‘Governos passam, a cultura fica’ diz Bruno Mazzeo

‘Governos passam, a cultura fica’ diz Bruno Mazzeo

Sonia Racy

02 de dezembro de 2019 | 00h45


ATOR BRUNO MAZZEO. FOTO PAULO BELOTE/GLOBO

 

Autor da série Filhos da Pátria, da Globo, diz que atuais
mandantes do País ‘esmagam e minam” a vida
cultural ‘para ver se assim ela para’, vê radicalismos ‘à esquerda
e à direita’ e considera Luciano Huck ‘uma alternativa’.

 

Bruno Mazzeo tem 42 anos, começou a escrever aos 14 para a Escolinha do Professor Raimundo e há seis temporadas interpreta o personagem que eternizou o seu pai, Chico Anysio, na nova versão do humorístico mais longevo da TV Globo. Ator e escritor, Bruno escolheu assinar “Mazzeo” – sobrenome da mãe, Alcione – mesmo tendo “Anysio”, do pai, falecido em 2012.

É autor de Filhos da Pátria, série que está na segunda temporada na TV Globo e pode ganhar uma terceira. Do pós-independência do Brasil e agora retratando a Era Vargas, Filhos “tem muito do Brasil de hoje”, diz ele. “A gente vive de eleger heróis. Infeliz a nação que precisa de heróis”, acrescenta, retomando uma famosa frase do líder comunista Luiz Carlos Prestes. Morando há um ano e meio nos Jardins, em São Paulo, com a mulher, a diretora Joana Jabace, e os filhos gêmeos, ele volta ao Rio no ano que vem, pois vai atuar em Fim, adaptação para TV do livro de Fernanda Torres.

Nesta entrevista à repórter Cecília Ramos, Mazzeo também fala sobre o País. “O governo não gosta de cultura. Minam, esmagam, pra ver se ela para.” Define o ministro da Educação, Abraham Weintraub, como “a pessoa mais sem graça do Brasil” e considera Luciano Huck “uma alternativa” para a Presidência. A seguir, os principais trechos da conversa.

A comparação com seu pai, Chico Anysio, é inevitável. Ele o estimulou a entrar na área?
Fui superestimulado. Com 7 anos eu já escrevia, já ia no bastidor das gravações do Chico Anysio Show. Meu pai fez uma compilação dos meus textos e deu aos amigos. Pegava tudo o que eu escrevia e corrigia. Eu tinha 14 anos quando estreou a escolinha e eu comecei a rabiscar textos. Meu pai levou para o Boni, o todo poderoso, e ele quis usar.

E a comparação?
Faz parte. Na véspera (da estreia do Escolinha), eu já pensava que iam criticar. Até pensei em não fazer. Gosto de ser ator. Mas gosto mesmo é de escrever. Se pagasse as contas eu ficaria só escrevendo. Meu pai tinha esse prazer como o maior de todos e quando viu isso num filho, me estimulou.

Você está finalizando Filhos da Pátria, atuará em Fim, de Fernanda Torres. Se sente privilegiado, neste momento da cultura?
Sim. O Fim é, talvez, minha maior oportunidade como ator. Vou ter também o Cilada e vou filmar um filme meu, ano que vem. A vantagem é que, se ninguém me convidar para nada, eu faço minhas coisas. E pode citar aí, eu sou, de fato, muito pouco convidado.

Por que é pouco convidado?
Porque as pessoas já acham que eu faço minhas próprias coisas. Já teve diretor que me disse: ‘Ah! Eu ia te chamar para meu filme, mas vi que você tinha o seu’. Já perdi produções que gostaria de ter feito.

O que você tem visto?
De Democracia em Vertigem gostei muito, de O Processo também. E vi os ótimos Coringa, Bacurau. Vejo muita série e pouca comédia. O Downton Abbey, por exemplo, me motivou a fazer Filhos da Pátria.

Uma série britânica?
Gosto dessa ideia de colocar a câmera dentro da cozinha da aristocracia. E também teve meu interesse em livros de história. Mas queria contar de forma mais ‘pop’, como fizeram Peninha, Mari del Priori. Aprendemos pouco sobre nossa história. Dom Pedro, nos livros, vira um herói fabricado, como Tiradentes. Minha ideia foi pegar uma família ordinária, como a de todos nós. Você, como repórter, convive com o poder, eu, não. A gente conhece o poder pelas notícias.

Você pesquisou sobre 1920, 1930. Vê a história do País se repetir?
Muito. Minha leitura foi de Getúlio, dos livros do Lira Neto, a biografias como a do Chatô (Assis Chateaubriand). A gente vive de herói. Infeliz a nação que precisa de heróis, já dizia Prestes. A gente está sempre elegendo heróis, desde Dom Pedro. As elites se perpetuando no poder. Em Filhos da Pátria, a gente citou o Lindolfo Collor, que era o ministro do Trabalho do Getúlio. Aí hoje você vê quem? O neto, Fernando Collor. Um povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la.

Teve intenção de adaptar ‘Filhos’ para o Brasil de hoje?
Os anos 1930 dialogam muito com hoje em dia. Na primeira temporada, a gente ia escrevendo e essa relação ia surgindo naturalmente. Esta segunda temporada também. E a gente tinha, sim, o interesse de gerar uma identificação – crítica, até. O humor crítico, social, político é o que mais gosto de fazer. Você gera o debate pela comédia, que o cara assiste e, no primeiro reflexo, ele ri. Se ele riu, já foi fisgado. Fiquei feliz quando a gente fez a pesquisa e o programa foi considerado apartidário.

A palavra do momento é polarização. Como a cultura vive isso?
Ela vive um momento dificílimo. O governo não gosta da cultura. Onde eles podem ir minando, minam. Mas eu acredito que os governos passarão e a cultura vai continuar. E daqui a 30 anos o Chico Anysio vai ser falado ainda.

Chico Anysio não viveu a era das redes sociais. Como seria se estivesse aqui?
Ele seria um horror. Eu agradeço todo dia por ele não ser do tempo do Facebook. Inúmeras vezes eu já pensei nisso que você perguntou. Meu filho me perguntou. Ele ia arrumar briga demais, ia ser xingado. Ia me doer muito. Ele ia ficar doloridíssimo porque sempre teve como um troféu ser amado pelo público. Ele não ia entender o hater, como eu não entendi no começo.

Politicamente, seu pai se posicionaria nos dias de hoje?
Meu pai não se posicionava em função de um nome. Ele ia ser mais amplo para que sua crítica chegasse a todos os lados, sem viés. É como eu faço. A minha crítica é a de quem tem o poder de amplificar sua fala.

Pensa em fazer documentário sobre seu pai? Em 2022, fará 10 anos da partida dele…
Quero muito fazer. Não pensei em fazer pela data. Os amigos dele começaram a partir todos. Então é uma geração que vai chegando ao momento da troca. E aí eu vou empurrando, não dá tempo, vou fazendo outras coisas.

E se alguém fizer antes?
Eu vou ter que autorizar… (risos). Mas é um desejo meu, fazer um documentário do meu pai. Augusto Casé, meu parceiro e produtor, me fala isso que você perguntou. Mas a gente tem um acervo muito pequeno das coisas dele. Ele não guardava nada, foto, figurino. Tem uma coisa ou outra com a minha mãe (Alcione Mazzeo), com a Regina (Chaves, quarta esposa de Chico)…

Tem contato com Zélia Cardoso de Mello (sexta esposa de Chico e ministra de Economia do governo Fernando Collor)?
Não. Falo muito com a Regina. Sempre foi a mais próxima, ela casou com meu pai na minha infância. Meu pai tem sete filhos e eu sou do meio. Cada um de mãe diferente. E cidades distintas. Nizo, por exemplo, está morando aqui em São Paulo. É com quem eu mais falo, e também com Rico e Cícero, que é meu afilhado.

Você tem uma relação de amizade e parceria profissional com Fernanda Torres. De onde vem?
De muitos anos… A Fernanda mãe até me mandou um áudio no WhatsApp. Ela é muito feliz com minha parceria com a Nanda, porque ela começou na Rádio Guanabara nos anos 1940, no exato mesmo dia que meu pai, no mesmo teste. E nesse áudio a Fernanda mãe relembra isso. Ela me mandou a biografia dela, com uma dedicatória linda.

Logo após os ataque a Fernanda Montenegro, Roberto Alvim virou secretário de Cultura. O que achou?
O jogo que está se jogando no Brasil é o seguinte: quem fala bem de mim, está dentro. Você vive num país em que o presidente quis acabar com a Ancine. Vários Estados, SP, PE, BA, vivem uma resistência à censura, ao esmagamento. Na impossibilidade de proibir, esmagam. Para ver se a cultura para sozinha.

Como isso tem repercutido no trabalho do artista?
Viajamos com 5 x Comédia, que acabou agora, após 3 anos. Numa época de crise no teatro, a gente viajou o Brasil. As pessoas reagiam a nosso favor quando, no final das apresentações, colocávamos os episódios de censura na cultura. Lotar teatro hoje e poder fazer Filhos da Pátria é um ato político, ato de resistência. Acho que nesses momentos é que a cultura cresce.

Os artistas estão se posicionando nas redes sociais…
Alguns. Aí é de cada um. Eu me posiciono nas minhas redes em favor da cultura, contra a censura, o desmatamento, o racismo, a homofobia. E tenho colegas que perderam trabalhos por conta de posicionamento.

Você vê radicalização na direita de Bolsonaro e na esquerda de Lula?
Vejo. Agora, tem um lado que odeia mais (risos).

Tem acompanhado as notícias no Rio de Janeiro?
O Rio vive um momento de grande tristeza. Toda vez que vou para lá sinto um baixo astral, a cultura sucateada, museu e teatro fechando. O Rio sempre foi um lugar de alegria.

Acha que esse baixo astral existe em São Paulo?
Ao contrário! A cidade está ocupada, mil coisas boas acontecendo e muito por causa do secretário de Cultura, Alê Youssef, que não foi colocado ali por conta de partido político. Nomeou o Hugo Pussolo diretor artístico do Theatro Municipal. Enquanto no Municipal do Rio falta água! Achei bom que um governo do PSDB (Bruno Covas), que não é de esquerda, deu essa carta branca para Alê.

A educação seria uma saída?
O atual ministro da Educação é a pessoa mais sem graça do Brasil. Além de ser um cara que não entende nada do métier, tenta fazer piada. É uma figura desagradável. E tem um governador (Wilson Witzel) que pula do helicóptero comemorando morte como se fosse gol. É demais!

O que acha da candidatura a presidente de Luciano Huck ?
Já convivi muito com Luciano. Minha ex-mulher (a atriz Renata Castro Barbosa) era amiga da Angélica. Gosto muito dele. Acho-o um cara muito íntegro, gentil, inteligentíssimo. Acho que ele pode ser, sim, uma alternativa… É hora de uma renovação, mas com gente nova. Não de idade, mas de gente com ideia nova.

 

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