Grafite retrata vítimas no local do massacre de Suzano e causa controvérsia

Grafite retrata vítimas no local do massacre de Suzano e causa controvérsia

Sonia Racy

27 de março de 2019 | 00h50

GRAFITE RETRATA SETE VÍTIMAS DE SUZANO. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

GRAFITE RETRATA SETE VÍTIMAS DE SUZANO. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Gabriel Santos de Souza, 16, não foi ao colégio ontem. Um dos sobreviventes do massacre na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, o adolescente ficou sabendo pelas redes sociais que os rostos dos colegas mortos na tragédia no dia 13 foram grafitados no muro da instituição. A homenagem, feita pelo grafiteiro Francisco Oliveira, marca a reabertura das portas do escola, mas não agradou a todos. “Não deveria ter sido feito agora. Está muito recente”, diz Gabriel.
Ele era um dos melhores amigos de Douglas Murilo Celestino, 16, morto durante o ataque. O trabalho do grafiteiro, segundo ele, é bonito, mas traz lembranças ruins. Gabriel ainda avalia se volta hoje ao reinício oficial da aulas. “Me sinto mal indo lá.” A opinião de Vinicius Umezu, filho da coordenadora Marilena Ferreira Umezu, uma das vítimas – também retratada na obra –, é diferente. Ele afirma que, depois das críticas nas redes sociais, o grafiteiro teria pedido desculpas pelo trabalho. “Eu não me incomodei, achei bonita. Ele ficou preocupado com as reações e veio falar comigo, foi super humilde. Entendo que seja ruim para alguns pais, mas minha família gostou. Muita gente critica mas também não ajuda”, observa.

Vinicius passa pela frente da escola quando visita o pai e acha que vai gostar de olhar para o trabalho que homenageia sua mãe. Vânia Regina Bettoni, mãe de Thainá Bettoni, uma sobrevivente, considera a homenagem “estranha” e se diz incomodada. Ela contou que a filha vai fazer terapia por no mínimo seis meses para lidar com o trauma. “É difícil e caro”, afirma.

“Meu filho teve que passar por isso para ter parede pintada, grafite em muro, carteira nova. Não é o trabalho do artista que me incomoda, é esse descaso com a educação que me revolta”, diz Lilian Eunice de Lima, mãe de Washington Luiz Lima, 13, um dos sobreviventes. Ela relata que o filho sofre de ansiedade e que o quadro piorou depois da tragédia. A psicóloga Sandra Mara Gonçalves está tratando voluntariamente professores e alunos que sobreviveram ao ataque. Ela acha que os sentimentos que a obra desperta são subjetivos, mas que o grafite dificulta o processo de “ressignificação do espaço”.

A autorização para a realização do grafite teria partido da vice-diretora da instituição, Lilian Keli Lima. A coluna não conseguiu falar com nenhum representante da escola. Para alguns pais de alunos que não querem ser identificados, o problema está sendo tratado na superfície e a pintura seria um símbolo disso. Segundo eles, muitos professores não querem voltar a lecionar no lugar. Problemas com a segurança também foram relatados. /MARCELA PAES.

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