para propor), dentro das regras da atual Constituição, que é uma porcaria. Mas, de qualquer maneira, é o que a gente tem pra hoje.

Gosta da série The Crown, que retrata uma rainha abnegada?
Nem assisti à série The Crown. Não assisto a nenhum desses, porque quando você conhece as pessoas, tem conhecimento de quem são, como é que elas pensam… Não sou um historiador, mas eu gosto de ter perspectiva, busco isso no meu círculo de amizades. Então, como eu tenho esse gosto e também tenho acesso fácil (às famílias reais), vejo que tem muita coisa ali que não condiz com nada. É uma coisa pra população se encantar, criar os inimigos, criar o herói.

E como é na realidade?
Tem nuance. E, se você vai dentro das famílias, elas são muito críticas delas mesmas. Dizem que fulano foi um péssimo rei, que a outra foi uma ótima rainha, que aquele lá foi um herdeiro patético. A gente arrebenta com o fulano, mais do que qualquer outra mídia. Um diz: “Pois é, tem um gene degenerado lá, que não sei o quê, passou esse gene pra tal… Isso vem da família Habsburgo”. O outro diz: “Ah, o Saxe-Coburgo tem uns caras…”. Então é assim, entendeu?

Existem outros modelos?
Tem países que nunca tiveram família fundadora, essas pessoas que encarnaram como família a coisa. A Suíça sempre foi um país republicano, uma confederação de estados helvéticos, uma amálgama de valores que estão ainda lá na sociedade.

Dom Bertrand é favorável à restauração monárquica e, há menos de um ano, manifestou simpatia por Geraldo Alckmin.
Não estou ciente se ele apoiou ou não. Não sou um monarca, nunca vou ser, eu não estou na linha sucessória. Então, posso falar o que eu quiser sobre isso. Se fosse um monarca, eu não estaria dizendo, “quero fulano”, “apoio sicrano”. Poderia, uma vez escolhido o governante, dar um ok. Agora, do meu ponto de vista, o Alckmin era exatamente o que nós temos, é o sistema social-democrata falido e altamente corrupto. O PSDB faz parte do problema, como o PT.

Em seu livro (Por Que o Brasil é um País Atrasado?), você associa oligarquias ao modelo social-democrata.
Sim. Esse modelo é propenso a todas essas oligarquias políticas que existem e favorecem uma elite burocrata.

Mas não há também oligarquias nas monarquias?
Sim. Exatamente aí onde elas falham. Quando elas se tornam oligarquizantes, caem. Então, no final do Brasil império – eu debato isso abertamente lá contra os monarquistas – se concentrou muito poder no Rio. A primeira coisa que o poder concentrado atrai são as oligarquias, sejam elas locais ou externas. Hoje você tem a ONU influenciando uns quatro juízes do STF, dez senadores, deputados. A lei da ONU passa.

Mas então o sr. classifica a ONU como uma oligarquia?
Sim. Na ONU, há uns 20 países ricos, que são os países desenvolvidos hoje – esses sim são democracias sofisticadas. E os outros 180, 150 países, o que é que eles são? Oligarquias controladas por grupos de interesse, o Brasil incluso. A ONU está na mão de 150 países que não são democráticos. Os países árabes, por exemplo, influenciam o que deve ser a política da ONU com Israel. E nenhum deles é democrático.

Um de seus primos, o João Henrique, criticou o fato de você ser ativista e político.
Ele tem a opinião dele. Não acho que exista uma formalidade dentro da família que a gente tenha que obedecer. Eu me sentia envergonhado de ver amigos meus saindo na rua, fazendo alguma coisa e eu sem fazer nada.

Tem alguma consideração sobre o caso do Fabrício Queiroz e do Flávio Bolsonaro?
Todos têm que passar por esse crivo, não só o Flávio. O que a imprensa tá querendo fazer é um pré-julgamento. Agora, se houver alguma coisa de fato, com certeza (tem que punir).