‘Guerra ideológica não combina com recuperação econômica’, diz analista

‘Guerra ideológica não combina com recuperação econômica’, diz analista

Sonia Racy

29 de julho de 2019 | 00h50

Sérgio Fausto afirma que planos de Bolsonaro para 2022
exigem melhor conexão com o Congresso,
avanço de outras reformas e atenção para o ‘pêndulo’
da política,  que tende a voltar a uma centro-direita moderada

A estratégia permanente de ataque aos inimigos, levada a cabo pelo governo Bolsonaro, não combina com recuperação da economia. É a partir desse raciocínio que o cientista político Sergio Fausto avalia os horizontes do atual governo, no momento em que ele emplaca os primeiros 200 dias de vida. E sua conclusão é que chegou ao Planalto um grupo “desconjuntado administrativamente”, que deveria ir atrás de mais apoio político para avançar as reformas, “mas prefere focar no confronto ideológico, que certamente vai acabar cansando”.

Esse modus operandi, adverte Fausto, pode não ter vida longa. “Primeiro, porque o que vai decidir mesmo o futuro do governo é a economia”. Segundo, no universo político “o pêndulo tende a voltar para um conservadorismo moderado, uma centro-direita sem radicalismos. É nesse cenário que as forças devem se organizar para a disputa presidencial de 2022”.

No comando da Fundação FHC – que, segundo integrantes da fundação, é apartidária e se dedica a debates e seminários sobre democracia –, o cientista político define agendas, convida estudiosos, faz a mediação dos eventos e atua como codiretor do projeto Plataforma Democrática. Nesta entrevista a Gabriel Manzano, ele analisa o novo cenário político – “o sistema anterior colapsou” –, o futuro da antiga bipolaridade PT-PSDB e lança um olhar para 2022. Sua conclusão é que Jair Bolsonaro, se pensa mesmo em reeleição, terá de “acompanhar aquele pêndulo”. A seguir, os principais trechos da conversa.

Como avalia esses 200 dias do governo Bolsonaro?
É um governo que se formou a partir de grupos bastante heterogêneos, juntados no calor da campanha. Não é uma coalizão de forças produzida por uma longa maturação. Quem, afinal, está no poder? Um estamento militar, cuja figura maior é o general Augusto Heleno, outro de economistas liberais em torno de Paulo Guedes e um terceiro em torno do ministro Sergio Moro. Mas há um quarto grupo, essencialmente político, que expressa o movimento que levou Bolsonaro à Presidência. Ele tem elementos de uma direita antiliberal, não convencional, juntando igrejas evangélicas, o olavobolsonarismo – que domina pelo menos metade da alma do presidente… mas tudo isso junto não tem um funcionamento orgânico, unificado.

E o resultado final disso é…
Que ele não conseguiu estabelecer, aliás nem tentou, um relacionamento estável com o Congresso. É desconjuntado administrativamente. E sua marca política é o enfrentamento permanente em uma guerra político-ideológica contra a esquerda.

Portanto eles precisam da esquerda nessa estratégia?
Precisam, sim, de inimigos. De um desafio diário para inflar a ideia de que eles representam uma ameaça ao País. Não cabe mais dúvida de que isso é a forma deles de governar. Não é um projeto de País, é um projeto de poder.

Acha que a ideia poderá ser bem-sucedida?
Vou fazer aqui uma simplificação muito grande: vai depender do desempenho da economia. Temos uma longa recessão, uma recuperação muito lenta e uma multidão de desempregados. Ou o governo vira esse jogo ou sua popularidade começará a declinar. A reforma da Previdência é condição necessária, mas não suficiente. E a forma como o governo se conduz cria perturbações que dificultam a aprovação de outras reformas.

Ou seja, a estratégia pode virar-se contra eles.
Exato, ela é contraproducente. Guerra ideológica e combate permanente não combinam com recuperação da economia. Isso trará incertezas para o eventual projeto de segundo mandato do presidente.

O combate à corrupção é um elemento central no debate político mas ele está hoje às voltas com duras cobranças, pelo modo com juízes e promotores atuam e atuaram. Como isso influi no cenário?
Temos aqui um enorme dilema para quem, como eu, adota uma repulsa moral contra a corrupção mas ao mesmo tempo tem apreço pelo Estado de Direito, pelo devido processo legal. Qual o dilema? É que as revelações trazidas à luz pelo The Intercept – que, é claro, precisam ser periciadas – não foram desmentidas cabalmente. E elas apontam a ultrapassagem de certos limites por promotores e por Sergio Moro.

O Supremo pode dar uma saída satisfatória para isso?
Sim, o importante é que a decisão do Supremo no caso possa clarear os limites no combate à corrupção – mas sem desmontar os resultados da Lava Jato. Tem de ser uma intervenção exemplar mas cirúrgica, aqui e ali. A meu ver elas seriam absorvidas pela sociedade.

A turbulência desses primeiros seis meses de governo coincide com um difuso quadro partidário, com uma direita ativa mas dividida, PT e PSDB enfraquecidos. Isso aponta para o quê?
O sistema anterior colapsou. Não tem volta. Entre 1994 e 2014 houve uma polarização que definiu a política brasileira entre PT e PSDB. Acho que essa página virou. Nos Estados, o sistema partidário se fragmentou enormemente e entrou num processo gradual que, agora, levará à condensação. A regra da cláusula de barreira já está valendo, ela cresce em 2020 e 2022, acabou a possibilidade de coligações nas eleições proporcionais.

E qual é o quadro que sai dessas novidades?
Uma fusão entre partidos. Não serão só 5 ou 6, mas serão muito menos que os 32 de hoje. E eles atuarão nesse novo cenário, mais ao centro. Vejo nisso dois fenômenos. Primeiro, não acho que o governo Bolsonaro tenha capacidade política de orquestrar um avanço mais substantivo de reformas no País. E sem esse avanço a economia melhorará mas não o suficiente para que ele se consolide como a figura central dessa reacomodação, onde pode perder o apoio dos conservadores moderados.

O sr. não tem militância partidária mas tem estado próximo de lideranças históricas do PSDB. O partido vive uma transição ainda difusa. Como vê o futuro tucano?
Acho que aconteceram dois processos simultâneos. Primeiro, já mencionado, o terreno sobre o qual se assentava o PSDB deslocou-se um pouco para a direita. E, digamos, a velha guarda peessedebista teve dificuldades de acompanhar esse movimento. Por convicção e trajetória, era uma liderança do centro para a esquerda. A realidade foi para a direita mas a alma do partido não foi, não conseguia nem podia ir – pois tinha suas convicções. Não era oportunista, das que se ajustam ao que aparecer. Não fez oposição forte ao PT e perdeu o espaço à direita.

Isso já estava presente na disputa com o lulismo.
O que vou dizer aqui não é um julgamento, mas uma constatação. Não é possível imaginar que Geraldo Alckmin, José Serra, mesmo Fernando Henrique Cardoso, pudessem fazer o que João Doria fez no segundo turno de 2018. Doria é uma figura mais afeita a este momento da sociedade brasileira. E teve a habilidade de vencer uma eleição em São Paulo contra a máquina do partido.

Sim, foi uma vitória pessoal.
E isso lhe deu capital político para passar a ser a figura central, a liderança mais decisiva do PSDB. A sociedade foi para a direita e ele junto. Me parece que ele está querendo agora fazer um balanceamento para 2022 jogando as fichas mais no centro do que na direita. Basta olhar o secretariado dele, não é um agrupamento de direita. Cautelosamente, procura se diferenciar de Bolsonaro, sem a sua agressividade.

Esse casamento com ideias liberais já funcionou com FHC.
Exato. Era uma agenda ao mesmo tempo de expansão do SUS, expansão do ensino fundamental, mas de concessões e privatizações também. Um casamento tropical entre direita, uma centro-direita liberal e a social-democracia. Quando a sociedade virou à direita, o terreno intermediário se esvaiu. Aí ocorreu o envelhecimento de uma geração de políticos que não foi substituída por outra de igual envergadura.

A saída do PSDB é recuperar o eleitorado perdido ou abrir novos caminhos?
Creio que, daqui pra frente, tudo é novo, tem de ser novo. Não dá pra olhar o futuro com as lentes do passado. O jogo mudou. O PSDB que se esboça agora é um PSDB do centro para a direita. Uma hipótese no horizonte, mas que ainda é muito cedo para visualizar, seria o crescimento do nome do Luciano Huck. Ele poderia juntar forças de centro-esquerda hoje muito dispersas. Essa é talvez a grande interrogação para 2022: se aparece uma candidatura capaz de empolgar essa faixa eleitoral da centro-esquerda.

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